Poltrona Cabine: Era Uma Vez Minha Mãe/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Era Uma Vez Minha Mãe/Cesar Augusto Mota

Família não representa apenas formação e desenvolvimento, é o legítimo porto seguro, suporte e sustentação de um núcleo, no qual podemos sempre nos apoiar e confiar. Justamente essa importância, com foco no apoio maternal que “Era Uma Vez Minha Mãe”, de Ken Scott, chega para emocionar o público.

A trama se passa em 1963, Esther dá luz a Roland, que nasce com uma deficiência em que não consegue andar devido aos seus pés tortos. Esther promete para seu filho, apesar da opinião alheia contrária, que ele terá a vida que quiser, cheia de conquistas e momentos de sucesso. Esther passa a lutar para cumprir sua promessa e oferecer tudo que Roland precisa e deseja.

Uma das válvulas de escape de Roland é a música, e sua idolatria pela cantora e atriz Sylvie Vartan, que tem participação especial no filme e decisiva. A trajetória de Roland até se tornar o advogado de Sylvie é comovente, graças à sua mãe, que mesmo com um comportamento enérgico e algumas vezes sufocante fez de tudo para que ele vivesse feliz e com dignidade, deveras o preconceito que sofreu por conta de sua deficiência.

Explorar o emocional de mãe e filho foi um grande acerto, que soube ilustrar as dificuldades dos dois lados, de Roland, que enfrenta as barreiras do dia a dia, e de Esther, que não só busca forças para dar apoio ao filho, mas também superar seus medos e inseguranças acerca de seu papel de mãe. As atuações são vibrantes, com muita autenticidade e que proporcionam emoções do início ao fim da história, sem esquecer do elenco de apoio, que dá um importante suporte aos protagonistas.

Comovente, autêntico e inspirador, “Era Uma Vez Minha Mãe” mostra que é sempre possível realizar sonhos, e com o apoio das pessoas certas, a possibilidade de êxito é ainda maior.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Exit 8/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Exit 8/Cesar Augusto Mota

Adaptar jogos de videogame está cada vez mais comum, seja para desenvolver séries, bem como longas-metragens. Temos o sucesso de “The Last of Us”, jogo que virou série na HBO, e o mais recente sucesso “Super Mario Galaxy”, inspirado no jogo de mesmo nome. “Exit 8”, de Genki Kawamura, tem como referência um jogo homônimo japonês, mas será que essa adaptação funciona?

O jogo tem como enredo o dilema de um homem que se vê preso em corredores de uma estação de metrô e teria que cumprir regras para conseguir sair do local.  Caso se deparasse com algo estranho, teria que recuar, caso contrário, avançar. O que parece ser um looping infinito, ele teria que acertar oito vezes, e em caso de erro, voltaria à estaca zero. Um exercício de atenção do jogador, e que gera cansaço e tédio no cinema.

A estética de Exit 8 é reproduzida com perfeição, exatamente como no jogo, com os corredores da estação de metrô e a visão em primeira pessoa do protagonista. Posteriormente, a visão é de terceira pessoa, e a dinâmica de encontrar o caminho certo oito vezes se mantém, e alguns elementos são adicionados à história, como um emprego temporário, uma namorada grávida e uma criança, mas após um terço de filme, não há mais nada a ser contado, o que gera frustração após muita repetição.

Há o efeito do jumpscare, mas o terror psicológico é que movimenta a trama, com o sentimento de claustrofobia de um homem enquanto há um mundo do lado externo, no qual sequer tem tempo para pensar o que está acontecendo. No jogo, seria exigido agilidade do jogador na resolução do caso e muita atenção, mas a adaptação acaba com uma narrativa arrastada, sem muitas surpresas e um sentimento de cansaço e vontade de se levantar e ir embora depois de uma jornada estafante.

“Exit 8” é um longa com potencial, mas que acaba por esbarrar na tentativa de tentar repetir a experiência nos videogames em salas de exibição. Cada um consegue explorar o ambiente de maneira ampla, mas com sensação e  experiência distintas.

Cotação: 2,5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Vidas Entrelaçadas/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Vidas Entrelaçadas/Cesar Augusto Mota

Na vida, nada é por acaso, tudo tem uma razão para acontecer. Existe destino ou apenas meras coincidências? E se três histórias, completamente independentes e sem nenhuma relação se conectassem?  Com direção de Alice Winocour, “Vidas Entrelaçadas” mostra que a conexão entre mulheres pode abrir novos caminhos e possibilidades.

Ambientado durante o frenesi da Paris Fashion Week, a produção segue a vida de três mulheres: Maxine (Angelina Jolie), uma cineasta na casa dos quarenta que descobre que tem câncer de mama e é atraída para uma conexão inesperada com um colaborador familiar; Ada (Anyier Anei), um rosto novo na modelagem, escapando de um futuro predeterminado no Sudão do Sul; e Angèle (Ella Rumpf), uma maquiadora que trabalha nas sombras das passarelas. À medida que seus caminhos se cruzam, o filme revela a resiliência silenciosa sob a superfície da performance pública e homenageia a solidariedade compartilhada entre essas mulheres em profissões, culturas e continentes.

Mesmo com culturas distintas e as barreiras no idioma, laços improváveis foram traçados por meio da linguagem da tolerância e compreensão, uma autêntica sororidade entre mulheres. Cada dificuldade e experiência serviu de aprendizado e motivação para as três protagonistas, que também puderam aprender um pouco mais sobre si mesmas. Lacunas foram preenchidas e novos passos puderam ser dados.

Um ponto negativo está no ritmo da narrativa, demasiadamente lenta, provocando tédio e desmotivação em dados momentos da trama, o que poderia pôr tudo a perder, mas as atuações coesas do elenco, com destaque para Angelina Jolie, que oferece uma personagem forte, honesta e que ensina o verdadeiro valor da amizade. Seu desempenho permite que as demais atrizes também brilhem e a trama seja acompanhada e tenha boa aceitação do público.

A diretora Alice Winocour também possui seus méritos, não só mostrando com sutileza todos os segredos e percalços no mundo da moda como ilustra o espírito de resistência das protagonistas sem abusar do drama e do sensacionalismo, tudo ocorre naturalmente e se desenrola com fluidez. Uma história que funciona e bem conduzida por elenco e direção.

Forte, envolvente e inspirador, “Vidas Entrelaçadas” é uma verdadeira lição para nossas trajetórias. Por maiores que sejam os obstáculos, devem ser encarados com coragem e nunca deve ser perdido o espírito de resistência. Não se pode parar, é preciso seguir em frente. Um filme do qual não se esperava muito e entrega tudo, quem sair da sala de exibição irá se sentir diferente de quando entrou. Uma experiência que tem tudo para ser inesquecível.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Pinóquio/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Pinóquio/Cesar Augusto Mota

As adaptações literárias seguem a todo vapor no universo cinematográfico. Criado pelo escritor italiano Carlo Collodi, Pinóquio ganhou sua primeira adaptação para o cinema em 1940, em uma animação icônica da Disney. Mais recentemente, em 2022, foi lançada uma live-action sob a direção de Guillermo Del Toro com uma aura sombria, não sendo bem recebida pelo público e crítica. Em 2026, a aposta é sob a ótica da cultura russa, será que funciona?

A história acompanha o carpinteiro Gepeto, que ao ver uma estrela cadente deseja que o boneco de madeira que acabou de construir se torne um menino de verdade. Naquela mesma noite, o desejo se realiza, Pinóquio ganha vida e inicia uma nova jornada cheia de aventuras, descobertas e lições sobre coragem, amizade e responsabilidade.

O elenco é composto por atores russos e a narrativa carrega elementos típicos da literatura do país, com abordagem fantasiosa e com uma estética próxima do clássico visto na produção da Disney.  Trata-se de uma releitura baseada em “Buratino”, famoso conto do escritor russo Alexei Tolstoy, que primava por debates sociais, o sentido da vida e as complexidades acerca da condição humana.

O arco dramático de Pinóquio é construído de forma cuidadosa, com o personagem passando por uma profunda transformação e amadurecimento, mas sem perder sua essência, de um garoto cheio de sonhos, que quer viver a infância em sua plenitude, construindo sua identidade e superando os obstáculos da vida. O filme representa um pouco de nostalgia, mas visa também apresentar o universo de Pinóquio para novas gerações e mostrar que a obra de Carlo Collodi continua sendo atual.

Reflexivo, dotado de beleza estética, elenco coeso e história envolvente traduzem o que é “Pinóquio”, agora sob a perspetiva dos russos e que sem dúvida vai agradar as gerações antigas e irá fisgar as novas.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Voz de Deus/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Voz de Deus/Cesar Augusto Mota

Com as redes sociais cada vez mais constantes e a fé muito difundida entre as classes sociais, a tendência é do aumento do número de debates e o surgimento de novos pregadores religiosos. O documentário “A Voz de Deus”, de Miguel Antunes Ramos, revela a aparição de dois jovens evangélicos tidos como prodígios entre os adeptos, com muita visibilidade e uma superexposição, que poderia ter sido prejudicial.

O filme acompanha Daniel Pentecoste, que viveu o auge da popularidade ainda criança e hoje lida com o fim dessa visibilidade, e João Vitor Ota, que, na abordagem feita no documentário, vive justamente o momento de maior projeção. A obra é feita ao longo de cinco anos, que aproxima essas duas histórias para refletir sobre a fé no Brasil de hoje, observando como sonhos, expectativas e transformações atravessam a vida desses jovens.

Quem espera espetacularização e romantização do evangelho pregado por crianças se surpreende, pois o diretor vai pelo sentido oposto, com uma abordagem sensível, formado por cenas de bastidores, ilustrando a pressão das famílias, das comunidades e o significado das palavras que compõem os discursos dos personagens em foco. A palavra de Deus é ilustrada na íntegra, sem cortes, e não há narrações em off. A partir da pregação, o espectador é convidado ao debate, mas sem juízo de valor, não há um lado certo ou errado da história, todas as crenças são respeitadas.

A importância da religião é o ponto mais alto do documentário, que molda identidades, transforma as massas, dá suporte emocional e prega valores, como fraternidade, amor e humildade. A fé não é um espetáculo, mas uma linguagem dos povos, o público contempla os cultos e ao mesmo tempo tem uma visão crítica acerca das mensagens transmitidas, mas com compreensão e respeito. O objetivo é levar a palavra de Deus a todas as classes, não há um escopo de doutrinar, mas de fazer todas as classes conhecerem os ensinamentos divinos e o legado deixado para as atuais gerações e as futuras.

“A Voz de Deus” é uma obra relevante e para todos os públicos, não só pelo tema, mas a forma que o diretor escolhe para a transmissão das mensagens, com linguagem polida e séria, sem espaço para confusão entre política e religião, tão comum em um mundo cada vez mais dinâmico e digital.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota