Poltrona Cabine: A Matriarca/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Matriarca/Cesar Augusto Mota

Pequenos gestos podem não ser nada, mas significar muito para pessoas se sentirem suficientemente acolhidas e abraçadas. Com essa premissa mergulhamos no filme ‘A Matriarca’ (Juniper), obra escrita e dirigida por Matthew J. Saville, com Charlotte Rampling como protagonista. Um filme reflexivo, cômico e recheado de emoções.

Rampling vive Ruth, uma correspondente de guerra que está aposentada e possui problemas de saúde decorrentes do consumo de álcool. Após ser expulso de um internato, o neto Sam (George Ferrier) irá se surpreender ao encontrar a avó que não conhecia, na antiga casa da família. O encontro entre eles inicialmente não é nada amistoso, mas são obrigados a conviver e suas vidas dão importantes reviravoltas.

Com uma personalidade rude e difícil, a protagonista passa por um complexo arco dramático, sejam nas cenas solo ou nas em que interage com o neto Sam, com os nós aos poucos sendo desatados. Segredos do passado de Ruth são ao pouco revelados, que passam a fazer diferença na relação com Sam, e que vão impactar na relação com os demais personagens da trama. E Sam, além dos problemas que possui com o pai, oriundos de um relacionamento distante, passa a compreender que ele pode fazer a diferença não só na vida de sua avó, mas na de si próprio.

Temas importantes e que podem ser pesados, como solidão, morte e dor, são abordados com muita sutileza e bom humor, o que acaba por ser bem recebido pelo público, que passa a debater sobre as formas como enxergamos a vida e maneiras de resolver os problemas cotidianos. O uso do drama é preciso, sem exageros ou apelação para o sentimentalismo, e a simplicidade das ações e o carisma dos personagens são outros pontos altos, tornando a experiência mais agradável.

A química entre os atores é impressionante, com a impressão de que Charlotte Rampling e George Ferrier já se conhecem há um longo tempo, e a atuação de um completa a do outro, sem deixar pontas soltas na história e com uma conclusão satisfatória. Quem acompanha a história sente empatia pelos personagens e torce por eles, numa montanha russa de emoções.

‘A Matriarca’ oferece uma experiência épica e inesquecível, com lições para toda a vida. Uma jornada que merece ser conferida e compartilhada.

Cotação: 5/5 poltronas. 

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Jogo da Morte/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Jogo da Morte/Cesar Augusto Mota

Estar conectado à Internet pode significar proximidade e cumplicidade, mas se a comunicação for feita com algum desconhecido podem surgir surpresas desagradáveis ou até mesmo fatais. Por volta de 2017, um jogo começou a se popularizar entre os jovens ao redor do mundo, a Baleia Azul, e o número de suicídios começou a crescer vertiginosamente. Nesse contexto, somos apresentados ao filme russo ‘O Jogo da Morte’ (Blue Whale), com uma trama tensa, assustadora e bastante instigante, recheada de muita agonia, perseguição e manipulação.

Acompanhamos Dana Brunetti, que recentemente perdeu a irmã Julia após esta se jogar na frente de um trem. Para desvendar o ocorrido, Dana vasculha todas as redes sociais da irmã e se depara com uma série de vídeos e prints que remetiam ao jogo da Baleia Azul, que levaram Julia ao suicídio. Disposta a descobrir a identidade dos responsáveis pela articulação do jogo, Dana resolve entrar nele, mas encontra dificuldades para sair e passa a ter sua vida e de sua mãe em perigo. Caso mentisse no jogo ou não cumprisse alguma das 50 tarefas em um período de 50 dias, tudo poderia ir por água abaixo.

De início, a representação visual chama a atenção, com a tela do computador ocupando espaço no vídeo e a câmera bem próxima dos rostos dos envolvidos com o jogo mortal da Baleia Azul, em uma perfeita simulação de um ambiente virtual. A adoção de planos fechados e o uso de sons estrondosos aliados a jump scares são recursos interessantes e que realçam o clima alarmante que é estar em um jogo que exige o cumprimento de tarefas insanas, dolorosas e humilhantes. E sem esquecer do principal vilão, Ada Mort, que veste uma capa preta e uma máscara branca e feia. Uma narrativa que faz o espectador traçar semelhanças com Jogos Mortais e a saga Pânico, do icônico Ghostface, que também usava uma capa e máscara.

O roteiro apresenta uma história que explora temas recorrentes e importantes, como bullying, culpa, medo da rejeição e a importância da supervisão da vida de filhos adolescentes por pais que muitas vezes nem se dão conta do que se passa com os jovens em ambientes virtuais. E sem esquecer de como funciona a mente de pessoas que se sentem perturbadas, encurraladas e pressionadas, e isso é bem ilustrado ao longo dos 94 minutos, o que faz o espectador ficar ainda mais intrigado e estimulado.

‘O Jogo da Morte’ cumpre tudo o que promete, com um enredo intrigante, assustador e surpreendente, que conta com um jogo de perfeita manipulação e pressão psicológica, e uma protagonista vibrante, corajosa e disposta a ir até as últimas consequências. E os personagens secundários Vika, a melhor amiga de Dana; e Max Vescovi, o namorado, reservam grandes momentos na história, bem como são importantes para o desfecho. Uma experiência inesquecível para quem gosta de terror aliado a um bom drama, vale conferir.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Nosso Lar 2: Os Mensageiros/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Nosso Lar 2: Os Mensageiros/Cesar Augusto Mota

Embate entre corpo e mente, a existência da fé em contraponto à descrença, e a ponte entre o êxito e o fracasso. Várias dessas antíteses se fazem presentes na vida de muitas pessoas, e tudo isso possui um elemento em comum: atitude. Tudo depende do que você faz, e cada ação leva a uma consequência. Inspirado no best seller ‘Os Mensageiros’, de Chico Xavier, ‘Nosso Lar 2: Os Mensageiros’ possui uma bela proposta, com uma história de fé, amor e perdão.

Conhecemos o grupo espiritual Nosso Lar, liderado pelo mensageiro Aniceto (Edson Celulari), cujo objetivo é o de salvar projetos de vida que estão prestes a desmoronar. Junta-se à equipe o médico André Luiz (Renato Prieto), e todos passam a se dedicar a cuidar de três protegidos cujas histórias são interligadas: Otávio (Felipe de Carolis), um jovem com o dom da mediunidade e com uma vida promissora, mas que se desvirtua no caminho; Isidoro (Mouhamed Harfouch), líder de um centro de caridade, e Fernando (Rafa Sieg), empresário responsável pelo financiamento do projeto.

Na medida em que conhecemos a trajetória de vida de cada um dos irmãos, Isidoro, Otávio e Fernando, percebemos que algo faltava para cada um ter uma vida plena e feliz: fé. E após a passagem dos três pela Terra, foram retratados como entes que habitavam as sombras, incrédulos e totalmente perdidos, com destaque para Otávio, disposto a levar com ele outros irmãos para o fracasso. Mas a retratação do trabalho do grupo Nosso Lar, de como os mensageiros atuavam na vida das pessoas e as transformações que aconteciam nos mostraram ser possível trilhar novos caminhos e escrever novas histórias.

Assuntos como reencarnação e vida após a morte também entram em pauta e ambos são bem abordados visualmente, com um ambiente de cores frias e aspecto futurista, o Bosque das Águas, local de encontro entre os mensageiros. Além disso, há um jogo de luzes e efeitos especiais para ilustrar a limpeza do corpo físico e a força mental. O grupo Nosso Lar não é só uma ponte para que as pessoas possam se salvar, ele serve de inspiração e um caminho para quem deseja se reencontrar ou ratificar suas escolhas. A produção faz questão de mostrar que não defende uma religião específica, mas que Deus se faz presente em todas as religiões.

Uma obra feita com leveza, assuntos sensíveis e mensagens importantes. ‘Nosso Lar 2: Os Mensageiros’ chega com o intuito de abrir os olhos, iluminar caminhos e mostrar que o mundo precisa de amor, compreensão e perdão, escolhas felizes e finais felizes.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Bizarros Peixes das Fossas Abissais/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Bizarros Peixes das Fossas Abissais/Cesar Augusto Mota

Animações costumam ser grandes atrativos para todos os públicos, com histórias divertidas, lineares, com muitas cores vivas e histórias com belos ensinamentos por trás. Mas a obra desenhada, produzida e dirigida pelo cineasta Marão foge do lugar comum. ‘Bizarros Peixes das Fossas Abissais’, uma obra com um título um tanto estranho, não só aborda o esquisito, mas explora a catarse, a fluidez dos nossos pensamentos e a capacidade de evolução e aprendizado do ser humano.

Acompanhamos uma típica jornada do herói, com uma jovem dotada de poderes excêntricos, que percorre da Baixada Fluminense até Belgrado em busca de um mapa que irá levar para um precioso tesouro, uma planta que será capaz de curar o Azheimer, séria doença degenerativa de seu avô. E para ajudá-la, contará com o auxílio de uma tartaruga que sofre de TOC e uma nuvem com incontinência pluviométrica. E, de quebra, um grande confronto no oceano em busca do tão sonhado mapa.

O uso de novos recursos, como a técnica de full animation, na qual os traços e movimentos dos personagens são refeitos na medida em que a história fica mais intensa encaixa direitinho com a jornada na qual os três protagonistas se submetem, pois há uma dose de humor exagerado, além de leveza nesta animação voltada para o púbico adulto. O humor nonsense empregado foge do lugar comum, e o espectador percorre locais e situações inimagináveis antes de se deparar com o perigo.

Além do emprego de recursos que enriquecem a trama, a interação dos protagonistas e o deleite do público, a sintonia entre os protagonistas também é outro ponto forte, pois cada um é dotado de um talento e a junção de todos eles desencadeia grandes desdobramentos e proporciona muitas surpresas. Um humor diferente, surpreendente e libertador.  Após uma icônica conclusão, o espectador sai com uma sensação de leveza e extrema satisfação  ao se deparar com uma trama bem articulada, movimentos bem ritmados, um excelente trabalho de efeitos sonoros e uma boa variação entre cores quentes e frias.

Se você busca um humor diferente, ácido, bizarro e que beira à catarse, ‘Bizarros Peixes das Fossas Abissais’ é uma ótima sugestão. Um prato cheio e de ótimos ingredientes.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Diário de uma Onça/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Diário de uma Onça/Cesar Augusto Mota

Conhecida por sua abundância em água e a diversidade da fauna e da flora, o Pantanal está cada vez mais ameaçado, seja pela ação humana ou pelas constantes mudanças climáticas. Em meio a esse cenário, iremos acompanhar uma história real que envolve uma onça pintada, a terceira de sua linhagem que foi libertada e posta na natureza. O que será que a jornada de Leventina nos reserva?

A responsável por dar vida à protagonista é a atriz Alanis Guillen, a Juma do remake da novela Pantanal, da TV Globo. Ela usa o recurso do voice over durante o documentário “Diário de uma Onça”, produzido por WCP em coprodução com Ventre Studio e Globoplay. Mas antes de ouvirmos a trajetória de Leventina na voz de Alanis, que procura encontrar o tom certo conforme o momento apresentado em tela, vamos nos inteirar de momentos que envolveram Fera e Ferinha, outras duas onças pintadas que foram libertadas pela organização Onçafari e que também passaram por percalços antes de ficarem livres na natureza.

Quem acompanha o documentário se depara com um formato diferente do habitual, com uma narração em primeira pessoa e o tratamento de duas onças por “mãe” e “vó” na voz de Alanis. O voice over torna a peça mais imersiva e cria uma empatia entre público e natureza, que se aproxima do cenário retratado, bem como dos animais que lutam por sobrevivência e enfrentam ameaça de extinção. Com um sotaque característico dos nativos do Pantanal, Alanis imprime sinceridade e muita autenticidade acerca da real situação das espécies que habitam o local, além do cenário que é palco do dia a dia das três onças, antes de viverem na natureza.

 Além disso, o tratamento dado ao ser humano e à onça pintada não é apenas o de predador e presa, é possível perceber durante o documentário que é possível existir uma relação amistosa entre ambos e que a onça não é vista apenas como um animal feroz, mas sim como um símbolo de resistência e até mesmo da criação do mundo, que habita, resguarda e protege. O trabalho dos biólogos com os animais antes de serem soltos mostra que é possível mudar de olhar acerca da relação entre homem e onça, sem esquecer dos riscos e o sofrimento dos bichos, que são vistos como incômodo por peões e pecuaristas, de olho no futuro e em seus negócios.

Ela não é somente um elemento de cenário, Leventina é um autêntico personagem, que vive, tem medos, reage e se adapta ao ambiente conforme a situação. Vale a pena acompanhar sua trajetória antes de sua nova rotina, viver na natureza, tornando-a posteriormente sua mãe.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota