Poltrona Cabine: O Dia da Posse/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Dia da Posse/Cesar Augusto Mota

O período de isolamento social ao qual nos submetemos entre 2020 e 2022 foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis que experimentamos. Além da preocupação em nos protegermos de uma doença que matou milhões de pessoas, os desafios de nos reinventarmos e de não nos deixar abater também falaram alto. De uma forma leve e bem-humorada, ‘O Dia da Posse’, de Allan Ribeiro, faz uma mistura de documentário com ficção nesse filme autoral distribuído pela Embaúba Filmes.

Brendo (Brendo Washington) sonha em ser presidente da República, mas, enquanto não alcança seu objetivo, estuda Direito, produz vídeos para as redes sociais e se imagina como um participante de reality show, tudo isso em meio à uma grave crise sanitária, causada pela pandemia do Covid-19. O jovem replica esses cenários imaginários e promove debates acerca de questões políticas em meio à monotonia do ambiente doméstico no qual está inserido.

Nesta produção autoral e independente, Allan Ribeiro, que também atua, procurou com sua equipe reduzida realizar importantes reflexões sobre o momento atual do país, o futuro e enfatizar a importância de cada um ter sonhos e nunca perder as esperanças. O filme encanta pela simplicidade, com cenas do cotidiano, e a interação, mesmo que não seja cara a cara, entre Allan e Brendo, o protagonista e corroteirista.

A discussão acerca do que é realidade e ficção acabou por quebrar um pouco o ritmo do filme, mas as cenas em plano fechado, a espontaneidade dos personagens e os temas atuais que apareceram ao longo da história fizeram o público se identificar com Brendo, se conectar a ele e se interessar por uma produção que foi além da exposição do cotidiano. Um filme simples e necessário.

Mesmo em meio a um cenário caótico e preocupante, Allan Ribeiro aproveitou para dar cara a sua produção, com a pandemia servindo como um incentivo e não uma barreira. De uma maneira sensível, mas otimista, ‘O Dia da Posse`é um convite ao entretenimento e à reflexão.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Último Pub/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Último Pub/Cesar Augusto Mota

Conhecido por retratar em suas obras causas e ações humanitárias que visam apoiar classes fortemente afetadas por sistemas políticos opressores, o cineasta britânico Ken Loach está de volta. Após sucessos como “Eu, Daniel Blake” e “Ventos da Liberdade”, o inglês de 87 anos desta vez ilustra o sofrimento e esperança de refugiados sírios por dias melhores em “O Último Pub” (The Last Oak).

TJ Ballantyne (Dave Turner), proprietário de um bar situado em um vilarejo no noroeste da Inglaterra, luta para manter vivo seu negócio em uma área impactada pelo fechamento de zonas mineradoras, provocando um enorme êxodo da população. Diante desse cenário, refugiados sírios começam a ocupar as casas que ficaram vazias, aumentando a tensão e a união dos moradores sendo colocada à prova. Yara (Elba Mari), uma síria com uma câmera fotográfica na mão, começa uma amizade improvável com TJ e o vilarejo é tomado pelo preconceito com os novos moradores.

Não só conflitos entre uma classe mais abastada e outra menos favorecida podemos constatar, mas também um grande embate entre cristãos e islâmicos, com Ken Loach colocando o dedo na ferida, personificada pelas fotos tiradas pela personagem Yara. É construída uma certa polarização, mas cada grupo irá prender a atenção do espectador e vai mostrar ser possível lutar por seus sonhos e manter firmes seus princípios, apesar das adversidades.

A fotografia, com cores quentes, ilustra o ambiente hostil e pesado que os sírios enfrentam, com tomadas de câmera próximas aos rostos dos refugiados. A amizade entre TJ e Yara é o pano de fundo da história, que se torna um combustível para a narrativa se desenvolver e ganhar mais força. As atuações são sólidas, transmitem autenticidade, e não há furos na história. Tudo é bem amarrado, com um impactante clímax e uma solução plausível.

Um filme impactante, forte e necessário, assim pode ser definido “O Último Pub”, que nos mostra ser possível superar tudo, mesmo com o pouco que se tem.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca/Cesar Augusto Mota

Produções de baixo orçamento e voltadas para um público infantojuvenil estão cada vez mais comuns nos últimos anos, principalmente se forem animações e com mensagens importantes por trás. Premiado como o melhor longa Infantil no Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI) e exibido em países como Cuba, Estados Unidos, Índia, País de Gales e Rússia, “Teca e Tuti: Uma Noite na Biblioteca” chega ao circuito nacional não só com o intuito de ser didático, mas o de ser uma aventura inesquecível para as crianças.

Teca, uma pequena traça que mora com sua família em uma caixa de costuras, alimenta-se de papel. Mas tudo começa a mudar quando ela aprende a ler e descobre que os livros não devem ser comidos, pois estes trazem histórias que tanto adora. Ao lado de seu amigo ácaro Tuti, Teca viverá uma grande aventura em uma biblioteca durante uma noite. Disposta a achar sua mãe, ela terá que lidar com grandes perigos e irá se deparar com grandes desafios que vão transformar sua vida para sempre.

As técnicas de stop motion, com uso de fotografias para fazer os bonecos falarem e se movimentarem, aliadas ao live action, não só proporcionaram uma experiência mais lúdica, como também épica para o público, com belas sincronias e representações imagéticas. As interações entre as animações, combinadas com as dos atores reais estimulam o público infantil a se interessar pelas aventuras de Teca e Tuti, como também o de criar o hábito da leitura, cada vez mais crescente nos dias atuais entre os jovens.

O estímulo à imaginação, a transformação do mundo por meio da leitura e a valorização da cultura brasileira se fazem explícitas na obra, o que torna a produção ainda mais brilhante e memorável. Os encorajamentos feitos personagens secundários, como Clarice, a aranha, e o João, o ratão, são outros ingredientes que tornam a jornada de Teca inesquecível. Carismática, sonhadora e doce, ela cresce ao longo da animação e passa a desbravar um novo mundo, graças à leitura, um estímulo para a atual e futuras gerações do nosso país.

Divertido, didático e inspirador, “Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca” vem para conquistar os corações de todos e ficar por muito tempo na memória dos bons apreciadores da leitura e de boas animações.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Música Natureza de Léa Freire/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Música Natureza de Léa Freire/Cesar Augusto Mota

A música é inerente aos sentimentos das pessoas e à cultura de um país e de um povo. E viver da arte é um grande desafio para o profissional, seja para conseguir a aceitação do público e ingressar em mercados fonográficos do exterior. Em um documentário dirigido por Lucas Weglinski, “A Música Natureza de Léa Freire” ilustra a trajetória de uma instrumentista brasileira que lutou contra barreiras e preconceitos para se estabelecer em um ambiente antes dominado por homens.

Ao som do piano ou da flauta, Léa Freire detalha o início de sua paixão pela música, ícones que a influenciaram a entrar no ambiente musical e tudo sobre a música erudita e popular, com destaque para a Bossa Nova. Há depoimentos de artistas, que relatam ter Léa como exemplo e inspiração para a música. Além disso, o traquejo musical de Léa é bastante elogiado, bem como suas inovações e técnicas de improviso durante a execução de uma música.

Um dos assuntos mais importantes da obra é a superação dos preconceitos, e Léa teve de mostrar que mulheres podem ser o que quiserem e improvisar nos momentos de dificuldade. Confiante em suas habilidades, seguiu com seu propósito e hoje é referência mundial, tendo inclusive composto centenas de músicas. Além da misoginia e machismo que enfrentou, passou por cima da desconfiança e dificuldade em fechar contratos, tendo mais tarde fundado a Maritaca Discos.

Com um tom sereno e linguagem simplificada, o documentário faz o espectador não só conhecer e contemplar uma carreira consolidada e vitoriosa de Léa Freire, como também refletir sobre a cultura brasileira, da sua importância, como também saber valorizar o que é nosso. Para Léa, não basta só ter talento, como também ter a capacidade de influenciar pessoas, ser visto e mostrar tudo o que a cultura do país tem a oferecer.

Um deleite para os ouvidos e para a alma, “A Música Natureza de Léa Freire” não só distrai, mas inspira todos os amantes da música, bem como os profissionais ou quem deseja entrar no mercado musical. Além do talento, é necessário incentivo, há abençoados que encontram a oportunidade no local e o momento certo, caso de Léa Freire. Vale a pena acompanhar.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Flor do Buriti/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Flor do Buriti/Cesar Augusto Mota

Demarcação de terras indígenas e preservação da natureza são temas há muito tempo discutidos e necessários na sociedade. No audiovisual, a produção luso-brasileira “Flor do Buriti”, dos cineastas João Salaviza e Renée Nader Messora, aborda esses temas, bem como estimula as pessoas a pensarem e agirem, bem como a resistirem à exploração feita pelo homem branco.

A obra ilustra os últimos 80 anos dos Krahô, povo indígena que vive no norte do Tocantins, na fronteira entre Maranhão e Piauí, com a retratação das mais diferentes formas de resistência, como luta por maior liberdade, por terra, preservação dos ritos ancestrais e da natureza das comunidades nas quais vivem. Um dos massacres retratados foi um ocorrido em 1940, no qual fazendeiros da região mataram pelo menos 26 pessoas do povo Krahô.

A narrativa é não-linear e se dá por meio das memórias compartilhadas entre os indígenas, com reconstituições dos fatos de décadas diversas até os dias de hoje, como uma forma de incentivar os Krahô a sempre se reinventarem e nunca se calarem diante dos exploradores. As cenas são feitas por indígenas autênticos e sem o uso de imagens de arquivo para retratar os desmatamentos e chacinas experimentados pela região.

Há uma aura de suspense sobre o íntimo espiritual dos Krahô, que ocorre graças ao ritmo lento e contemplativo da narrativa, e com um jogo de sombra e luz sobre a aldeia e um corte abrupto para a transição entre passado e presente.  As transformações e adaptações pelas quais os indígenas passam são mostradas com seriedade e sensibilidade, e notamos isso por meio de dois personagens, como um jovem que acompanha a política brasileira pela internet e um pajé que vigia uma criança e parte para uma viagem para Brasília. As percepções de mundo são distintas, mas a espiritualidade é praticamente a mesma.

“Flor do Buriti” é uma produção de cunho político, social e didático, com debates necessários em todas as comunidades, que ilustra a ideia do cuidado, do respeito e da tolerância. Vale toda a contemplação e reflexão.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota