Maratona Oscar: Kokuho-O Preço da Perfeição/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Kokuho-O Preço da Perfeição/Cesar Augusto Mota

Além da beleza, o cinema é feito de dramaticidade, ação e sentimento. Com uma bela representação, é possível oferecer um bom deleite aos olhos dos espectadores, além das impressões e perspectivas dos personagens. “Kokuho-O Preço da Perfeição”, de Lee Sang-il consegue construir uma história que é, ao mesmo tempo, dramática e bela. Uma obra que exige não só sutileza, como também cuidado do realizador, que pretende mostrar uma espécie de jornada do herói, sem esquecer das belezas que a vida pode oferecer.

Acompanhamos Kikuio, um jovem ator que, após se apresentar em uma peça onde dá vida a uma uma gueixa, acaba por presenciar a morte do pai durante um confronto com um grupo da Yakuza.  Ele passa a ser criado pelo lendário ator de kabuki Hanai Hanjiro II e anos depois parte em busca de um acerto de contas contra os assassinos, por meio da justiça com as próprias mãos.

Longe de ser um filme sobre vingança, a produção foca na busca por identidade e pertencimento a um grupo após uma grande perda no seio familiar. Mas para esse arco funcionar, o elenco teria que ter atuações de alto nível, o que é possível perceber nas quase três horas de exibição. A cultura japonesa, no tocante ao Kabuki, traz reflexão e conhecimento ao espectador, tendo em vista se tratar de uma arte que aborda conflitos morais e dramas históricos. A beleza extravagante faz parte do espetáculo, e não foi à toa que o filme foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor maquiagem e penteado.

A estética e o emocional são bem explorados nas encenações, e a maquiagem é importante na representação do luto e na busca por identidade. A cultura é mostrada não só como uma ferramenta de conhecimento, mas também como sinônimo de liberdade e reconstrução. Quem acompanha se encanta com a beleza e a delicadeza como a história de superação e resiliência foi contada, com encenações honestas e fiéis às tradições nipônicas. Uma grata surpresa para quem não esperava muito dessa obra.

Envolvente, imersivo e dramático, “Kokuho-O Preço da Perfeição” é ótimo para quem quer novas experiências no audiovisual e está disposto a conhecer e aprender sobre novas tradições e costumes de outros povos. Vale a pena.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Uma Batalha Após a Outra/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Uma Batalha Após a Outra/Cesar Augusto Mota

Violência, intensidade e muitas ideias no ar. Quem conhece Paul Thomas Anderson percebe que o diretor não foge desses padrões em seus filmes, mas quem não está acostumado às suas obras certamente irá se surpreender. “Uma Batalha Após a Outra”, apesar de ser um filme de época, dialoga com os dias atuais e promove sérias reflexões.

A história está centralizada em Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), um ex-militante marcado por frustrações e tristezas, Ferguson reencontra o mais cruel de sua longa lista de inimigos, que sequestra sua filha. Diante de tamanha urgência, Ferguson reúne seus antigos companheiros e embarca em um implacável desafio em que precisará correr contra o tempo para salvar quem ele mais ama.

Notamos um Ferguson paranoico, que acredita que a qualquer momento será encurralado por seus atos cruéis cometidos no passado, mas firme em seu propósito. O protagonista vive uma espécie de luta contra um sistema, liderado por alguém que acredita que a raça branca é superior às outras, o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). Um vilão implacável, que irá fazer de tudo para fazer valer suas crenças e valores.

A fotografia do filme de Anderson retrata de uma forma eficiente o sentimento de resistência contra a opressão, além da carga política com temas como liberdade, imigração, violência institucional e controle social. A forma como o cineasta reúne histórias com o uso de ação e violência encanta o espectador, que consegue ter momentos de humor ácido aliada à crítica que a obra faz contra as políticas anti-imigratórias e a opressão aos estrangeiros.

As atuações do elenco também dão o ar da graça, com Di Caprio muito seguro e com expressões que remetem a cuidados que devemos ter com a saúde mental e a firmeza na busca por nossos objetivos. Sean Penn retrata o autêntico vilão, sempre atento à vulnerabilidade de suas presas, além do receio de demonstrar fragilidade diante de seus adversários.

“Uma Batalha Após a Outra” não leva esse título à toa, pois conversa com nosso cotidiano e a realidade que cada um vive, com constantes desafios que precisam ser superados e o advento de novos em sequência. Uma produção que vem forte na temporada de premiações e favorita em 13 categorias do Oscar, com destaque para melhor filme, diretor, ator principal e ator coadjuvante. É para ficar de olho.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar/Poltrona Resenha: O Agente Secreto/Anna Barros

Maratona Oscar/Poltrona Resenha: O Agente Secreto/Anna Barros

O Agente Secreto começa com o professor Marcelo viajando três dias de Brasília a Recife. Ele para num posto de gasolina em pleno Carnaval e vê um cadáver estendido no posto. O frentista disse que não tinham ido buscar. Chegam dois policiais e o revistam. Depois o carro. Cria-se ali um momento de tensão. Até que ele sem ter dinheiro, dá seu maço de cigarro com três. 

Dali ele parte para o Edifício Ofir onde outros perseguidos estão. O lugar é comandado por Dona Sebastiana, brilhantemente interpretado por Tânia Maria, uma atriz nordestina fascinante. Há várias pessoas ali: um casal angolano, um jovem, uma dentista e sua filha. Marcelo se entrosa com todos e no dia seguinte vai pro seu trabalho no Instituto de Identificação. E também encontra seu filho Fernando que mora com os avós. Sua esposa havia falecido. Mas fica no ar se pela Ditadura ou por causa do empresário que acaba contratando um matador para acabar com Marcelo. 

No instituto de identificação ele quer achar a identidade de sua mãe e faz amizade apesar do jeito misterioso. Ele parece calmo mas esconde um passado de luta. 

Aí que entra seu sogro, seu Alexandre, que trabalha como projetista no cinema São Luiz. O diretor Kleber Mendonça Filho mostra a magia do cinema e a metalinguagem. O próprio Fernando é fissurado no filme Tubarão de Spielberg que pode ser uma metáfora para a Ditadura Militar. 

Nesse ínterim a lenda urbana recifense da Perna Cabeluda. Uma perna é encontrada dentro de um tubarão e depois atormenta um monte de gente na Praça Treze de Maio. Essa parte lembra um pouco a outra obra-prima do diretor: Bacurau. 

Marcelo encontra Elza e o pediatra que são da rede de proteção aos perseguidos políticos e ali sabe que querem matá-lo. Esse encontro acontece no São Luiz. 

O filme tem um ótimo roteiro, muito bem dirigido e Wagner Moura como Marcelo está fantástico. Todos os atores crescem com ele e todos estão maravilhosos. O filme é sensível e profundo mesmo tratando de uma Recife de 1977 sob o véu da Ditadura. A parte do Carnaval é um bálsamo. Chorei muito principalmente na parte que seu Alexandre, o sogro dele, pergunta se a filha Fátima falou tantas coisas boas a seu respeito e no final. 

É um filme que fala de memória, de lembranças sob um contexto político subliminar ali. Kleber deixa tudo para que vc tire suas conclusões e reflita muito. É uma ode de amor a Recife, terra natal de Kleber Mendonça Filho e ao cinema. Com o pano de fundo da Ditadura Militar, época mais sombria da nossa história. 

Recomendo ver também o doc Retratos Fantasmas também de Kleber. Na Netflix. 

Arrisco dizer que concorrerá a pelo menos três Oscars: Filme, Internacional e Ator. E ainda pode beliscar outros como Roteiro Original e Montagem. Um filme que precisa ser visto por todos os brasileiros. Orgulho mais uma vez do Cinema Nacional. 

Essa primeira resenha foi feita em 23 de novembro de 2025.

Nota da Editora de 22 de janeiro : O Agente Secreto concorre a quatro Oscars: Filme, Internacional, Ator para Wagner Moura e Elenco. Dia histórico para o cinema brasileiro. Wagner Moura corre por fora na categoria de Melhor Ator pois tem Thimothy Chalamet e Leonardo DiCaprio como fortes concorrentes. As chances a meu ver são em Melhor Filme Internacional apesar de Valor Sentimental e Melhor Elenco. Dona Tânia Maria maravilhosa e todo o elenco fantástico no Oscar.

Maratona Oscar: Quatro Paredes/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Quatro Paredes/Cesar Augusto Mota

A expressão “nadar contra a maré” nunca fez tanto sentido, principalmente nas sociedades em que mulheres oprimidas lutam contra sistemas patriarcais e opressores que a desacreditam e até mesmo a ridicularizam. No documentário escrito e dirigido por Shiori Ito, “Quatro Paredes” irá registrar a luta incessante de uma mulher contra uma sociedade japonesa patriarcal e de regras seculares.

A jornalista Shiori Ito busca justiça por ter sofrido agressão sexual por um jornalista político, um aliado do Primeiro-Ministro do Japão na época do ocorrido. Diante de tantos acolhimentos após muitas dores e traumas, Ito não desistiu de seu propósito de redesignar um sistema jurídico regido por regras de mais de cem anos e bastante passivo. Além do abuso, sofreu intensas torturas psicológicas durante o processo de investigação, o que deixou a jornada mais dolorosa.

O fato por si só já chama a tenção e instiga o espectador a acompanhar um caso de alguém que bate de frente contra uma sociedade machista e opressora, além de tentar derrubar leis consideradas obsoletas para os dias atuais. E outro ponto chamativo está no jogo de imagens, inicialmente a vítima reluta em mostrar o rosto, com de ser estigmatizada e desacreditada, mas a coragem falou mais alto, se tornando um incentivo para novas vítimas fazem denúncias. Segundo dados coletados por Ito, apenas 4% dos casos de estupro no Japão tiveram desfecho.

A obra é didática, um verdadeiro grito contra a passividade, omissão e intolerância, além da busca pelo fortalecimento dos direitos das mulheres, de serem ouvidas, respeitadas e protegidas. Sem medir as consequências e sem receio de seu caso ter o mesmo destino de outros no Japão, Ito, juntamente com o apoio de outras vítimas, da sociedade japonesa e da mídia, foi forte em seu propósito, e serve de inspiração para novos casos.

Indicado na categoria de Oscar de melhor documentário, “Quatro Paredes” é um forte representante asiático na atual temporada de premiações. Merece a conferência e a audiência.

Cotação: 5/5 poltronas.

Maratona Oscar: The Nickel Boys/Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: The Nickel Boys/Cesar Augusto Mota

O cinema americano tem ganho ainda mais destaque na última década pela exploração de fatos históricos e impactantes para o país e que significaram verdadeiros marcos para a humanidade. O Movimento dos Direitos Civis, da década de 60, passa a ser o pano de fundo de ‘The Nickel Boys’, de RaMell Ross, que irá ilustrar uma história impactante, humana e de muita resiliência.

Inspirado em um romance homônimo, de Colson Whitehead, a obra traz a história de Elwood e Turner, dois jovens negros que se conhecem no reformatório Nickel, na Flórida, Estados Unidos. Os dois criam um vínculo sólido e muito poderoso, mas passam a viver momentos sofridos e angustiantes em um ambiente opressor, tendo de passar por verdadeiras provações.

As perspectivas em primeira pessoa dos personagens é um interessante recurso para imprimir uma experiência mais íntima, única e extremamente torturante, tendo em vista o racismo que imperava nos Estados Unidos e que persiste até os dias atuais. O sofrimento e resiliência dos personagens-centrais prendem o espectador do início ao fim, tamanhos foram os abusos e a violência empregada contra os internos da instituição Nickel.

As atuações são viscerais e comoventes, e aliadas com o ótimo trabalho de direção e fotografia e som. Cenas mais dolorosas retratadas pela ótica dos personagens e com pouca sombra deram sensação de melancolia e angústia, e um clima de suspense capaz de prender a atenção para a sequência de ações e suas consequências. As memórias afetivas também são exploradas, mas com sutileza e sem apelações.

Instigante, complexo e impactante, ‘The Nickel Boys’ é um convite a reflexão sobre respeito e o papel de cada um no mundo, bem como as consequências de cada ação em sociedade. A obra concorre ao Oscar 2025 nas categorias de melhor filme e melhor roteiro adaptado, um ótimo concorrente na atual temporada de premiações.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota