Maratona Oscar: Anora/Tom Leão

Maratona Oscar: Anora/Tom Leão


‘ANORA’: PODE SER O GRANDE AZARÃO DO OSCAR ****

 O diretor Sean Baker, de filmes como o experimental ‘Tangerine’ (filmado com dois iphones) e ‘Projeto Flórida’ (aquele da menininha irritante), com ‘Anora’, nos dá uma espécie de versão mundo real do fantasioso ‘Uma linda mulher’, aos nos mostrar o romance entre um jovem rico e irresponsável e uma garota de programa interesseira. Os dois, após noites de loucuras, acabam se casando em Vegas, e a família do rapaz, oligarcas russos, tenta desfazer o engano. Embora seja, por vezes engraçado, o filme, na verdade, é um drama, que termina de forma melancólica (é um dos melhores finais que já vi, tocante).

O destaque é a maravilhosa novata Mikey Madison, como Anora, simplesmente arrebatadora, que merece ganhar todos os prêmios que vem acumulando com o papel. O filme só não é melhor porque dura um pouco além do que deveria.

 Em cartaz no Brasil, sem chamar a atenção nas bilheterias (entrou na penúltima posição do top ten da ComScore quando estreou e já saiu da lista na segunda semana), ‘Anora’, repentinamente, se transformou num dos filmes mais quentes para ganhar o Oscar principal, o de Filme do Ano, depois que ganhou, em sequência, prêmios equivalentes, tanto no Critic´s Choice Awards (para surpresa geral) quanto do Directors Guild of America. Este ultimo, sim, um termômetro forte para arrebatar o careca dourado, nada de Golden Globes.

Já que, dos últimos 15 filmes que ganharam nesta categoria no DGA, 12 ganharam o Oscar do ano. E com o derretimento do hype do superestimado ‘Emilia Pérez’, por causa dos comentarios infelizes da atriz Karla Sofia Gascón, ‘Anora’ (uma produção independente, feita quase toda na base da vaquinha), que concorre a seis estatuetas da Academia (filme, diretor, atriz, ator coadjuvante, roteiro e edição), tem tudo para ser o grande azarão da temporada. Para mim, sempre foi a aposta certa.

TOM LEÃO

Maratona Oscar/Poltrona Cabine: Conclave/Anna Barros

Maratona Oscar/Poltrona Cabine: Conclave/Anna Barros

O filme fala sobre a morte de um Papa em condições misteriosas e o conclave para a eleição de um novo papa, que segundo a Igreja Católica, é movido pelo Espírito Santo. Só que acontecem coisas que deixam o decano Lawrence com a pulga atrás da orelha: o encontro do cardeal canadenseTremblay com o papa antes de sua morte, o envolvimento do cardeal Adeyemi da Nigéria com uma freira, a hesitação do cardeal americano Aldo e o surgimento de um cardeal mexicano, Benítez, desconhecido que vive em Cabul, Afeganistão e que o papa anterior o apoiou e pagou seu tratamento num hospital da Suíça. 

O cardeal Lawrence é vivido magistralmente por Ralph Fiennes em mais um papel que pode lhe indicar uma indicação ao Oscar. Seu ar contido, misterioso de um cardeal que dúvida de sua fé e faz de tudo para que a escolha seja a mais acertada é realmente estupendo. Ralph é maravilhoso mais uma vez.

Há uma demora na eleição após seis escrutínios e a ameaça de terrorismo através de uma bomba solta nos arredores do Vaticano que destrói uma parte do teto da Capela Sistina e deixa o cardeal Lawrence assustado levando à um extenso debate o que leva os olhos a Benítez, o cardeal mexicano.

Há uma surpresa no conclave e um final surpreendente e inesperado. Excelente atuação também de John Litgow como o cardeal Tremblay e de Isabella Rosselini como uma freira, fundamental para a solução de alguns mistérios da trama.

Linda fotografia, lindo figurino e uma excelente direção de Edward Berger. Conclave deve ser indicado TB a Melhor Filme do Oscar.

Conclave estreia em todos os cinemas brasileiros dia 23 de janeiro.

5/5 poltronas

Maratona Oscar: As 4 Filhas de Olfa/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: As 4 Filhas de Olfa/Cesar Augusto Mota

Produzir um documentário e trazer uma grande experiência emocional e envolvente para o público requerem grandes desafios para o realizador, ainda mais se estiverem em cena atores e as pessoas que de fato viveram o fato a ser contado. Com esse formato híbrido, ‘As 4 Filhas de Olfa’, vencedor no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem chega para fisgar o público e prendê-lo do início ao fim da obra.

Acompanhamos o drama de Olfa, uma mulher tunisiana que vive a dor por suas duas filhas mais velhas estarem desaparecidas e a incerteza se um reencontro com elas poderá vir a acontecer um dia. Os momentos mais íntimos de Olfa são captados por atrizes profissionais, imprimindo bastante autenticidade e realismo, com o espectador mergulhando nas complexidades acerca da maternidade e da busca por respostas.

A habilidade da cineasta Kaouther Ben Hania para entregar uma história cativante e comovente impressiona, pois retrata as verdadeiras angústias, dores e incertezas de uma mãe em meio a um cenário caótico que vive a Tunísia, além de abordar temas polêmicos e recorrentes, como machismo, misoginia e o extremismo religioso existente no país. Feridas abertas e ainda não cicatrizadas são bem abordadas, além de um perfeito paralelo com o sumiço de Ghofrane e Rhama.

O uso da metalinguagem, com as interações de Olfa e a atriz que a representa, bem como as profissionais que dão vida às filhas mais velhas, assim como a história da Tunísia sendo abordada em seguida, não só encontram sintonia e harmonia, como servem para ilustrar que Olfa e sua família buscam compreensão, acolhimento e serem enxergadas com humanidade, tamanhas são as dificuldades impostas pela vida, além do drama pessoal de Olfa.

Uma obra de alta carga emocional e bastante convincente, capaz de estabelecer vínculo com a história de mulheres vítimas de atrocidades e ao mesmo tempo gerar empatia e debates sobre a violência e intolerância que assolam o mundo. Uma experiência válida e imersiva para o público brasileiro.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Io Capitano/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Io Capitano/Cesar Augusto Mota

Apresentar um tema de forte contexto histórico e social com o auxílio da ilustração de uma jornada épica recheada de calvário e sem abusar do sensacionalismo é um verdadeiro desafio para qualquer realizador, mas pode funcionar se forem empregados os elementos adequados. O cineasta italiano Matteo Garrone utiliza essa premissa em seu mais novo filme, ‘Io Capitano’ (Eu, Capitão), premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza e indicado ao Oscar na categoria melhor filme internacional.

Acompanhamos a vida sofrida do jovem Seydou (Seydou Sarr), 16 anos, que divide espaço com a mãe e os irmãos em uma casa em ruínas localizada em Dakar, no Senegal. Disposto a ajudar sua família a mudar de vida, ele resolve partir para a Europa juntamente de seu primo Moussa (Moustapha Fall), mas sem avisar ninguém e após a benção de um líder religioso. Essa jornada se inicia em Dakar, passa pela Líbia e o objetivo é chegar à Itália via Mar Mediterrâneo.

A crise migratória africana que leva deslocados internacionais para o sul da União Europeia é utilizada como pano de fundo na narrativa, mostrando muito desespero e dor dos emigrantes, que enfrentam tortura, trabalhos forçados e até mesmo a prisão em busca do sonho de vida na Europa, retratada como terra prometida. Elementos místicos também ganham espaço, como fé, esperança e ícones que representam a religião do Senegal. Mas o ingrediente principal e que cativa o espectador está no protagonista, Seydou, que precisa passar por várias provações em busca de seu sonho.

O jovem senegalês começa a jornada de maneira tímida, mas com o incentivo de Moussa ele amadurece diante da tela e toma as rédeas da situação arriscada na qual ambos se colocaram, de conseguirem chegar à Sicília, na Itália, em meio ao desespero e à violência. Após passarem pelo deserto de Dakar e chegarem à Líbia, Seydou passa a ser responsável não só por ele e seu primo, mas por dezenas de pessoas, dentre eles mulheres e crianças, ao assumir o comando de um barco, mesmo sem saber nadar e desprovido de experiência.

O amadurecimento e transformação de Seydou, bem como as cenas de terror e violência são pontos altos do longa-metragem, mas sem esquecer os momentos de bondade dos seres humanos, como a ajuda mútua entre os deslocados e a apresentação de paisagens inspiradoras. O ponto negativo está em apontar a Itália como um paraíso e ao mesmo tempo uma solução para a vida das pessoas que se deslocam da África. O país exerce forte influência na crise migratória mencionada anteriormente, faltou um olhar mais crítico para a Itália e toda a comunidade europeia.

‘Io Capitano’, ao ser colocado na balança, pende para o lado positivo e vem forte no Oscar com chance de ser apontado como melhor filme internacional. Vale assistir.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: American Fiction/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: American Fiction/Cesar Augusto Mota

Abordar situações do cotidiano e ser um sucesso de crítica é um cenário desejável para todo escritor, mas e quando não há retorno comercial? O que fazer? Dever se adequar às exigências do mercado ou insistir e não abrir mão de suas convicções? Uma situação como essa será abordada em mais uma produção postulante ao prêmio de melhor filme no Oscar 2024. ‘American Fiction’, escrita e dirigida por Cord Jefferson, é considerada uma dramédia satírica e tem dado o que falar.

Inspirado no romance ‘Erasure’ (apagamento, em tradução livre), de 2001, de Percival Everett, a narrativa se concentra em Thelonius Ellison (Jeffrey Wright), o Monk, um escritor negro inconformado com a rejeição de seus últimos três livros por parte das editoras. Inconformado em como a literatura retrata as pessoas negras, como escravos, criminosos ou vítimas de violência policial, Monk resolve produzir uma sátira sobre esse mercado editorial e o racismo institucional existente, mas não esperava que sua publicação iria ser comprada por uma grande editora.

Jefferson nos apresenta a um personagem que transita pela inteligência, frustração e bom humor, com um professor e escritor disposto a defender seu ponto de vista e ao mesmo tempo ciente de que está nadando contra a maré em um mercado que se acostumou em retratar os negros em situações alarmantes. O roteiro é linear, ilustra um protagonista de arco altamente dramático, em situações de pressão contra parede, com destaque para o momento em que Monk conhece a romancista Sintara Golden (Issa Rae), cujo livro ‘’We´s Lives in Da Ghetto’ reforça os estereótipos dos negros há muito tempo retratados, sempre em posições vulneráveis. Mas Monk também encontra apoio em sua família, principalmente do irmão Cliff (Sterling K. Brown), que funciona como um excelente dinâmico do protagonista e brinda o espectador com ocasiões insanas e cômicas.

O público se revolta e compra a ideia de Monk, tendo em vista se tratar de um protagonista de alta carga intelectual, de personalidade forte e que observa o mundo com certo estranhamento e distância. E na medida em que a história se desenrola, Monk se fortalece ainda mais e percebe que não está sozinho, mas ele sabe que precisa ter cuidado com sua alta sinceridade, que pode não lhe fazer bem, com risco de conflitos com pessoas queridas e altos executivos de empresas grandes. Jeffrey Wright cumpre muito bem o papel que lhe foi dado, de fazer críticas duras e construtivas a um mercado editorial consolidado e ainda altamente preconceituoso, com um protagonista de pulso firme e que não hesitou em chutar o balde.

Cord Jefferson fez um filme oportuno, que cutuca um grande vespeiro e que traz esperanças. Ainda há muito o que se fazer contra o preconceito e o racismo, é preciso ter coragem e nunca desistir, avanços estão aos poucos acontecendo, mas é apenas o começo.

‘American Fiction’ concorre ao Oscar 2024 em cinco categorias, de melhor filme, ator, ator coadjuvante, roteiro adaptado e trilha sonora original.

Cotação: 4,5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota