Poltrona Cabine: A Música Natureza de Léa Freire/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Música Natureza de Léa Freire/Cesar Augusto Mota

A música é inerente aos sentimentos das pessoas e à cultura de um país e de um povo. E viver da arte é um grande desafio para o profissional, seja para conseguir a aceitação do público e ingressar em mercados fonográficos do exterior. Em um documentário dirigido por Lucas Weglinski, “A Música Natureza de Léa Freire” ilustra a trajetória de uma instrumentista brasileira que lutou contra barreiras e preconceitos para se estabelecer em um ambiente antes dominado por homens.

Ao som do piano ou da flauta, Léa Freire detalha o início de sua paixão pela música, ícones que a influenciaram a entrar no ambiente musical e tudo sobre a música erudita e popular, com destaque para a Bossa Nova. Há depoimentos de artistas, que relatam ter Léa como exemplo e inspiração para a música. Além disso, o traquejo musical de Léa é bastante elogiado, bem como suas inovações e técnicas de improviso durante a execução de uma música.

Um dos assuntos mais importantes da obra é a superação dos preconceitos, e Léa teve de mostrar que mulheres podem ser o que quiserem e improvisar nos momentos de dificuldade. Confiante em suas habilidades, seguiu com seu propósito e hoje é referência mundial, tendo inclusive composto centenas de músicas. Além da misoginia e machismo que enfrentou, passou por cima da desconfiança e dificuldade em fechar contratos, tendo mais tarde fundado a Maritaca Discos.

Com um tom sereno e linguagem simplificada, o documentário faz o espectador não só conhecer e contemplar uma carreira consolidada e vitoriosa de Léa Freire, como também refletir sobre a cultura brasileira, da sua importância, como também saber valorizar o que é nosso. Para Léa, não basta só ter talento, como também ter a capacidade de influenciar pessoas, ser visto e mostrar tudo o que a cultura do país tem a oferecer.

Um deleite para os ouvidos e para a alma, “A Música Natureza de Léa Freire” não só distrai, mas inspira todos os amantes da música, bem como os profissionais ou quem deseja entrar no mercado musical. Além do talento, é necessário incentivo, há abençoados que encontram a oportunidade no local e o momento certo, caso de Léa Freire. Vale a pena acompanhar.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Flor do Buriti/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Flor do Buriti/Cesar Augusto Mota

Demarcação de terras indígenas e preservação da natureza são temas há muito tempo discutidos e necessários na sociedade. No audiovisual, a produção luso-brasileira “Flor do Buriti”, dos cineastas João Salaviza e Renée Nader Messora, aborda esses temas, bem como estimula as pessoas a pensarem e agirem, bem como a resistirem à exploração feita pelo homem branco.

A obra ilustra os últimos 80 anos dos Krahô, povo indígena que vive no norte do Tocantins, na fronteira entre Maranhão e Piauí, com a retratação das mais diferentes formas de resistência, como luta por maior liberdade, por terra, preservação dos ritos ancestrais e da natureza das comunidades nas quais vivem. Um dos massacres retratados foi um ocorrido em 1940, no qual fazendeiros da região mataram pelo menos 26 pessoas do povo Krahô.

A narrativa é não-linear e se dá por meio das memórias compartilhadas entre os indígenas, com reconstituições dos fatos de décadas diversas até os dias de hoje, como uma forma de incentivar os Krahô a sempre se reinventarem e nunca se calarem diante dos exploradores. As cenas são feitas por indígenas autênticos e sem o uso de imagens de arquivo para retratar os desmatamentos e chacinas experimentados pela região.

Há uma aura de suspense sobre o íntimo espiritual dos Krahô, que ocorre graças ao ritmo lento e contemplativo da narrativa, e com um jogo de sombra e luz sobre a aldeia e um corte abrupto para a transição entre passado e presente.  As transformações e adaptações pelas quais os indígenas passam são mostradas com seriedade e sensibilidade, e notamos isso por meio de dois personagens, como um jovem que acompanha a política brasileira pela internet e um pajé que vigia uma criança e parte para uma viagem para Brasília. As percepções de mundo são distintas, mas a espiritualidade é praticamente a mesma.

“Flor do Buriti” é uma produção de cunho político, social e didático, com debates necessários em todas as comunidades, que ilustra a ideia do cuidado, do respeito e da tolerância. Vale toda a contemplação e reflexão.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Salamandra/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Salamandra/Cesar Augusto Mota

 Salamandra

O uso da metáfora tem sido bastante comum em obras do audiovisual, tanto em filmes como em séries, e visa ilustrar uma visão lúdica e pessoal do idealizador. E na obra escrita e dirigida por Alex Carvalho, intitulada “Salamandra”, não é diferente. Em busca de libertação, a protagonista vive em um mundo totalmente novo e está disposta a passar por todo tipo de provação, mas conseguirá alcançar o que deseja?

Adaptado de obra homônima de Jean-Christophe Rufin, acompanhamos a jornada de Catherine (Marina Fois), uma francesa que após viver anos de isolamento em decorrência de ter cuidado dos pais doentes, ela decide recomeçar a vida e vai para o Brasil para morar com a irmã, em Recife. Ela acaba se apaixonando pelo jovem Gil (Maicon Rodrigues), e a comunicação entre eles passou a ser sensorial e corporal, tendo em vista que ela é francesa e ele, brasileiro, e ambos não falam o mesmo idioma. A relação passa a ficar complexa e os atos de cada um, alguns impensados, geram sérias consequências.

Como dito anteriormente, Catherine busca se libertar das amarras de uma classe rica à qual pertence e buscar os prazeres carnais, e Gil vê a oportunidade de mudar de vida e ter uma trajetória mais digna, tendo em vista ser de família pobre e preso ao seu empregador. Ambos estão dispostos a todo tipo de sacrifício, e não se preocupam com os desdobramentos que suas escolhas podem acarretar, e o que vemos é uma verdadeira gangorra. Há uma certa demora no desenrolar dos acontecimentos, e o desfecho não condiz com o esperado.

As ações dos personagens se dão com extrema naturalidade, a sexualidade é bem retratada com uma entrega corporal ousada e satisfatória, há uma certa catarse experimentada por Catherine e Gil, e a ambientação se deu pelo foco na captação do som contrastando com o problema de comunicação entre ambos, valorizando a individualidade de cada um. O título Salamandra retrata muito bem a transformação e a superação pelas quais Catherine e Gil passam, além da catarse e anti-catarse que experimentam ao longo da jornada.

Se faltou um pouco de originalidade no desfecho, “Salamandra” é um convite a um debate sobre sexualidade, sensualidade, violência, tendo em vista algumas cenas fortes, bem como a luta de classes. Uma obra convidativa e altamente recomendada.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Estranho/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Estranho/Cesar Augusto Mota

 O estranho

O que você acha de fazer uma grande viagem e visualizar encontros constantes do presente com o passado? “O Estranho”, de Flora Dias e Juruna Mallon, se propõe a realizar esse percurso por meio de memórias e experiências das pessoas que passam por um conhecido aeroporto que foi erguido em meio a um antigo território indígena.

Pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos passam cerca de trinta e cinco mil pessoas, mas o olhar não está sobre quem está passando por ali, mas sobre o que ali permanece. Durante a narrativa, surgem pessoas cujas vidas se cruzam no dia a dia do trabalho neste ambiente, e acompanhamos Alê, funcionária do aeroporto cuja história familiar acabou sobreposta pela construção do local.

Por meio da narração off de Alê e dos objetos que ela apanha das malas de passageiros que não foram devolvidas, o espectador é convidado a fazer muitas interpretações e a refletir acerca do tempo e o antagonismo entre o tradicional e o moderno. O contraste entre a realidade que vivem os funcionários do aeroporto com o das pessoas que viviam no espaço que antecedeu à construção faz despertar o interesse do público pela proposta da personagem central, a de tentativa de resgate de sua ancestralidade, mas que esbarra no período atual, o da modernidade.

 Além de tratar de memórias e espaços, o longa também destaca a preservação da natureza e cultura indígena, e uma reconciliação com o passado histórico, que se dá por meio de uma grande representação visual, com a junção de imagens formando a mata. Se os personagens secundários tem aparição breve, a abordagem não é prejudicada, Alê consegue fazer o resgate de seu passado indígena e seus sentimentos também são compartilhados, com destaque para Silvia, amiga de Alê.

Essa belíssima viagem e as reflexões feitas durante “O Estranho” não só mostram como pode ser épico fazer um resgate de suas origens como também existem formas de interpretar o tempo, que está constantemente passando por nós. E a forma como enxergamos o passado pode ser uma solução para as perguntas que surgem no presente e uma orientação para o futuro.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Tudo o Que Você Podia Ser/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Tudo o Que Você Podia Ser/Cesar Augusto Mota

 Tudo O Que Você Podia Ser

A comunidade LGBTQIAPN+, antes invisível aos olhos da sociedade, vem ganhando espaço e se vê cada vez mais representada, principalmente no audiovisual. Existem muitos desafios e barreiras a serem enfrentados, bem como mitos que busca desconstruir ao longo do tempo. O cineasta Ricardo Alves Jr traz “Tudo o que você podia ser”, um documentário que mescla realidade e ficção e que busca um debate importante junto ao público.

Acompanhamos a despedida de Aisha (Aisha Bruno), que irá se mudar de Belo Horizonte para estudar Ciências Sociais em São Paulo. Ela passa uma última noite nas ruas da capital paulista com os amigos Bramma, Igui e Will e procuram fortalecer a amizade e conexão existente antes que tomem caminhos diferentes.

A narrativa consegue ilustrar todos os desejos, medos e emoções dos personagens, bem como um círculo de amizade reforçado pelo acolhimento e confiança que cada um sente pelo outro, e vemos a história se desenrolar de maneira espontânea e efetiva. Há um olhar de aceitação e não de opressão, e vemos Aisha e seus amigos em uma vibe de liberdade, exercendo o direito de ir e vir e de ser quem são.

Assuntos como homofobia, transfobia, inserção da comunidade LGBTQIAPN+ no mercado de trabalho e HIV são abordados de forma séria e sem rodeios, e um grande mito é desconstruído ao longo da história, de que pessoas trans levariam uma vida regada de sexo, drogas e comportamentos reprováveis, mas ilustra que elas levan um cotidiano igual ao de pessoas cisgêneros.

Um manifesto pela liberdade, amor e pertencimento, assim podemos enxergar “Tudo o Que você Podia Ser”, que amplia discussões sobre a existência e direitos da comunidade LGBTQIAPN+, a importância da amizade e cumplicidade, bem como mostra ser possível a ampliação de novas estruturas familiares.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota