Poltrona Cabine: Crime sem Saída/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Crime sem Saída/ Cesar Augusto Mota

Os thrillers de ação estão cada vez mais populares, com histórias recheadas de cenas de perseguição, grandes histórias, possantes efeitos especiais e elencos compostos por grandes estrelas. E é justamente nesse conjunto que os irmãos Joe e Anthony Russo apostam em ‘Crime sem Saída’ (21 Bridges) com o intuito de proporcionar uma experiência única para os espectadores. Nomes como Chadwick Boseman (Pantera Negra), Sienna Miller (A Lei da Noite), Taylor Kitsch (John Carter: Entre Dois Mundos) e J.K Simmons (Homem-Aranha: Longe de Casa) fazem parte dessa produção dirigida por Brian Kirk (Game of Thrones), que promete fortes emoções.

A narrativa nos apresenta Andre Davis (Boseman), um polêmico detetive de Nova York cuja missão é a de deter dois assassinos policiais que estão à solta na cidade. Porém, ele se envolve em uma arriscada investigação para por fim a uma perigosa e grande conspiração. Caso saia bem-sucedido, ele conseguirá recuperar sua honra, abalada por conta de ações mal -executadas nos últimos anos.

A primeira parte da história possui ritmo um pouco cadenciado, com a apresentação dos personagens e alguns clichês de filmes de ação, com um detetive linha dura e disposto a quebrar tudo para se impor. Sua assistente, Frankie Burns (Miller), possui as mesmas características, além de apresentar seu lado dramático, com as dificuldades que enfrenta no dia a dia por ser mãe solteira. Já os dois bandidos, vividos por Taylor Kitsch e Stephan James (Se a Rua Beale Falasse), se envolvem em um grande massacre, quando matam oito policiais em um grande roubo. Um núcleo que chama a atenção, mas que poderia ser apresentado de uma forma mais dinâmica e ações mais firmes e concisas.

No segundo e terceiro atos há pontos controversos, sobre valores morais e ações concernentes à ética da profissão, que são bem explicitados, e um ponto de virada que dá um upgrade na trama, que começara morna. Os personagens secundários ganham a devida importância e servem como alavanca para o protagonista ir firme em seu objetivo. Referências a filmes de ação famosos são feitos e são devidamente encaixados, como Os Reis da Rua (Street Kings) e Nova York Sitiada (The Siege). A estética também é um atrativo, com aspecto noir, dos populares filmes de máfia, que nos faz lembrar os clássicos das décadas de 50 e 60. Discussões sobre política e corrupção também enriquecem o enredo e deixam o filme ainda mais instigante, o que possibilita várias camadas serem exploradas.

Chadwick Boseman mostra que ele não vive só de Pantera Negra, o ator mostra que tem talento para ação, drama e espionagem, e sua escolha para ser protagonista dessa obra foi uma aposta certeira. Sthepan James é outra surpresa, com um vilão imponente e multifacetado, que foge dos padrões de antagonistas que estamos acostumados a ver. E J.K Simmons dispensa comentários, não é à toa que é um dos atores mais respeitados da atualidade.

Emocionante, de impacto e com muitos obstáculos a serem observados e vencidos pelo protagonista, ‘Crime Sem Saída’ é um exemplo de que é possível fazer um filme de ação com a máfia de pano de fundo de uma forma diferente, rompendo padrões e oferecendo novidades aos fãs do gênero. Uma obra para ser apreciada e ficar nas rodas de debates por um bom tempo.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Uma Mulher Alta/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Uma Mulher Alta/ Cesar Augusto Mota

A Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvida, um dos acontecimentos mais impactantes e dolorosos na história da humanidade, que vitimou milhões e deixou muitas cicatrizes. Mas até quando essas sequelas podem permanecer vivas nas almas daqueles que vivenciaram a tragédia? Encontrar um novo significado para a vida pode ser difícil, mas é uma alternativa e esse caminho é tomado pelas protagonistas da produção russa ‘Uma Mulher Alta’, representante do país na corrida pela indicação ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.

Com direção de Kantemir Balagov e inspirado no livro ‘A Guerra Não tem Rosto de Mulher’ (1983), a história se passa em Leningrado (atual São Petersburgo) e narra a trajetória de duas jovens que retornam da guerra para casa após cumprirem suas missões na Força Aérea Soviética. Com suas vidas devastadas, Iya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina) tentam encontrar tranquilidade e compreensão em um mundo tão sombrio, complexo e solitário por meio da relação de intimidade que elas possuem de longas datas, e fazem novas descobertas na medida em que ficam ainda mais próximas.

Inicialmente, o espectador, graças ao belo trabalho de edição e desenho de som, já começa a sentir a agonia, as tensões e os infortúnios de Yia ao ouvir seus soluços e respiração acelerada, consequências da guerra. Em meio a um hospital que abriga os veteranos de guerra, ela tenta confortá-los, alguns aliviados após o fim de intensas batalhas que quase os vitimaram, outros dispostos a por um fim em suas vidas, com a morte sendo encarada como uma solução menos dolorosa.

Na medida do possível, Yia vai aos poucos transformando o cotidiano dessas pessoas, alguns para melhor, mas ela também precisa controlar seus ímpetos e cuidar de seu estado psicológico ainda afetado, e comete um ato terrível enquanto cuida do filho de Masha, que não está em casa. Yia, de alta estatura, é muito tímida, já Masha é mais aberta e procura (re)encontrar a felicidade por meio de prazeres sexuais. Com seus arcos bem construídos, vemos um perfeito e importante contraste entre as protagonistas e aos poucos um denominador é estabelecido entre elas ao longo de um caminho tortuoso e difícil que é evidenciado ao longo de 137 minutos de projeção.

Além do uso preciso do som, o universo perturbador é sentido pela fotografia em tons cinza e a representação dos ambientes sucateados após as fortes explosões, e o passeio da câmera em dados momentos na primeira pessoa. A cor verde, vista em alguns ambientes e quadros, também se faz presente, e a interação ao ar livre, em contato direto com  a natureza, que ocorre com Yia e Masha, são uma constante, a sensação de liberdade e o sentimento de alívio não só são retratados com perfeição, mas como uma necessidade após um cenário avassalador e um enorme caos que tomou conta da Rússia.

Questões como empatia e sexualidade também são explorados, e cada tema ganha sua importância graças à profundidade tão bem construída das personagens. Cada uma enfrenta um dilema, Masha sonha em ter filhos, mas sofre de infertilidade, Yia é apaixonada por Masha, mas não consegue avançar e declarar seu amor. Há fortes barreiras entre elas, as condutas reprováveis de ambas, constatadas ao longo da história, não passam pelo julgamento de quem acompanha a trama, a questão primordial é se ambas vão encontrar a paz interior que tanto procuram e se irão continuar a alimentar a esperança de um mundo melhor para todos, em meio a tantas atrocidades e pessoas cruéis. O trabalho das atrizes é admirável e faz o público se sentir ainda mais leve quando acompanha a história, sensação já sentida pelo ritmo lento, mas necessário, que a narrativa imprime.

Visceral, intenso e perturbador, ‘Uma Mulher Alta’ reserva fortes emoções e importantes debates acerca da liberdade de expressão, de ir e vir e a sensação de pertencimento em um cenário pós-guerra e que ainda apresenta pessoas com a expectativa que todos os males possam ser revertidos. Uma obra de arte do cinema russo e que carrega todos os méritos, desde o elenco até o trabalho sério e certeiro de seu diretor, que soube explorar os pontos fortes e fracos no tocante ao comportamento humano.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Uma Segunda Chance para Amar/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Uma Segunda Chance para Amar/ Cesar Augusto Mota

O período de festas, principalmente o Natal, é o momento para passar junto com a família, agradecer, perdoar e refletir sobre nosso comportamento para com os outros. O Natal costuma despertar o melhor de cada um, elevando seu espírito, mas não é o que acontece de início com a personagem principal de ‘Uma Segunda Chance para Amar’ (Last Christmas), de Paul Feig (Um Pequeno Favor). Estrela de sucessos como ‘Game of Thrones’ e ‘Como Eu Era Antes de Você’ (Me Before You), Emilia Clarke tem a missão de conduzir uma comédia romântica com potencial para aquecer corações em tempos de festividades. Terá êxito?

Inspirada na canção ‘Last Christmas’, de George Michael, a trama nos mostra Kate (Clarke), uma jovem inglesa cuja vida é cheia de adversidades, passando por um momento complicado na vida e completamente desmotivada. Ela trabalha como elfo em uma loja temática de Natal em Londres, e quando conhece Tom Webster (Henry Golding), passa a enxergar a vida sob outro prisma e aos poucos as barreiras que ergueu vão caindo. Kate começa a mudar seu jeito de ser, antes um pouco contido, e consegue cativar mais as pessoas e transformar a relação distante que tinha com sua família, antes distante para algo mais acessível.

O roteiro, assinado por Emma Thompson (Johnny English 3.0), que também atua no filme como Petra, a mãe de Kate, prima não só por focar no romance entre a protagonista e Tom, ele se preocupa em abordar temas como empatia, recomeço, bem-estar e viver intensamente a vida. Num misto perfeito dessas temáticas, organizadas de forma concisa e num ritmo que permita ao espectador acompanhar e sentir o que os personagens experimentam durante a história, o longa oferece momentos leves, divertidos e hilários, principalmente com Kate, uma jovem de bom coração, mas que tem sérios problemas psicológicos e um tanto atrapalhada, tropeçando e caindo em várias ocasiões.

A transformação da personagem central é nítida, não só ela, mas todos ao seu redor mudam quando Kate entende que a vida precisa ser aproveitada de forma ativa e que ajudar o mais próximo torna o mundo e nós mesmos melhores. Se Santa (Michelle Yeoh) tratava Kate apenas como sua funcionária de sua loja, passa a vê-la como grande aliada e recebe ajuda para se aproximar de seu crush, o alemão conhecido como ‘The Boy’ (Peter Mygind), que sempre visitava a loja e fazia questão de somente ser atendido pela proprietária. Os pais, Petra (Thompson) e Ivan (Boris Isakovic), antes distantes, começam a se entender e deixar as diferenças de lado, muito por conta do jeito sarcástico e excêntrico de Petra. E não poderia esquecer da irmã mais velha Marta (Lydia Leonard), cujo convívio com toda a família praticamente não existia e graças à Kate ela volta ao convívio de todos.

Clarke não só carrega o filme nas costas como também mostra sua personagem em momentos inesquecíveis ao lado de Henry Golding. Kate passa a incorporar práticas que antes nem imaginava, como ajudar sem-tetos em um abrigo e mergulha de cabeça no seu sonho, de se tornar uma grande cantora, e nos brinda com belas interpretações das canções de George Michael, que inspirou a produção dessa obra. Somos surpreendidos com uma importante revelação sobre a vida de Kate e a história dá uma importante reviravolta acerca da vida de Tom, que pouco conhecemos, sabemos apenas que é um asiático simpático, que trabalha com entregas e bastante espirituoso, capaz de transformar todos ao seu redor e extrair o melhor de cada um, mesmo que a pessoa não esteja em um bom dia. E o elenco secundário contribui também para o sucesso do filme, com momentos épicos e únicos de Emma Thompson, que se mostra uma mãe desajustada e ao mesmo tempo forte, confidente, uma força-motriz que Kate precisava para alcançar a superação que tanto precisava.

Um filme lindo, envolvente e inspirador, ‘Uma Segunda Chance para Amar’ ilustra que o amor consegue transpor quaisquer barreiras existentes, além de mostrar que se quisermos mudanças, mais empatia e cumplicidade, podemos começar por nós mesmos, dando exemplo que é possível conviver com diferenças, enfrentar adversidades e que jamais estaremos sozinhos. Uma obra para ser vista com toda a família e passar o Natal com os corações mais aquecidos.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Grande Mentira/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Grande Mentira/ Cesar Augusto Mota

A vida é composta por aprendizados, momentos únicos e também por armadilhas, e é necessário muito jogo de cintura e esperteza para não pisar em falso. Essa última premissa está contida em ‘A Grande Mentira’ (The Good Liar), novo filme de Bill Condon (A Bela e a Fera) que traz duas grandes estrelas em seu elenco, dentre elas Ian McKellen (Sr. Sherlock Holmes) e Helen Mirren (Anna-O Perigo tem Nome). Um verdadeiro jogo de gato e rato e um suspense envolvente para fisgar o público e deixá-lo ainda mais ansioso para o que está por vir.

Inspirado no best seller homônimo de Nicholas Searle, a narrativa nos mostra o golpista Roy Courtnay (McKellen), que tira a sorte grande e conhece por meio de um site de relacionamentos Betty McLeish (Mirren), uma viúva rica e de puros sentimentos. Após Betty abrir sua casa e sua vida a ele, Roy se surpreende e começa a ter uma grande afeição e passa a se importar de verdade com ela, mesmo que não de seu plano e de seu real objetivo, o de roubar toda a sua fortuna.

O primeiro atrativo do filme está na apresentação dos personagens. Roy, um vigarista ganancioso, e Betty, uma mulher solitária e de alma nobre. Ao notar toda a bondade e aparente ingenuidade da vítima, o golpista vai com tudo para cima dela e apresenta ao espectador um plano impressionante e que parece infalível. Já a viúva conta de vez em quando com a visita do neto Stephen (Russel Tovey), um grande pesquisador e especialista em História e que pode ser uma grande pedra no sapato de Roy. O primeiro ato é um convite a um grande suspense e espionagem, mostrando ao público como o ser humano é capaz de se encaixar nas mais diversas situações e o quanto sua mente pode ser manipulada, além do comportamento, que pode dizer muito sobre a pessoa.

Na medida em que o tempo passa e Roy vai percorrendo as etapas de seu próximo golpe, notamos o charme e elegância que o protagonista imprime para chamar a atenção, seduzir sua vítima e fazê-la cair em sua rede. As palavras proferidas, compostas por algumas expressões de efeito, além da combinação da roupa com o ambiente e as conversas articuladas com Vincent (Jim Carter), o cúmplice, são impressionantes, e em dados momentos nos faz acreditar em tudo aquilo que está diante dos nossos olhos. Já Betty também é uma surpresa, ela visivelmente se mostra atraída por Roy, ao mesmo tempo que demonstra ser muito observadora e não é tão boba quanto se pensa.

A montagem e edição também são pontos favoráveis, o tempo presente é perfeitamente aliado ao passado, que traz o período triste da Segunda Guerra e o ambiente da Alemanha nazista. Os acontecimentos pretéritos ajudam a solucionar o enigma e também a conhecer a verdadeira face de Roy Courtnay e se existe uma possível conexão de sua vida com a de Betty McLeish. O plot twist é o maior atrativo da história, que nos faz lembrar da abordagem de Alfred Hitchcock, com um thriller impactante e uma intensa investigação.

Se o enredo e os aspectos técnicos se destacam, o trabalho feito com os dois protagonistas se sobressai, com ambos conduzindo a história com qualidade, equilíbrio e muita intensidade do início ao fim. O espectador até compreende os comportamentos de ambos os personagens, mas sabe que são reprováveis na vida real. A sagacidade de Ian McKellen e a sutileza de Helen Mirren são excelentes ingredientes para uma história que requer não só atenção, mas também parcimônia para acompanhar e encaixar todas as peças de um quebra-cabeça complexo e cheio de caminhos a percorrer. Um enredo agradável de se acompanhar, com muitas surpresas e um desfecho para deixar qualquer um boquiaberto.

Um longa que apresenta um importante estudo sobre a natureza humana, ‘A Grande Mentira’ oferece um grande entretenimento, além de uma história atraente e regada por muito mistério e mensagens importantes. Por mais que erremos ou acertemos em nossas vidas, o preço pelas escolhas feitas é alto e o passado mais cedo ou mais tarde vai ao seu encontro, onde quer que você esteja.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Um Dia de Chuva em Nova York/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Um Dia de Chuva em Nova York/ Cesar Augusto Mota

Consagrado por trazer ao público histórias que se passam em cenários inspiradores, personagens cativantes e histórias com muitos dilemas, críticas sociais e grandes reviravoltas, o cineasta Woody Allen (Roda Gigante) está de volta. Envolvido em diversas polêmicas nos últimos anos e após enfrentar problemas para distribuir seu mais novo filme, o diretor volta com a corda toda com ‘Um Dia de Chuva em Nova York’ (A Rainy Day in New York), uma produção que traz atores jovens em seus papéis principais. Será a volta por cima após um filme mediano ou irá oferecer mais do mesmo?

No centro da narrativa está o casal Gatsby Wells (Timotheé Chalamet) e Ashleigh Enright (Elle Fanning). Ele é um jovem bon vivant e que consegue faturar uma graninha nas partidas de pôker, já ela é uma estudante de jornalismo do Arizona e que vai passar um fim de semana com o namorado em Nova York, mas acaba por ter a chance de entrevistar um grande diretor cult, Roland Pollard (Liv Schreiber). Os planos dos dois tomam rumos diferentes e seus caminhos são traçados durante um dia chuvoso na Big Apple, ocasião na qual eles vão refletir acerca de suas escolhas, do futuro e passarão a vislumbrar o amor sob novos olhares.

Assim como ocorre em ‘Meia Noite em Paris’ (Midnight in Paris), o personagem-central se vê em meio a um quadro caótico, que beira à neurose e seus dilemas se entrelaçam a assuntos como infidelidade, fama e, principalmente, cinema. Gatsby, enquanto circula pelas ruas de Manhatan, acaba por encontrar Shannon (Selena Gomez), irmã de uma ex-namorada, e em suas conversas com ela passa a pensar melhor sobre quais caminhos deve seguir em relação à carreira e o futuro de sua relação com Ashleigh. Já esta acaba por conhecer três homens diretamente ligados à sétima arte, como o cineasta Roland Pollar (Schreiber), o roteirista Ted Davidoff  (Jude Law) e o galã Francisco Vega (Diego Luna), e num piscar de olhos acaba fisgada pelo mundo do cinema, o que afeta totalmente sua vida e tudo ao seu redor.

É inquestionável a capacidade de Allen em transformar uma cidade em personagem e mais uma vez ele consegue em sua produção. Nova York é o palco responsável por realizar grandes transformações nos personagens, dando a eles mais vida ao transitarem pelos cartões-postais da cidade, além de despertar amor e intensidade nos corações dos protagonistas. A fotografia, assinada por Vittorio Storaro, é um elemento que contribui para a beleza estética e a magia vivenciada pelos intérpretes, que ocorre com um belo contraste da chuva com os raios de sol em sequências oníricas. Os protagonistas lidam com o acaso e as escolhas que fazem são decisivas para seus destinos e para a sequência do filme.

Se o sonho e o cinema, elementos muito presentes nas obras de Allen e revisitados nessa produção, se sobressaem, o roteiro tem um desenvolvimento com sensação de déjà vu, sem trazer alguma novidade. Os personagens veteranos, vividos por Jude Law (Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald), Diego Luna (Se a Rua Beale Falasse) e Liv Schreiber (Amante a Domicílio) dão suporte ao núcleo jovem, mas não são devidamente aprofundados, dando a sensação de que algumas lacunas poderiam ter sido preenchidas. Quanto aos jovens, Timotheé Chalamet (Me Chame pelo Seu Nome) transmite com segurança todas as angústias e conflitos internos de seu personagem e consegue achar sua catarse ao longo que descobre Nova York e as pessoas que passam por essa lúdica cidade. Elle Fanning (Malévola: Dona do Mal), ao viajar pela magia do cinema e se deixar seduzir por essa atmosfera hipnotizante, ilustra uma personagem um tanto vulnerável, mas cheia de sonhos, que tenta aproveitar da melhor forma possível cada momento. Por fim, Selena Gomez (Vizinhos 2) vive uma personagem diferente das que já interpretou, uma garota despojada, irônica, sarcástica e disposta a se jogar de cabeça e enfrentar todas as armadilhas da vida. Gomez consegue se destacar e demonstra um de seus melhores trabalhos na carreira, tendo ainda muito a oferecer.

‘Um Dia de Chuva em Nova York’ representa um retorno às origens de Woody Allen, com uma Nova York bela, apaixonante e capaz de influenciar psicologicamente os personagens. As tramas se misturam e acabam por encontrar um denominador comum na medida em que o espectador junta as peças dos quebra-cabeças. Se não surpreende pela falta de originalidade, Allen ainda nos brinda com histórias sólidas, divertidas e envolventes.

Cotação: 3,5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota