Poltrona Cabine: Kayara-A Princesa Inca/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Kayara-A Princesa Inca/Cesar Augusto Mota

A cultura de um povo, com seus usos, costumes e símbolos, são sempre importantes, não só do ponto de vista da informação, como também da significação de uma nação. Mas nem sempre a quebra de uma tradição ocorre com facilidade, levando-se em conta os dogmas e princípios que levaram décadas ou até mesmo séculos para serem consolidados. Nesse contexto, a animação ‘Kayara-A Princesa Inca’ se desenrola com promessa de muita emoção e reflexões pertinentes sobre legado, coragem e resiliência.

Kayara, uma jovem de 16 anos sonha em quebrar uma barreira e ser a primeira mulher a liderar a liga dos mensageiros incas, os Chasquis. Porém, ela terá de enfrentar a resistência do pai e de todo o seu povo, tendo em vista que, via de regra, somente homens poderiam ser líderes de uma comunidade. Disposta a alterar essa regra, Kayara contará com sua coragem, resiliência e terá de enfrentar muitos terrenos perigosos e oponentes para alcançar seu objetivo.

As representações visuais da cultura inca, com os monumentos, armas, roupas e o significado das constelações, que significavam princípios e até mesmo a definição do destino de um ser humano, se dão de maneira autêntica, espontânea e com um bom jogo de luzes, com alternância entre as cores quentes para os confrontos e as frias para momentos de tensão e melancolia.

A luta de Kayara por espaço em uma sociedade patriarcal reflete o atual momento no qual vivemos, com debates acerca do empoderamento feminino, a luta diária por igualdade e afirmação e a superação de barreiras culturais e históricas. A animação não só entretem, como possui um importante papel de abrir os olhos das pessoas e mostrar que o mundo está em constante movimento e transformação, com novas descobertas, conquistas e desafios a serem enfrentados e superados.

‘Kayara-A Princesa Inca’ é uma obra que diverte, inspira, debate e conversa com todos os públicos. Uma animação divertida e necessária.

Cotação: 5/5 poltronas.  

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Lua/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Lua/Cesar Augusto Mota

A chegada do homem à Lua foi um marco para a humanidade, na qual foram constatadas novas formas de vida e possibilidades de sobrevivência. Outros astronautas já pousaram no principal satélite da Terra, e neste filme de Kim Yong-hwa, intitulado ‘A Lua’ (The Moon), iremos ver os primeiros astronautas sul-coreanos em busca da glória que os americanos alcançaram há mais de cinquenta anos.

Próximo ao ano de 2030, a Coreia do Sul se vê em uma nova corrida espacial e irá tentar chegar à Lua após sete anos, quando a primeira missão tripulada terminou em tragédia, vitimando três jovens astronautas. Nessa segunda missão, Hwang Sun Woo está no comando de um veículo espacial lunar quando um forte vento provoca uma colisão com um perigo desconhecido. O centro espacial nacional resolve recorrer a seu ex-diretor administrativo, antes afastado por uma polêmica interna, que tentará com sua equipe resgatar Sun Woo antes que uma nova tragédia aconteça.

Em se tratando de ficção científica, espera-se uma narrativa que explore bem o fator psicológico dos personagens, apresente um ambiente que seja capaz de fisgar e inserir o espectador e sons estrondosos capazes de atingir quem está acompanhando o desenrolar da história. Tudo isso acontece nessa produção coreana, além de uma forte exploração dos limites das dores físicas e psicológicas. A questão política é brevemente abordada, e rapidamente superada pelo espírito altruístico de duas nações, Estados Unidos e Coreia do Sul, que se juntam para salvar a vida de um ser humano.

O ritmo da trama é um pouco prejudicado, se dá de forma lenta e nem todos os arcos dos personagens são desenvolvidos, tendo em vista o tempo longo de duração da obra, de mais de cento e vinte minutos. A atuação de D.O, que dá vida a Sun Woo, supre as lacunas da produção, com destaque para as cenas mais arriscadas, com a iminência de desintegração da nave espacial na qual está. As expressões de dor e desespero dão autenticidade e se tornam um grande chamativo para essa ficção científica.

‘A Lua’ surge como alternativa a quem curte filmes que explorem o drama, a ficção científica e com viés político. A Sato Company consegue ilustrar que as produções asiáticas, principalmente as japonesas e coreanas, são capazes de oferecer produtos de qualidade para os fãs de cinema, bebendo da fonte de produções ocidentais, mas sem perder suas essências.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Sol de Inverno/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Sol de Inverno/Cesar Augusto Mota

A prática esportiva não só faz bem para o corpo e a mente como é capaz de proporcionar fortes vínculos entre as pessoas. E com o passar do tempo, é possível perceber mudanças, principalmente quanto ao círculo social.  Dirigido por Hiroshi Okuyama, “Sol de Inverno” (My Sunshine) mostra não só isso, mas também quebra um paradigma que temos acerca das pessoas que vivem no Oriente, e com importantes lições.

Em uma pacata ilha japonesa, a rotina dos habitantes é marcada pela mudança de estações, e durante o inverno, a prática de hockey no gelo é bastante comum. Porém, o jovem Takuya não se mostra entusiasmado com o esporte, que tem como verdadeiro interesse a patinação artística, e se encanta pela performance da jovem Sakura. O técnico da jovem, Arakawa, ex-campeão da modalidade, vê potencial em Takuya e o incentiva a formar dupla com Sakura para uma futura competição. O vínculo entre eles fica mais forte e harmonioso, e resiste mesmo até a estação mais fria.

 A abordagem sensível e delicada do comportamento oriental, com pessoas fechadas e introspectivas, vai aos poucos quebrando as expectativas em relação aos comportamentos que seriam esperados. Takuya, ao trocar o hockey pela patinação artística, poderia, aos nossos olhos, sofrer bullying pelo fato de o segundo esporte ser considerado feminino, mas não é o que ocorre. As mudanças de atitude e os comportamentos do jovem se dão de forma leve e sutil, e quase não são vistos conflitos durante a narrativa. A sensibilidade do personagem faz o espectador abraçá-lo e acompanhá-lo com muita atenção nessa nova jornada.

Além do bullying, a questão da homofobia também é abordada, mas de uma forma mais séria, com o conflito vivido por Arakawa, o professor de hockey. Porém, tudo se dá de uma maneira mais isolada, separado do enredo principal, acerca do aprendizado de Takuya com Sakura e o aprendizado do garoto na patinação artística. As mudanças de comportamento do garoto são bem aceitas, e o desfecho se dá de forma satisfatória, ao contrário do que acontece com Arakawa, pela falta de profundidade de seu conflito com todos os moradores da pequena ilha na qual se passa a trama.

Sensível, acolhedor e reflexivo, “Sol de Inverno” vem para aquecer o coração dos espectadores, bem como mostrar que se pode levar a vida de uma forma mais leve e descontraída em meio a obstáculos que se apresentem.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar/Poltrona Cabine: Conclave/Anna Barros

Maratona Oscar/Poltrona Cabine: Conclave/Anna Barros

O filme fala sobre a morte de um Papa em condições misteriosas e o conclave para a eleição de um novo papa, que segundo a Igreja Católica, é movido pelo Espírito Santo. Só que acontecem coisas que deixam o decano Lawrence com a pulga atrás da orelha: o encontro do cardeal canadenseTremblay com o papa antes de sua morte, o envolvimento do cardeal Adeyemi da Nigéria com uma freira, a hesitação do cardeal americano Aldo e o surgimento de um cardeal mexicano, Benítez, desconhecido que vive em Cabul, Afeganistão e que o papa anterior o apoiou e pagou seu tratamento num hospital da Suíça. 

O cardeal Lawrence é vivido magistralmente por Ralph Fiennes em mais um papel que pode lhe indicar uma indicação ao Oscar. Seu ar contido, misterioso de um cardeal que dúvida de sua fé e faz de tudo para que a escolha seja a mais acertada é realmente estupendo. Ralph é maravilhoso mais uma vez.

Há uma demora na eleição após seis escrutínios e a ameaça de terrorismo através de uma bomba solta nos arredores do Vaticano que destrói uma parte do teto da Capela Sistina e deixa o cardeal Lawrence assustado levando à um extenso debate o que leva os olhos a Benítez, o cardeal mexicano.

Há uma surpresa no conclave e um final surpreendente e inesperado. Excelente atuação também de John Litgow como o cardeal Tremblay e de Isabella Rosselini como uma freira, fundamental para a solução de alguns mistérios da trama.

Linda fotografia, lindo figurino e uma excelente direção de Edward Berger. Conclave deve ser indicado TB a Melhor Filme do Oscar.

Conclave estreia em todos os cinemas brasileiros dia 23 de janeiro.

5/5 poltronas

Poltrona Cabine: Corpo Presente/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Corpo Presente/Cesar Augusto Mota

A música e o cinema são elementos perfeitos para ilustrar nossos valores, costumes e tudo o que compõe nossa cultura. Além delas, a dança também é sinônimo de expressão, e carrega outras conotações. E justamente para mostrar esses novos significados que acompanhamos o documentário “Corpo Presente”, de Leonardo Barcelos, com o intuito de deleite e, principalmente, reflexão.

Simbolista seria um sinônimo  para essa obra, que apresenta diversos artistas e pensadores com contribuições importantes no campo filosófico, político e social. Performances dotadas de coreografias sincronizadas, o tema “corpo” como pano de fundo, assim como depoimentos sobre o tema propõem um importante debate sobre as várias conotações de corpo, muito além de uma matéria ocupando um determinado espaço.

Temas como luta de classes, identidade e gênero foram não só debatidas como apresentadas por meio da dança, com os corpos sinalizando novas ideologias e signos, e transformações constantes para sinalizar que existem novas formas de ser e de estar no mundo. Novos universos são traçados no imaginário das pessoas, bem como os sentidos que podem desempenhar, com várias sensações e reflexões.

Uma espécie de diário em formato visual se apresenta diante dos espectadores, que não só contemplam, como também se imaginam no ambiente e no contexto dos movimentos articulados, numa sensação de verdadeira imersão. Além de ser didático, o documentário proporciona profundas emoções, além de relações bem conexas, entre imagem, som e movimentos, que juntos, formam uma linguagem múltipla.

Uma obra diferente das apresentadas à exaustão, “Corpo Presente” pensa fora da caixa e convida o espectador a fazer o mesmo. Vale a experiência.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota