Poltrona Cabine: Exit 8/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Exit 8/Cesar Augusto Mota

Adaptar jogos de videogame está cada vez mais comum, seja para desenvolver séries, bem como longas-metragens. Temos o sucesso de “The Last of Us”, jogo que virou série na HBO, e o mais recente sucesso “Super Mario Galaxy”, inspirado no jogo de mesmo nome. “Exit 8”, de Genki Kawamura, tem como referência um jogo homônimo japonês, mas será que essa adaptação funciona?

O jogo tem como enredo o dilema de um homem que se vê preso em corredores de uma estação de metrô e teria que cumprir regras para conseguir sair do local.  Caso se deparasse com algo estranho, teria que recuar, caso contrário, avançar. O que parece ser um looping infinito, ele teria que acertar oito vezes, e em caso de erro, voltaria à estaca zero. Um exercício de atenção do jogador, e que gera cansaço e tédio no cinema.

A estética de Exit 8 é reproduzida com perfeição, exatamente como no jogo, com os corredores da estação de metrô e a visão em primeira pessoa do protagonista. Posteriormente, a visão é de terceira pessoa, e a dinâmica de encontrar o caminho certo oito vezes se mantém, e alguns elementos são adicionados à história, como um emprego temporário, uma namorada grávida e uma criança, mas após um terço de filme, não há mais nada a ser contado, o que gera frustração após muita repetição.

Há o efeito do jumpscare, mas o terror psicológico é que movimenta a trama, com o sentimento de claustrofobia de um homem enquanto há um mundo do lado externo, no qual sequer tem tempo para pensar o que está acontecendo. No jogo, seria exigido agilidade do jogador na resolução do caso e muita atenção, mas a adaptação acaba com uma narrativa arrastada, sem muitas surpresas e um sentimento de cansaço e vontade de se levantar e ir embora depois de uma jornada estafante.

“Exit 8” é um longa com potencial, mas que acaba por esbarrar na tentativa de tentar repetir a experiência nos videogames em salas de exibição. Cada um consegue explorar o ambiente de maneira ampla, mas com sensação e  experiência distintas.

Cotação: 2,5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Vidas Entrelaçadas/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Vidas Entrelaçadas/Cesar Augusto Mota

Na vida, nada é por acaso, tudo tem uma razão para acontecer. Existe destino ou apenas meras coincidências? E se três histórias, completamente independentes e sem nenhuma relação se conectassem?  Com direção de Alice Winocour, “Vidas Entrelaçadas” mostra que a conexão entre mulheres pode abrir novos caminhos e possibilidades.

Ambientado durante o frenesi da Paris Fashion Week, a produção segue a vida de três mulheres: Maxine (Angelina Jolie), uma cineasta na casa dos quarenta que descobre que tem câncer de mama e é atraída para uma conexão inesperada com um colaborador familiar; Ada (Anyier Anei), um rosto novo na modelagem, escapando de um futuro predeterminado no Sudão do Sul; e Angèle (Ella Rumpf), uma maquiadora que trabalha nas sombras das passarelas. À medida que seus caminhos se cruzam, o filme revela a resiliência silenciosa sob a superfície da performance pública e homenageia a solidariedade compartilhada entre essas mulheres em profissões, culturas e continentes.

Mesmo com culturas distintas e as barreiras no idioma, laços improváveis foram traçados por meio da linguagem da tolerância e compreensão, uma autêntica sororidade entre mulheres. Cada dificuldade e experiência serviu de aprendizado e motivação para as três protagonistas, que também puderam aprender um pouco mais sobre si mesmas. Lacunas foram preenchidas e novos passos puderam ser dados.

Um ponto negativo está no ritmo da narrativa, demasiadamente lenta, provocando tédio e desmotivação em dados momentos da trama, o que poderia pôr tudo a perder, mas as atuações coesas do elenco, com destaque para Angelina Jolie, que oferece uma personagem forte, honesta e que ensina o verdadeiro valor da amizade. Seu desempenho permite que as demais atrizes também brilhem e a trama seja acompanhada e tenha boa aceitação do público.

A diretora Alice Winocour também possui seus méritos, não só mostrando com sutileza todos os segredos e percalços no mundo da moda como ilustra o espírito de resistência das protagonistas sem abusar do drama e do sensacionalismo, tudo ocorre naturalmente e se desenrola com fluidez. Uma história que funciona e bem conduzida por elenco e direção.

Forte, envolvente e inspirador, “Vidas Entrelaçadas” é uma verdadeira lição para nossas trajetórias. Por maiores que sejam os obstáculos, devem ser encarados com coragem e nunca deve ser perdido o espírito de resistência. Não se pode parar, é preciso seguir em frente. Um filme do qual não se esperava muito e entrega tudo, quem sair da sala de exibição irá se sentir diferente de quando entrou. Uma experiência que tem tudo para ser inesquecível.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Pinóquio/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Pinóquio/Cesar Augusto Mota

As adaptações literárias seguem a todo vapor no universo cinematográfico. Criado pelo escritor italiano Carlo Collodi, Pinóquio ganhou sua primeira adaptação para o cinema em 1940, em uma animação icônica da Disney. Mais recentemente, em 2022, foi lançada uma live-action sob a direção de Guillermo Del Toro com uma aura sombria, não sendo bem recebida pelo público e crítica. Em 2026, a aposta é sob a ótica da cultura russa, será que funciona?

A história acompanha o carpinteiro Gepeto, que ao ver uma estrela cadente deseja que o boneco de madeira que acabou de construir se torne um menino de verdade. Naquela mesma noite, o desejo se realiza, Pinóquio ganha vida e inicia uma nova jornada cheia de aventuras, descobertas e lições sobre coragem, amizade e responsabilidade.

O elenco é composto por atores russos e a narrativa carrega elementos típicos da literatura do país, com abordagem fantasiosa e com uma estética próxima do clássico visto na produção da Disney.  Trata-se de uma releitura baseada em “Buratino”, famoso conto do escritor russo Alexei Tolstoy, que primava por debates sociais, o sentido da vida e as complexidades acerca da condição humana.

O arco dramático de Pinóquio é construído de forma cuidadosa, com o personagem passando por uma profunda transformação e amadurecimento, mas sem perder sua essência, de um garoto cheio de sonhos, que quer viver a infância em sua plenitude, construindo sua identidade e superando os obstáculos da vida. O filme representa um pouco de nostalgia, mas visa também apresentar o universo de Pinóquio para novas gerações e mostrar que a obra de Carlo Collodi continua sendo atual.

Reflexivo, dotado de beleza estética, elenco coeso e história envolvente traduzem o que é “Pinóquio”, agora sob a perspetiva dos russos e que sem dúvida vai agradar as gerações antigas e irá fisgar as novas.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Voz de Deus/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Voz de Deus/Cesar Augusto Mota

Com as redes sociais cada vez mais constantes e a fé muito difundida entre as classes sociais, a tendência é do aumento do número de debates e o surgimento de novos pregadores religiosos. O documentário “A Voz de Deus”, de Miguel Antunes Ramos, revela a aparição de dois jovens evangélicos tidos como prodígios entre os adeptos, com muita visibilidade e uma superexposição, que poderia ter sido prejudicial.

O filme acompanha Daniel Pentecoste, que viveu o auge da popularidade ainda criança e hoje lida com o fim dessa visibilidade, e João Vitor Ota, que, na abordagem feita no documentário, vive justamente o momento de maior projeção. A obra é feita ao longo de cinco anos, que aproxima essas duas histórias para refletir sobre a fé no Brasil de hoje, observando como sonhos, expectativas e transformações atravessam a vida desses jovens.

Quem espera espetacularização e romantização do evangelho pregado por crianças se surpreende, pois o diretor vai pelo sentido oposto, com uma abordagem sensível, formado por cenas de bastidores, ilustrando a pressão das famílias, das comunidades e o significado das palavras que compõem os discursos dos personagens em foco. A palavra de Deus é ilustrada na íntegra, sem cortes, e não há narrações em off. A partir da pregação, o espectador é convidado ao debate, mas sem juízo de valor, não há um lado certo ou errado da história, todas as crenças são respeitadas.

A importância da religião é o ponto mais alto do documentário, que molda identidades, transforma as massas, dá suporte emocional e prega valores, como fraternidade, amor e humildade. A fé não é um espetáculo, mas uma linguagem dos povos, o público contempla os cultos e ao mesmo tempo tem uma visão crítica acerca das mensagens transmitidas, mas com compreensão e respeito. O objetivo é levar a palavra de Deus a todas as classes, não há um escopo de doutrinar, mas de fazer todas as classes conhecerem os ensinamentos divinos e o legado deixado para as atuais gerações e as futuras.

“A Voz de Deus” é uma obra relevante e para todos os públicos, não só pelo tema, mas a forma que o diretor escolhe para a transmissão das mensagens, com linguagem polida e séria, sem espaço para confusão entre política e religião, tão comum em um mundo cada vez mais dinâmico e digital.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Cinco Tipos de Medo/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Cinco Tipos de Medo/Cesar Augusto Mota

Filmes de ação costumam ser a preferência do grande público, mas se em vez de uma forem várias histórias contadas e posteriormente conectadas? Com direção de Bruno Bini, “Cinco Tipos de Medo” marca as estreias de Bella Campos e Xamã nos cinemas, bem como traz ainda as participações de João Vitor Silva, Bárbara Colen, Rui Ricardo Diaz e grande elenco, em uma trama marcada por intensidade e grandes reviravoltas.

Murilo, um jovem músico em luto, se envolve com Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. Suas histórias acabam por se cruzar com as de Luciana, policial movida por vingança, e Ivan, advogado com intenções ocultas. Cinco vidas aparentemente sem conexão que se colidem em um caminho sem volta.

As histórias são aparentemente dispersas, sem rumo, mas são marcadas por decisões difíceis que os personagens precisam ou não tomar, e cada escolha gera consequências e pode mudar toda uma trajetória percorrida pelos protagonistas e elenco de apoio. Cada integrante da trama tem sua personalidade cuidadosamente construída, para que o espectador compreenda suas motivações, fragilidades e possíveis controvérsias. Os arcos dramáticos funcionam isoladamente e quando se juntam completam as pontas que ficaram soltas.

Os encaixes ocorrem de forma natural, sem pressa, as atuações são sólidas e contribuem para a perfeita fluidez da produção e o público consegue se envolver com os dilemas dos personagens. Se há problemas nas transições das histórias, o espectador não percebe, tendo em vista o arco dramático e as escolhas que são feitas, na maior parte impactantes. As formas diferentes de medo podem conduzir pessoas a caminhos inimagináveis e alguns sem volta, e tudo isso atrai quem acompanha.

Quem não esperava nada por esse filme acaba por se surpreender, se deparando com um perfeito mosaico que reflete as diversas camadas sociais presentes em nossa sociedade e um autêntico efeito dominó nas escolhas que pareciam isoladas e sem relação. Uma proposta diferente e surpreendente para quem estava acostumado com narrativas lineares com soluções fáceis.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota