Maratona Oscar : Os Miseráveis/ André Luiz Brandão Cisi

Maratona Oscar : Os Miseráveis/ André Luiz Brandão Cisi

Os Miseráveis
Esse ano a disputa do Oscar do filme estrangeiro está com pelo menos 3 filmes sensacionais, “Parasita”, “Dor e Glória” e “Os Miseráveis”.

Vamos a análise de Os Miseráveis.

Filmaço, tocante, revoltante, um soco a na boca do estômago, a história é muito produnda, uma crítica social com muito destaque a pobreza e a corrupção policial, mostrando situações geradas por conflitos de uma sociedade desigual.

Na cena inicial pessoas de todas as classes sociais comemorando o título da seleção francesa pela Copa do Mundo de futebol de 2018, mas esse momento é único, ao decorrer da vida, a diferença criada por desigualdade sociais e econômicas é muito destacada, policiais sem preparo, onde colocam em sua mente que as coisas se resolvem a base de tratamentos radicais a base da força e intolerância, mas sempre tem os policiais honestos que pagam pelos erros dos policiais mal orientados.

Um grande feito na história foi mostrar como a ação de uma pessoa reflete na reação de outras, colocando a violência como consequência de atos impensáveis de quem acha que está resolvendo problemas de uma sociedade, mas uma coisa pequena pode tornar um caos enorme.

O final é impressionante, uma reflexão que ficara pra história.

Destaque para frase de Victor Hugo : ”Lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: — há, sim, maus cultivadores.”

Essa obra Francesa moderna com referências a Victor Hugo é uma Obra-prima que merece ser vista para os amantes de cinema.

Atuação perfeita do ator Alexis Manenti.

 

 

Maratona Oscar: Parasita/César Augusto Mota

Maratona Oscar: Parasita/César Augusto Mota

 

Quer um filme com boa dose sarcástica e que faça críticas sociais e mostre que o meio é capaz de influenciar no comportamento humano? Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ‘Parasita’ (Parasite), filme sul-coreano de Bong Joo Ho (O Hospedeiro) vem para impactar e fazer o espectador refletir sobre o capitalismo e a constante luta de classes e suas diferenças.

A história apresenta dois núcleos familiares que vivem realidades diferentes. A família Kim, composta por Ki-taek (Song Kang-ho), o pai; Choong-sook (Jang Hye-jin), a mãe e os filhos Ki-woo (Choi Woo-shik) e Ki-jung (Park So-dam) vivem na escala da pobreza e sobrevivem dobrando caixas de pizza. Do outro lado, os Park, uma família rica e que vive na ostentação, com o pai, o senhor Park (Lee Sun-kyun); a mãe, Yeon-kyo (Cho Yeo-jeong) e os filhos Da-hye (Jung Li-so) e Da song (Jung Hyun-joon). Tudo começa a mudar quando Ki-woo, da família Kim, recebe proposta para trabalhar como professor de inglês na mansão dos Park, e o primeiro núcleo começa a elaborar sucessivos planos para cada membro se inserir dentro da casa dos Park e alcançar uma rápida ascensão econômica. Todos os truques feitos de maneira meticulosa e em dados momentos com requintes de crueldade, tudo para os Kim conseguirem se dar bem, não importa o que fizessem.

O roteiro apresenta de início uma narrativa de ritmo lento, em seguida, após as artimanhas dos Kim, vemos não só diferenças de classes, mas também de personalidades, estes são mais secos e fechados, os Park são mais ingênuos e carismáticos. Do segundo para o terceiro ato, o choque no público, que mostra que os atos definem o destino das pessoas e que a vida cobra de cada um, a depender do que cada um faça e a maneira como leva a vida. O contraste é importante para mostrar o quão é absurda e também a enorme lacuna existente na Coréia do Sul. É  feita uma crítica leve, principalmente na apresentação das casas e dos becos nas periferias de Seul. Os Kim usam de piadas para lidar com os problemas do dia a dia e são mostrados como pessoas ambiciosas e sedentas por melhores condições de vida, mesmo que se utilizem da prática de crimes para alcançar seus objetivos.

Outro ponto importante no longa está no olhar para o futuro e a preocupação de cada um dos Kim ao vislumbrar a possibilidade de mudança de classe. Ki-woo chega a cogitar comprar a casa dos Park e a construir família, ele é o mais lúcido de todos, o ponto fora da curva. Do lado dos Park, impressiona a inocência de Yeon-kyo e a relação amistosa com seus empregados, os antigos e também com os Kim, sem suspeitar do que eles tramavam contra sua família. O espectador sente empatia pelos Park e por alguns membros dos Kim, méritos do diretor que conseguiu construir um perfeito contraste entre a classe burguesa e a pobre e ilustrou com precisão o quão dura a realidade pode ser, principalmente no momento em que um forte temporal tomou conta do país.

Com bom equilíbrio entre humor e drama, ‘Parasita’ oferece uma trama envolvente, impactante e que fará o público fazer importantes comparações e interpretações acerca de panoramas sociais tão distópicos, tanto na sociedade oriental como ocidental. Um estudo social importante e necessário nos dias de hoje.

Cotação: 5/5 poltronas.

Nota do Editor: Parasita concorre a seis estatuetas inclusive Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro. Além de Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhor Roteiro Original. A meu ver, ganha cinco incluindo Melhor Filme e Dor e Glória ganha Melhor Filme Estrangeiro. Excelente filme, impactante. Talvez perca em Diretor para Sam Mendes, de 1917 mas Boon Jo tem muitas chances. Seu filme é bárbaro.

Maratona Oscar: Perdi Meu Corpo

Maratona Oscar: Perdi Meu Corpo

 

Perdi Meu Corpo” (J’ai Perdu mon Corps) é um filme francês de animação, baseado no livro Happy Hand, de Guillaume Laurant. Dirigido por Jérémy Clapin e premiado no Festival de Cannes de 2019, o longa está concorrendo na categoria melhor filme de animação no Oscar 2020. Além disso o filme está disponível no catálogo da Netflix.

O longa conta a história de Naoufel, um jovem em Paris, que se apaixona por uma moça chamada Gabrielle, e que teve sua mão decepada. No entanto, a mão fica em busca de seu dono, ela só deseja fugir do laboratório onde está, e começa a vagar por Paris até encontrar seu corpo novamente.

O filme passa por 3 linhas temporais, a da mão atrás do corpo, o passado de Naoufel e o momento presente. Tudo começa quando a mão decepada se encontra em um laboratório e deseja fugir para se reconectar com o corpo do qual fazia parte. A segunda linha temporal com imagens em preto e branco mostra a infância de Naoufel. Descobrimos que ele teve uma infância feliz, até que um acidente matou seu pai e sua mãe , deixando-o sob os cuidados de um tio e sobrinho indiferentes a ele. A terceira linha está nos dias atuais, com Naoufel ainda vivendo uma vida miserável com seus parentes e trabalhando como entregador de pizza.

Com apenas 81 minutos de duração, Perdi Meu Corpo é uma história delicada e ao mesmo tempo profunda. A trilha sonora é bonita e ao mesmo tempo melancólica. Vale lembrar que é uma animação adulta, e não para crianças e adolescentes. Com final surpreendente e inovador, o filme é uma ótima dica de filme da Netflix.

Maratona Oscar: Coringa/César Augusto Motta

Maratona Oscar: Coringa/César Augusto Motta

Em um mundo sombrio e marcado por adversidades, deve-se sempre levar alegria e risos à sociedade”. Esta frase foi dita por um famoso vilão das HQs em uma obra que já está provocando discussões, tanto positivas como negativas. Um dos filmes mais aguardados do ano e vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, “Coringa” (Joker), de Todd Phillips (Nasce Uma Estrela),mostra o icônico personagem do Universo DC por um outro ângulo, vivido pelo talentoso Joaquin Phoenix (Homem Irracional) que sempre se entrega de corpo e alma aos papéis que lhe são designados. O resultado foi positivo?

Arthur Fleck (Phoenix) é um aspirante a comediante que sofre de um distúrbio neurológico que o faz gargalhar de maneira descontrolada. Ele reside com Penny (Frances Conroy), sua mãe, e tenta levar a vida de uma forma saudável. Apesar de ela o desacreditar da carreira no humor, Arthur não hesita em realizar seu sonho, mas é sempre hostilizado e na medida em que o tempo passa e vai sofrendo violência física e psicológica, seu estado mental piora e ele acaba por se tornar um improvável e verdadeiro perigo para a sociedade.

Logo de início nos deparamos com um Arthur disposto a fazer as pessoas rirem e se esforçando nos shows de stand up, com monólogos e piadas com críticas ácidas a políticos e preconceitos em relação às minorias. Não é um Arthur mau, o causador do caos, mas um homem com sonhos, porém bastante perturbado. Um perfeito estudo psicológico é feito sobre o personagem central, que tenta se mostrar em estado de felicidade, mas que na realidade não goza desse sentimento. Trata-se, portanto, de alguém humilhado, oprimido e em estado de loucura.

Em seguida, notamos que Arthur mergulha de vez em um quadro irreversível quando se envolve em incidentes com policiais que estavam batendo de frente com manifestantes no centro de Gotham contra a candidatura de Thomas Wayne (Brett Cullen) à prefeitura, com mensagens hostis e protestos contra o precário sistema de saúde. De quebra, é humilhado em rede nacional por Murray Franklin (Robert De Niro), apresentador de um talk show, ao mostrar um vídeo de Arthur em seus shows de stand up e o apresentá-lo com deboche e de forma caricata. Isso tudo serviu para agravar seu psicológico e fazê-lo chutar o balde.

O Coringa retratado aqui é um retrato realista de alguém rejeitado e escrachado por uma sociedade marcada pela intolerância e preconceito, e largado às traças. A intenção do filme não foi humanizar o famoso vilão e maior rival do Batman, mas o de mostrar que existem pessoas como Arthur Fleck que sofrem violência e bullying, além de não serem amparadas pelo Estado, com políticos que fazem falsas promessas e que se mostram como salvadores da pátria. Esse é o mundo visto na visão de Arthur, de uma sociedade que o maltrata, mas ele segue por um rumo errado para tentar superar tudo o que o aflige.

E para esse filme funcionar, para essa nova versão do Coringa ser envolvente e impactante, não poderia esquecer de abordar a atuação de Joaquin Phoenix, que deu profundidade ao personagem e apresentou uma impressionante linguagem corporal para ilustrar sua angústia, estado de melancolia e raros momentos de descontração. O corpo magro e com os ossos à mostra, além de seus movimentos bruscos mostram o peso enorme que carrega e todos os seus conflitos internos, sem ficar dependente dos diálogos. A forma como interage, além dos closes feitos em seu rosto e a maneira como olha para a câmera fazem o personagem de Phoenix ter maior aproximação com o público, que vê mais o Arthur Fleck do que propriamente o Coringa.

Em tempos de violência e intolerância, ‘Coringa’ é um filme que liga o sinal de alerta no meio social e mostra que existem muitos Arthurs Fleck ao nosso redor e ao mesmo tempo uma sociedade em meio à corrupção e representantes questionáveis, como retratado na narrativa. Uma produção para dar um choque, chamar a atenção e também para entreter com cenas fortes e alguns momentos cômicos. Em dados momentos, é melhor rir do que chorar de determinada desgraça.

Cotação: 4/5 poltronas.

 

Nota do Editor: Coringa concorre ao Oscar em 11 indicações. É o recordista. E tem, talvez, a grande barbada da noite, a categoria de Melhor Ator para Joaquin Phoenix. Tem chances em Melhor Cabelo e Maquiagem mas concorre também a Melhor Direção, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Oriignal, Melhor Figurino dentre outros.

Poltrona Séries: Você-2ª Temporada/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Séries: Você-2ª Temporada/ Cesar Augusto Mota

Sabe quando temos a impressão que uma série já contou tudo o que poderia já em sua primeira temporada e poderia parar por ali mesmo? ‘Você’ (You) nos apresentou a Joe Goldberg (Penn Badgley), um homem sedutor, calculista e psicopata. O stalker fez uma vítima e o episódio final foi altamente tenso, traumático para alguns. Apresentar o mundo real e um paralelo sob a ótica do protagonista foi deveras envolvente, mas eis que surgiu um gancho para uma continuação e a segunda temporada chegou com potencial para causar frisson, mesmo nos que não acompanharam os primeiros episódios.

Na segunda temporada do serviço de streaming Netflix, Joe alterar seu nome para Will e vai para Los Angeles para começar uma nova vida e fugir de Candace (Ambyr Childers), com quem teve um relacionamento conturbado. Após ser contratado para trabalhar na loja de conveniências Anavrin (anagrama de Nirvana), ele conhece uma nova “presa”, mas ele sente por Love (Victoria Pedretti) o que ainda não tinha conseguido por ninguém e se vê cercado pelo amor e a obsessão.  Durante os dez episódios, você vai se deparar com uma série de eventos insanos, novos planos do perturbado protagonista e personagens coadjuvantes ganhando mais espaço e mexendo com a trama.

Mas o que a segunda temporada tem de diferente da primeira? O uso de flashbacks não se restringe ao personagem central, os secundários também possuem e os eventos passando dizem muito sobre cada um deles, principalmente sobre suas personalidades e motivações. Por que Joe é tão perturbado e tomado por uma espécie de síndrome de perseguição? Por que Love não teme Joe como os demais personagens? Por que Forty (James Scully) aparenta ser tão frágil e vê Joe como um irmão? Essas dúvidas são aos poucos esclarecidas e a construção narrativa se mostra sólida, enquanto Joe na primeira temporada persegue, ele se vê acuado nessa nova história e encontra dificuldades para achar soluções.

Se a trajetória de Joe já era envolvente e bastante sombria, com suas narrações durante os episódios e citações de ‘Crime e Castigo’, de Fiodor Dostoiewiski, você se espantará com a abordagem sobre Love e sua família, os Quinn, bastante influentes sobre Los Angeles. Eles costumam dar as cartas e manter o cerco sobre diversas pessoas, e o envolvimento de Joe com o clã é outro atrativo da temporada, pois vai gerar consequências ainda mais sérias e mexer com o destino de Delila (Carmela Zumbado), a administradora do prédio onde Joe mora, e Ellie (Jenna Ortega), sua irmã mais nova. Os arcos que envolvem ambas se entrelaçam com todos os personagens e ainda proporciona uma enorme consternação no último episódio, sem esquecer de uma mulher misteriosa que deverá ter sua identidade revelada na terceira temporada, já anunciada.

As atuações nesta temporada são mais incisivas, Penn Badgley mostra muito bem as multifacetas de Joe e consegue também despertar empatia no espectador a ponto de fazê-lo torcer para que seu romance com Love dê certo. As atitudes do protagonista, embora explicadas no decorrer da trama, passam longe de uma possível redenção, mas evitam que a série caia na mesmice, apresentando grandes reviravoltas e outros personagens dotados de problemas tão graves como os de Joe. O elenco secundário dá um excelente suporte e proporciona ao público importantes questionamentos sobre personalidade e escolhas, que são reforçadas por Joe na reta final. Um estudo bem aprofundado e complexo é oferecido a quem acompanham a série desde o início e se mostrar importante e necessário para compreendermos alguns fenômenos e distúrbios e nossa sociedade, como a dificuldade de pessoas se relacionarem com outras e a glamourização do sociopata, que se vê na segunda metade da história.

Um universo perturbador, com um stalker e sociopata cada vez engajado em suas pretensões, mas ainda vulnerável no que toca ao seu passado, com revelações sobre sua infância e o tratamento que tinha dos pais. A próxima temporada de ‘Você tem potencial revelar novos segredos sombrios e outros planos de Joe no que concerne à paternidade. Uma produção impactante, envolvente e com histórias bem interligadas e com capacidade para mexer com os nervos de um púbçico ainda maior e sedento por tramas com muito mistério, segredos e personagens de personalidade controversas. ‘Você’ tem alcançado seus objetivos e com grande potencial de oferecer muito mais na próxima temporada, com Joe tendo enfrentando transformações profundas e pronto para novas experiências, sombrias ou não. A conferir.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota