Poltrona Cabine: A Lenda de Ochi/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Lenda de Ochi/Cesar Augusto Mota

Estamos habituados a ver reboots e adaptações nos últimos anos, com estes em menor escala. Apesar disso, não é menos importante uma história com inspiração em outras de sucesso, com uma nova roupagem e elementos modernos da atual época, e isso ocorre com “A Lenda de Ochi”, nova produção da A24. Mas será que essa fórmula deu resultado ou foi capaz apenas de fisgar públicos de décadas passadas?

Em uma vila remota na ilha de Carpathia, Yuri, uma garota tímida de uma fazenda, foi criada para temer uma espécie animal denominada Ochi. Porém, quando Yuri descobre um bebê Ochi ferido e abandonado, ela parte em uma aventura para levá-lo para casa. Além do desafio de encontrar o caminho, Yuri terá de se deparar e superar diversos obstáculos e criaturas, deixando sua trajetória. ainda mais emocionante.

Quem acompanha a aventura do início ao fim se lembra de obras como “ET” e “História sem Fim”, com muitos efeitos visuais que remetem ao lúdico, personagens carismáticos e uma autêntica jornada do herói. A família de Yuri inicialmente é desunida, mas consegue ser bem reconstruída, reforçando a importância do amor e da cumplicidade. Ensinamentos sobre amor e paixão também são explorados, com muita delicadeza e sutileza.

Em dados momentos, o filme assume uma aura sombria e perturbadora, com cenas fortes regadas com mutilação e sangue, e a trilha sonora induzindo o espectador à ansiedade. Rituais com animais também são representados, e somente quem tem estômago consegue suportar essas cenas, mas esse desconforto não dura muito tempo. Há uma perfeita transição para situações menos perigosas até o desfecho positivo, mesmo que algumas sequências tenham sido previsíveis e com soluções rápidas.

Apesar do equilíbrio entre a bela estética visual com sensibilidade emocional dos personagens, o roteiro bateu demais nas referências e não houve a construção de uma identidade da obra ou se seria um blockbuster ou uma produção independente. Alguns espectadores poderiam se encantar com a representação visual, outros exigir um roteiro mais robusto e uma história mais consistente.

“A Lenda de Ochi” é uma bela fábula, com bons ingredientes, mas com problemas de combinação. Caso haja uma sequência, há chance de as arestas serem aparadas e a obra alçar os voos que os produtores e o público tanto esperam.

Cotação: 3/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Detetive Chinatown-O Mistério de 1900/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Detetive Chinatown-O Mistério de 1900/Cesar Augusto Mota

Filmes chineses vêm fazendo sucesso no Brasil, principalmente no que concerne a enredos que englobam máfia e imigrantes. A Franquia “Detetive Chinatown”, distribuída pela Sato Company no país, chegará ao seu terceiro capítulo, intitulado “Detetive Chinatown: O Mistério de 1900”, e em vez de se passar em cidades contemporâneas como Bangkok, Nova York e Tóquio, o novo filme mergulhará no passado, na cidade de São Francisco, em 1900.

A narrativa se inicia com o assassinato da filha de um congressista americano, forte opositor dos imigrantes asiáticos. O principal suspeito é o filho de uma influente figura local de Chinatown, Bai Xuanling (Chow Yun-Fat). Para salvar o filho e evitar uma enorme onda de violência contra toda a comunidade chinesa, Bai recorre à inteligência e rápido raciocínio de Qin Fu e à fúria controlada de Ah Gui, este com sede de vingança. Unidos, os dois buscam desvendar o crime que ameaça por Chinatown em ruínas.

A mistura de comédia com ação e mistério foi o principal fator de sucesso de “Detetive Chinatown”, desde seu primeiro filme, em 2015, tendo até uma série de televisão, em 2020. Uma trama cheia de surpresas e intrigas e as interações feitas por personagens carismáticos também reforçam o êxito da saga, que procura beber da mesma fonte e alcançar o mesmo resultado em 2025.

Racismo e xenofobia são temas trabalhados com bastante força, com abordagem sensível e doses de humor em momentos pontuais. Apesar da comicidade da narrativa, há espaço para a seriedade, e isso faz o espectador levar a obra a sério e comprar as ideias de entretenimento e reflexão. A solução de conflito é eficiente e há expectativa para novas sequências, deveras a fórmula com ação e resolução de mistérios, junto do carisma, espontaneidade e dinamismo dos asiáticos.

Uma experiência rica em emoções e muito frenesi, “Detetive Chinatown: O Mistério de 1900” chega como mais uma opção para os fãs de cinema e ávidos por ação e inovação.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Lispectorante/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Lispectorante/Cesar Augusto Mota

Misturar realidade com fantasia e aliar o ambiente concreto com o lúdico pode chamar a atenção e fisgar o público para a proposta apresentada. Oferecer algo que fuja dos padrões pode ser uma saída para os cinéfilos já esgotados com reboots ou remakes de grandes franquias. E que tal uma obra inspirada no universo literário de Clarice Lispector? “Lispectorante”, de Renata Pinheiro, vem como uma alternativa para quem é ávido por novidades ou fã de publicações de grandes escritores.

Glória Hartman (Marcélia Cartaxo) é uma artista que enfrenta crise existencial e problemas financeiros. Ao retornar para Recife, sua cidade natal, ela se depara com o abandono do lugar e prédios em ruínas, com destaque para a casa de Clarice Lispector, no bairro da Boa Vista. A partir desse espaço, marcado por lembranças, a protagonista consegue visualizar momentos épicos e inicia uma jornada de transformação.

Apesar dos problemas cotidianos, Glória ainda encontra espaço para a imaginação, uma ponte entre realidade e ficção e um ponto de partida a partir das instalações da casa de Clarice Lispector. Memórias, criações e a forma como o tempo passa e deveria ser aproveitado também são trabalhados durante a trama, sem esquecer do legado da escritora. Não há adaptações de alguma obra, mas referências são feitas, como de “A Paixão Segundo G.H”, com a devida conexão com a narrativa proposta.

Mesmo com muita melancolia, pessimismo e incertezas da protagonista diante das mais diversas mazelas, a diretora nos mostra por meio dos pensamentos e palavras de Clarice Lispector ser possível sonhar, contemplar a fantasia e trilhar novos caminhos. A liberdade de criação proporciona múltiplas escolhas e diversas possibilidades, seja de saída para os problemas ou a chance de trilhar novas histórias.

“Lispectorante” não só é sinônimo de uma grande viagem entre o épico e o real, mas um culto ao cinema e à literatura. Uma experiência que tem tudo para ser inesquecível.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: 12.12-O Dia/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: 12.12-O Dia/Cesar Augusto Mota

Além do entretenimento, o cinema pode exercer importantes papéis no cotidiano, não só reacender uma memória de um período histórico, como também uma reflexão acerca da importância e influência deste na época até os dias atuais. Um importante acontecimento coreano é retratado em “12.12: O Dia”, com direção de Kim Sung-soo, que relembra tudo o que aconteceu no fim da década de 70, aliado às suas memórias. Uma experiência aterrorizante, para o realizador e todos os norte-coreanos.

Em 1979, a Coreia do Sul vivia sob o regime autoritário de Park Chung-hee, que fez o país avançar economicamente, mas com ferrenhas restrições políticas e sociais. Na noite de 12 de dezembro daquele ano, o presidente foi assassinado pelo próprio chefe de inteligência, proporcionando um mergulho em uma grave crise política. Com a lei marcial em curso, fica uma enorme lacuna no poder que abre espaço para um golpe de Estado que acaba por moldar o futuro do país.

A mistura de ficção com uma história inspirada em fatos reais traz uma aura assustadora e inquietante do que ocorreu na época, além de liberdade narrativa. O filme acaba por se tornar acessível a públicos diversos, com sua alta complexidade e a exposição de ambições, disputas de poder e os dilemas morais que marcaram o país asiático naquele período e similar ao vivido recentemente, com a dissolução do parlamento pelo ex-presidente Yoon Suk-yeol, restrição de liberdade de imprensa e seu processo de impeachment, ocorrido em seguida.

Saber um pouco da história da Coreia da Sul e compreender o que ocorreu por lá são dois pontos importantes para se enxergar o atual momento do país, que sofre até hoje com práticas antidemocráticas e com todo tipo de opressão à liberdade de expressão, de imprensa e de ir e vir. A combinação de registros de com fotos, arquivos históricos e consultas a militares ajudaram a contribuir com a autenticidade da obra, que trouxe um eficiente e qualificado resultado, uma aula sobre história e democracia.

E por falar em democracia, ela nunca pode ser negligenciada, pois todos os dias ela passa por grandes desafios e precisa ser garantida e defendida constantemente, contra todo tipo de abuso e opressão. Um filme que serve como sinal de alerta, não só para a Coreia do Sul, como para o Brasil, que viveu recentemente um verdadeiro atentado, mas que sobreviveu com bastante luta e resistência, em todas as suas esferas.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Looney Tunes-O Dia Que a Terra Explodiu/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Looney Tunes-O Dia Que a Terra Explodiu/Cesar Augusto Mota

Animações sempre são sinônimo de prazer, divertimento e muitas risadas, ainda mais com personagens consagrados e carismáticos. Os ícones do universo Looney Tunes, que engloba Patolino, Gaguinho, Pernalonga, entre outros, são a bola da vez, e vêm com toques mais modernos, em gráficos 2D. “O Dia que a Terra Explodiu”, produção dirigida por Peter Browngardt, vem com o intuito de promover o retorno desses astros a suas verdadeiras e puras formas.

Constatamos uma aventura épica na qual Patolino e Gaguinho se unem à Petúnia, uma cientista de fábrica de chicletes, e acabam por se tornar os mais improváveis heróis ao tentar impedir uma invasão alienígena que pode destruir o mundo, a menos que um não destrua o outro durante todo esse processo.

Com a ausência de Pernalonga, a maior estrela de Looney Tunes, a Warner Bros aposta em dois personagens secundários, mas importantes, como heróis em uma obra de ficção científica que remete a clássicos como “Vampiros de Almas” e o “Dia que a Terra Parou”. Uma ideia ousada, mas com potencial para um retorno triunfal de personalidades que marcaram gerações.

Havia um enorme temor com essa nova proposta de animação, tendo em vista que outro projeto em 2D, “Coyote vs ACME”, fora cancelado pela Warner Bros., gerando mal-estar e desconfiança dentro da empresa e entre os fãs de Looney Tunes. Foi preciso dar uma resposta e era chance de mostrar que ainda é possível criar novas histórias e manter viva uma franquia já consolidada.  

A produção pode ser considerada um episódio de televisão estendido, e o uso constante da quebra da quarta parede foi um ingrediente a mais nessa aventura cheia de surpresas e sobressaltos. O resultado é tão grandioso que abre caminho para novas produções no futuro, e com um recurso que agradou ao público e deu novo tom aos personagens tão amados que conhecemos, o 2D.

O mercado audiovisual nos mostra ser possível resgatar obras marcantes e fazê-las conquistar novos públicos, basta criatividade e inovação, mas mantendo a essência da peça original.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota