Poltrona Cabine: O Animal Cordial/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Animal Cordial/ Cesar Augusto Mota

Dizer que o cinema brasileiro envereda somente pelo lado da comédia e do drama é algo que há algum tempo caiu por terra. Fazer um filme do gênero terror e capaz de causar calafrios no espectador realmente não é para qualquer um, mas temos uma produção que vai ter isso e muito mais. O longa ‘O Animal Cordial’, da cineasta baiana Gabriela Amaral Almeida segue essa linha e com uma proposta definida: utilizar de elementos um tanto brutais para ilustrar as atrocidades que vivemos a cada dia e que nossa sociedade está ainda mais violenta.

A história se passa em um restaurante, cujo dono, o empresário Inácio (Murilo Benício), o administra a mão de ferro, com bastante autoritarismo e não admitindo contestações. Os empregados demonstram um certo incômodo, principalmente o chef Djair (Irandhir Santos), que vive reclamando pelos cantos. Já Sara (Luciana Paes) é um pouco mais contida e aparentemente tranquila, e não demora muito para ganhar a confiança do chefe. Os frequentadores do estabelecimento não são lá muito sociáveis: Amadeu (Ernani Moraes), um chefe de polícia aposentado e com semblante apático, o casal Bruno (Jiddú Pinheiro), um playboy esnobe e cheio de si e Verônica (Camila Morgado), uma mulher dominadora e que desdenha da postura humilde de Sara. Tudo parece estar na maior tranquilidade, quando de repente o local é assaltado, mas a reação de Inácio surpreende a todos, rendendo os dois bandidos e transformando o restaurante em um ambiente de tortura, claustrofóbico e de medição de forças.

O roteiro do filme é fora do comum, com cenas recheadas de sangue, requintes de crueldade e personagens sendo construídos e desconstruídos, tudo isso graças ao palco onde se passa a trama e a respectiva montagem de cada ação. Aos poucos, os intérpretes vão se revelando e os contornos da história vão ganhando ainda mais dramaticidade, ingredientes certeiros para um enredo que possui um misto de suspense e terror. Nota-se um autêntico palco de insanidade e brutalidade, e quem acompanha não consegue se segurar na poltrona, tamanho o alvoroço que acontece.

A fotografia, de responsabilidade de Bárbara Alvarez, conferiu ao restaurante, palco principal, um tom mais sombrio e sufocante. A sensação de inquietude só aumenta, e o sentimento de que tudo vai acabar e se resolver passa demasiadamente longe. Houve também uma perfeita harmonia com o trabalho de direção de arte, a escolha da luz, dos objetos a serem utilizados nas cenas e os ângulos das câmeras a cada ação, tudo proporciona uma ótima sensação de imersão no espectador.

O trabalho do elenco é magistral, Murilo Benício demonstra uma capacidade de transformação impressionante, de homem inicialmente passivo para maquiavélico, ele carrega o filme juntamente de Luciana Paes, que se revela o fio condutor da história. Sua personagem vai ter decisões que serão cruciais para o desfecho, além de protagonizar juntamente com o papel de Benício uma das cenas mais alucinantes dos últimos anos. O núcleo secundário é muito coeso e fortalece a trama com suas interações.

Um filme surpreendente, perturbador, que hipnotiza o espectador e não o deixa respirar por um minuto. Assim pode ser definido ‘O Animal Cordial’, uma produção que chega não só para levantar polêmica, mas também para mostrar a capacidade do cinema nacional de produzir e oferecer outras opções ao seu espectador, e reforçar a habilidade de se saber contar uma boa história. O cinema brasileiro cada vez em evidência e alçando novos voos, vale a pena prestigiar.

Cotação: 4/5 poltronas.

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