Poltrona Séries: Segundas Intenções/Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Segundas Intenções/Cesar Augusto Mota

Adaptar um filme de sucesso para uma série na maior parte das vezes não é uma tarefa fácil, mas tem sido a aposta de diversos serviços de streaming. Ícone dos anos 90, o filme “Segundas Intenções (Cruel Intentions)”, lançado em 1999 e cultuado pelo público adolescente da época, agora ganha uma nova estrutura, com personagens parecidos e ambientado 25 anos após os acontecimentos em Manhattan.

A narrativa se passa em Manchester College, uma conceituada universidade em Washington, na qual a boa imagem e reputação predominam. Os meios-irmãos Caroline Merteuil (Sarah Catherine Hook) e Lucien Belmont (Zac Burgess) tentarão de tudo para manter o poder que possuem sobre as fraternidades e irmandades da comunidade acadêmica e manter sob sigilo, a todo custo, segredos obscuros.

Por mais que a produção, roteirizada por Phoebe Fisher e Sara Goodman, tenha trazido referências do longa-metragem e tentado se conectar com um público moderno, acabou por apresentar inconsistências na história e falta de química entre os personagens. Os protagonistas não deixam transparecer a frieza, a sedução e o calculismo de Kathryn e Sebastian, do filme, além de tramas secundárias que pouco acrescentam e nada influenciam na trama principal, da imagem ilibada de Caroline e Lucien ameaçadas.

A centralização da história no sistema universitário foi outro erro, temas importantes como os privilégios a alunos ricos e a toxicidade existente no ambiente acadêmico não ganharam a atenção que deveriam, pecando a produção na superficialidade. A intenção de conexão com novos públicos careceu de uma abordagem com originalidade, com novos elementos e encaixe com o contexto social atual. Apresentar situações dos anos 90, que hoje seriam caracterizadas como assédio e ilustrá-las como naturais, não fazem sentido, e a nova produção não proporciona senso crítico e reflexão aos espectadores.

“Segundas Intenções” agrada pela nostalgia, mas falha na execução, não consegue criar algo impactante para um público novo e não apresenta personagens carismáticos, sedutores e cruéis da obra original. Um projeto desperdiçado.

Cotação: 3/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: A Máquina/Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: A Máquina/Cesar Augusto Mota

Com um catálogo variado, seja de filmes e séries, e voltado a públicos variados, a Disney+ oferece uma produção que aborda uma história de superação com uma situação dramática em paralelo. A série mexicana ‘A Máquina’(La Maquina) traz Gael Garcia Bernal e Diego Luna como suas principais estrelas e um enredo tenso, instigante e surpreendente. Temas como família, esporte e crime se fazem presentes, mas será que essa mescla de assuntos e a história vão convencer o espectador a acompanhar a série e compactuar com as ideias apresentadas?

Acompanhamos Esteban Osuna (Bernal), conhecido como La Maquina, um famoso boxeador que está com a carreira baixa e vê seu prestígio cair ainda mais após uma derrota acachapante. Com dificuldades para se recuperar e seguir adiante, La Maquina irá contar com a ajuda do empresário e amigo Andy Lujan (Luna), que consegue marcar uma nova luta para tentar uma última vitória antes de se despedir dos ringues. Porém, uma organização criminosa entra na jogada e fará a luta se tornar uma questão de vida ou morte para o lutador, provocando muita apreensão e tensão nele e em toda a família.

A primeira parte lembra o filme ‘Rocky Balboa’, no qual o protagonista está em baixa e tenta encerrar a carreira por cima, mas a ‘A Máquina’ vai além, há todo um drama e tensão por trás, com risco de morte do lutador e a iminência de segredos obscuros sobre sua vida e carreia serem revelados, tendo em vista que a ex-esposa de La Maquina, Irasema (Eiza González), é jornalista investigativa e sua participação na trama será essencial e decisiva para desvendar tudo o que cerca o mundo crime e uma possível ligação com La Maquina.

A série é objetiva, vai direto ao ponto, e conta a história sem rodeios. As ligações entre o protagonista e os personagens secundários são feitas de maneira eficiente, e o acréscimo de um teor dramático, com uma organização criminosa e o mundo das apostas tornou a narrativa ainda mais instigante. Gael Garcial Bernal e Diego Luna, os dois maiores nomes da série, conseguem entregar tudo o que se espera, além de termos grandes reviravoltas e um desfecho satisfatório.

 O fã de histórias sobre esporte e o sedento por um bom drama vai se entusiasmar com ‘La Maquina’. Uma ótima combinação e com alcance para variados públicos.

Cotação: 5/5 Poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Citadel-Diana/Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Citadel-Diana/Cesar Augusto Mota

Séries com muito tiroteio, perseguições, brigas e explosões costumam agradar os sedentos por espionagem, e a Prime Video, sabendo disso, trouxe a série ‘Citadel: Diana’ em uma maratona de seis episódios.  Trama com a máfia italiana em ambiente futurista pode dar certo? O espectador terá vontade de ver até o fim e ficará ansioso por uma segunda temporada?

A trama se passa em 2030, oito anos após Citadel ser destruída por Mantícora, organização criminosa concorrente, que passou a controlar as ruas e a população da cidade de Milão. Nesse contexto de controle e opressão, a jovem Diana (Matilda De Angelis), que perdera os pais em um acidente de avião e disposta a descobrir se a morte deles foi ou não premeditada, resolve se aliar à Citadel e passa a trabalhar como uma agente infiltrada na Mantícora.

Além do drama pessoal vivido por Diana temos a disputa por poder na Mantícora, e todos os episódios chegam com surpresas, sejam pelas cenas frenéticas de luta e o desenrolar da trama, como também pela suposta aliança entre Alemanha, Itália e França, três grandes potências, com uma prometendo acabar com a outra. Um tripé que promete mexer com as emoções dos espectadores, com alguns momentos encerrados de maneira abrupta e grandes reviravoltas em seguida.

Além do enredo e das cenas bem coreografadas, temos uma fotografia com tons escuros, ilustrando uma Itália sombria e dominada por mafiosos, e há também a questão política que envolve a narrativa. Uma discussão sobre proteção, controle e opressão se dá na série, e isso evita que a trama fique centrada apenas no drama pessoal de Diana. O enredo é de fácil compreensão e com elementos chamativos, como a ideologia política que passou a predominar em Milão, o comportamento da divisão criminosa controladora, além da transformação da personagem-central. A série é para ser maratonada e com possibilidade de uma segunda temporada.

Original, vibrante e cheia de emoções, ‘Citadel: Diana’ promete amarrar o público até o fim, fazendo-o torcer pela protagonista, a libertação de Milão, bem coo o romance entre ela e o herdeiro da Mantícora. Vale a maratona.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Manual de Assassinato para Boas Garotas/Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Manual de Assassinato para Boas Garotas/Cesar Augusto Mota

Séries policiais e investigativas podem já estar batidas para algumas pessoas, mas e se o foco da obra não fosse a descoberta do verdadeiro autor do crime e sim o crescimento pessoal do investigador? Baseado no best-seller homônimo de Holly Jackson, “Manual de Assassinato para Boas Garotas”( A good Girl’s Guide to Murder), da Netflix, possui um toque de suspense juvenil, que se concentra em uma adolescente obstinada a desvendar um crime bárbaro em Little Kilton, uma pequena e pacata cidade inglesa.

A jovem Pippa (Emma Myers), 17 anos, resolve investigar a suposta morte de Andie Bell (India Lillie Davies), que ocorrera cinco anos antes após desaparecer repentinamente e seu namorado Sal (Raul Pattini) ter confessado o crime de homicídio antes de se suicidar. Sem confiar na versão da polícia acerca do caso, Pippa resolve explorar as inconsistências apresentadas nas investigações e utiliza o assassinato de Andie como pano de fundo para seu trabalho de conclusão de curso.

Não existe uma ruptura na estrutura clássica de uma obra investigativa, vemos checagem de pistas, o popular quadro com recortes de jornais e fotos de suspeitos, bem como linhas e setas traçadas para apontar conexões entre todos até chegar ao culpado, além dos interrogatórios, mas o que vemos é uma adolescente que resolve por si assumir as buscas por uma solução mais plausível, pois encontrou inconsistências em algumas provas na investigação oficial. Além disso, constatamos uma protagonista disposta a assumir os riscos que sua vida ocorre após reabrir um caso bárbaro e o dever de lidar com o criminoso no clímax da história.

Como dito inicialmente, vemos a evolução pessoal da personagem-central, que aprende a lidar com seus instintos, ouvir suas intuições e confiar em seus métodos investigativos para achar o verdadeiro autor do crime. E entendemos essa vontade de Pippa pois ela tinha uma ligação com a vítima e uma atitude de Pippa levou Andie até Sal, o principal suspeito conforme a investigação anterior. A história é dinâmica, pois são seis episódios com duração de quarenta e cinco minutos cada, o que evita pontas soltas na trama.

A história é sutil, bem amarrada, mas devido ao ritmo frenético, a história acaba por ficar prejudicada, pois os arcos dos personagens secundários não são bem desenvolvidos e muitos deles possuem apenas entradas pontuais na narrativa, o que prejudica o realismo do enredo. A experiência do espectador tem saldo positivo, um bom drama adolescente e uma investigação bastante tensa e envolvente, com um desfecho improvável e surpreendente. E, apesar dos problemas, a atuação de Emma Myers, que já havia se destacado em Wandinha, é o ponto alto, ela consegue mostrar a grande evolução que sua personagem teve ao longo dos seis episódios, como conseguiu proporcionar momentos de tensão, leveza e muito suspense até a resolução do caso.

“Manual de Assassinato para Boas Garotas”, apesar dos altos e baixos, é uma ótima opção não só para quem é fã de dramas adolescentes, mas também para os amantes de uma boa trama investigativa. Vale a pena.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Somos os Que Tiveram Sorte/Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Somos os Que Tiveram Sorte/Cesar Augusto Mota

Obras que ilustram fatos históricos e resistência dos protagonistas têm conquistado público variados, sejam em exibições nos cinemas ou por streaming. Inicialmente veiculada pela Hulu, a minissérie “Somos os Que Tiveram Sorte” (We Were the Lucky Ones), de oito episódios, chega à Disney+ com uma abordagem cuidadosa e sensível de uma história de resiliência e sobrevivência da família Kurc durante a Segunda Guerra Mundial.

Inspirada no romance homônimo de Georgia Hunter, a narrativa ocorre no período de 1937 a 1947 e ilustra o impacto causado pela Segunda Guerra e o antissemitismo enfrentados pelos Kurc pela ótica dos irmãos Halina (Joey King) e Addy (Logan Lerman). Apesar de a família possuir uma loja e os negócios estarem bem-sucedidos, o avanço do nazismo força todos a pensarem a migrar para a Palestina, ocorrendo uma grande separação e espalhamento dos membros da família pelo mundo. Addy consegue escapar para a França, já Halina e outros familiares encontram refúgio temporário na Polônia, mas são dispersos para outros continentes, uma verdadeira diáspora judaica.

Figurinos e cenários da época se aproximam do verdadeiro clima de terror e opressão vivenciados pelo povo judeu. Algumas cenas com dose de brutalidade também são mostradas, como a abertura forçada de covas, sem a intenção de poupar o espectador, que sente todo o horror transmitido pelos personagens, inspirado no que os judeus da época enfrentaram. O realismo dita a narrativa, junto do enredo sólido e da profundidade de cada personagem.

O elenco consegue transmitir bem as emoções dos personagens, e os conflitos internos se dão de forma sutil e profunda. O enredo não só consegue fazer a reconstituição de um período que chocou o mundo, como é um verdadeiro tributo às memórias dos que sobreviveram e dos que se foram durante o Holocausto. A mensagem transmitida é forte e poderosa, de que se deve perseverar e resistir, mesmo diante de adversidades tão fortes.

“Somos os Que Tiveram Sorte” é didático, emotivo e impactante, uma obra que nos fornece uma nova ótica sobre o terror vivido por milhares de famílias judaicas. Uma página que jamais será apagada.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota