Poltrona Cabine: Jardim dos Desejos/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Jardim dos Desejos/Cesar Augusto Mota

“A jardinagem é uma metáfora particularmente rica, tanto positiva, quanto negativamente.” Esta afirmação do cineasta Paul Schrader ilustra que a arte de cultivo e cuidados com plantas mostram semelhanças com a vida real, seja por existirem situações agradáveis e merecedoras de curtição, ou de segredos obscuros que seriam ervas daninhas que precisam ser desfeitas e resolvidas de uma vez por todas. ‘Jardim dos Desejos` é um longa cheio de percalços, reflexões e aprendizados que Schrader oferece ao espectador.

Narvel Roth (Joel Redgerton) é um meticuloso horticultor de Gracewood Gardens, bastante dedicado em cuidar da propriedade e em agradar a senhora Norma Haverhill (Sigourney Weaver). O caos começa a se instalar quando Norma exige que Roth aceite Maya (Quintessa Swindell), sua problemática sobrinha-neta, como aprendiz. Um passado violento e sombrio é aos poucos revelado, sendo uma grande ameaça a todos eles.

O recurso de voice over utilizado por Roth não só serve para situar o espectador, como também para fazer um paralelo entre jardinagem e mundo real, com comparações entre a nomenclatura das plantas e situações do cotidiano. O ambiente de Gracewood Gardens, composto por uma estufa e um labirinto recheado de plantas e flores, é uma espécie de alívio para quem acompanha, antes que algum segredo seja revelado. A trilha sonora também é uma válvula de escape, bem como os planos abertos e com pouca luminosidade.

O sentimento de pertencimento a um grupo, a cumplicidade e o amadurecimento são outros temas abordados e ocorrem principalmente pela interação entre Roth e Maya. A relação entre eles, inicialmente entre professor e aprendiz, ganha novos contornos e vemos um crescimento vertiginoso na reta final. A química entre os personagens funciona e a resolução dos conflitos se dá de forma simples e direta, sem rodeios e longe da opção pelo fácil.

A expressão de nossos sentimentos pode se dar por meio de um ofício, e em “Jardim dos Desejos” vemos por meio da jardinagem, que despertou o que havia de melhor nos personagens-centrais, e que serviu para ajudar a desencadear conflitos. Vale a jornada.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Filha do Palhaço/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Filha do Palhaço/Cesar Augusto Mota

Enfrentar os desafios que a vida impõe é um grande desafio, ainda mais se não houve grande apoio familiar. Com essa premissa, o cineasta Pedro Diógenes nos traz “A Filha do Palhaço”, um longa-metragem que irá explorar uma relação um tanto estremecida entre pai e filha e mostrar novas descobertas que os dois personagens-centrais irão experimentar.

Acompanhamos Joana (Lis Sutter), uma adolescente de 14 anos que cresceu sem a presença do pai, Renato (Demick Lopes), e resolve ir atrás de seu paradeiro e passar sete dias com ele. Renato é um humorista que costuma se apresentar nas casas noturnas de Fortaleza, interpretando a personagem Silvanelly, uma mulher descontraída e que sempre tira sarro de diversas situações cotidianas. 

Ao nos depararmos com uma interação inicial fria entre Renato e Joana, conseguimos captar de início o quão é importante o apoio moral e recíproco entre membros de uma família, no caso ausente por muito tempo na vida de ambos. Os dois personagens, em planos fechados e com pouca luz, ilustram a solidão e carência que sentem e buscam uma forma de catarse dessas sensações de incômodo. Joana, em uma fase de desafios e descobertas, experimenta pela primeira vez uma decepção amorosa, e seu pai, com suas experiências ao longo da vida, se torna um importante aliado. 

Questões como sexualidade, paternidade e cumplicidade também se fazem presentes e evidentes ao longo do filme, e o desenvolvimento do arco de Renato e Joana tomam proporções inimagináveis, com um importante desfecho. O aprendizado de ambos é capaz de fisgar a plateia e mexer com os sentimentos de todos. E importantes lições de vida são transmitidas, como nunca desistir diante das dificuldades, afinal, “se estamos no buraco, temos que brilhar”, segundo Renato e Joana.

Didático, divertido e sentimental, “A Filha do Palhaço”é um prato cheio para todos os públicos.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Clube Zero/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Clube Zero/Cesar Augusto Mota

Você certamente já ouviu a expressão popular “Você é o que você come”, não é verdade? Educação alimentar é um assunto atemporal e que nunca se esgota, ainda mais nos dias atuais, quando nos deparamos com pessoas que sofrem de distúrbios alimentares e precisam de acompanhamento especial. A diretora austríaca Jessica Hausner nos traz ‘Clube Zero’ (Club Zero), um longa-metragem com importante debate, além de uma história intrigante e com grande arco.  

Ciente de que seus alunos precisam melhorar a qualidade de vida e ter uma alimentação saudável, a diretoria de uma escola de elite do Reino Unido contrata a senhorita Novak (Mia Wasikowska), especialista em nutrição. Ela introduz um programa de dieta inovador, o “Alimentação Consciente”, que parece atraente inicialmente. Mas, com o passar do tempo e na medida em que os cinco alunos, Ben; Fred; Ragna; Elsa e Helen, progridem de nível, suas vidas vão tomando um rumo bastante perigoso, quase irreversível, deixando seus pais atônitos e quase sem saída.

Os alunos são apresentados como incompreendidos e negligenciados pelos pais, e veem no grupo, que mais tarde vem a se tornar o ‘Clube Zero’, uma chance de pertencimento. Assuntos como preservação do meio ambiente, excesso de consumismo, eliminação de toxinas do corpo e até mesmo autofagia são abordadas de forma séria, e algumas metáforas são empregadas durante a história para dar uma sensação de leveza. Mas o que se vê é um autêntico show de horrores, no qual até os pais dos alunos são afetados. A proposta de uma dieta consciente é válida, e é possível comprovar nessa obra que tudo o que é feito em excesso pode ser prejudicial.

A intenção de Hausner, ao escrever e dirigir essa história, é não só de ligar o sinal de alerta para o que cada um come, mas também o de mostrar os riscos de manipulação que o ser humano corre, e que a força de vontade para se atingir um objetivo, a depender da situação, pode não ser demovida a tempo. A questão da vontade e da fé também entram em cena e ganham espaço na trama, mas é preciso cuidado para o que ouvimos e devemos ter cuidado no que acreditamos.

A atuação de Wasikowska é brilhante, entrega tudo o que é esperado de alguém completamente cegado por suas crenças e sem perceber os riscos que pode trazer aos outros. O elenco secundário também se destaca, com atenção especial para Luke Barker, intérprete de Fred, aluno apaixonado pela dança e que tem um dos destinos mais cruéis dentre os integrantes do Clube Zero.

Um filme polêmico, didático e necessário. ‘Clube Zero’ toca em assuntos pertinentes e vem para nos mostrar o quão pode ser viável ou não o estilo de vida de cada um. Uma experiência que todos precisam ter, vale conferir.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: As Linhas da Minha Mão/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: As Linhas da Minha Mão/Cesar Augusto Mota

As saúdes física e mental sempre andaram juntas, e uma não vive sem a outra. A mente humana é tão complexa que nos proporciona debates interessantes acerca da loucura e as maneiras como enxergamos a vida. No longa ‘As Linhas da Minha Mão’, o cineasta João Dumans nos mostra essa importante conexão, além de nos levar a uma importante reflexão sobre a vida.

Em uma série de encontros com Dumans, a atriz Viviane de Cássia Ferreira, do grupo teatral Sapos e Afogados, faz relatos importantes acerca do Transtorno Bipolar com o qual convive há 30 anos e fala também sobre sexualidade e solidão, dois assuntos cada vez mais em alta na sociedade brasileira. A depressão e a ligação com a música também são assuntos nesses bate papos que são mostrados ao longo de oitenta minutos.

A entrevistada faz seus depoimentos de forma descontraída, com uso de metáforas ao mencionar seus sentimentos nas mais diversas experiências que teve ao longo de sua vida e o exercício constante de improvisar, confundindo a arte da atuação com as ações do cotidiano, que proporcionam experiências e resultados incríveis. Agir sem expectativa e conforme o momento são constantes na vida de Viviane, que afirma sempre estar disponível a novas realidades.

A narrativa é bem fluida e vai ficando tensa ao longo dos encontros, mas o som instrumental e imagens estáticas de momentos de descontração de Viviane, seja em uma roda de amigos ou tomando uma cerveja aliviam a tensão, e o bate papo vai ficando mais quente e com muitas surpresas reveladas. O desejo superando o medo e a reinvenção a cada ocasião ditam o tom do longa, uma experiência atrativa para o espectador.

Uma jornada rica em conhecimento e experiências, a vida imitando a arte e a arte imitando a vida, inesquecível para o público.

Cotação; 5/5  poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Depois da Morte/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Depois da Morte/Cesar Augusto Mota

Cesar Augusto Mota <rasecmotta2@gmail.com>20:19 (há 20 minutos)
para Anninha

Muitas vezes já nos perguntamos: o que acontece depois que morremos? Vamos para algum lugar? A vida termina no pó? Existe céu e inferno após a morte? Todas essas dúvidas são abordadas por Stephen Gray no longa-metragem ‘Depois da Morte’, que compartilha grandes experiências e nos convida para um interessante debate.

A obra apresenta ao espectador uma série de entrevistas com médicos, cientistas, autores de best-sellers e sobreviventes de acidentes, com relatos de experiências de quase morte, as EQMs. Entre os destaques estão o pastor Don Piper; que relatou ter se deparado com o paraíso após sofrer acidente de carro, bem como o cientista Raymond Moody, criador do termo ‘experiência pós-morte’, na década de 70.

Com uma estrutura linear, com depoimentos aliados a reconstituições dos fatos, o público consegue ser fisgado pelo tema vida após a morte, pois não só mexe com o imaginário das pessoas, mas pela sincronia dos relatos, que tendem a ir para uma mesma direção e sugerem veracidade. E sem esquecer dos efeitos visuais apresentados, que ilustram uma viagem a um mundo tridimensional e luzes ao redor.

Outro ponto alto do filme está no contraponto feito entre ciência e religião, com as experiências de pacientes que afirmaram ter sentido a morte de perto e seus corpos flutuarem, e outros destacarem jogos de luzes e um ambiente calmo e claro, similar ao céu. Além disso, nos deparamos com estudos e opiniões de médicos de como o cérebro funciona e o coração e a forma como eles reagem em uma situação de morte, aliados com opiniões de cunho religioso em seguida, para fazer o espectador refletir e fazer possíveis paralelos ou distinções.

Reflexivo, intrigante e motivador, ‘Depois da Morte’ oferece uma experiência memorável e um debate cirúrgico sobre o que é a morte e com o que podemos nos deparar após esta ocorrer, sem esquecer das experiências que a ciência, a religião e a vida podem proporcionar e as influências que exercem no ser humano. Uma experiência didática e instigante para céticos e curiosos.

Cotação: 5/5 poltrona.

Por: Cesar Augusto Mota