Poltrona Cabine: Tinha que ser Ele?/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Tinha que ser Ele?/ Cesar Augusto Mota

Uma comédia pastelão, recheada de piadas prontas, diálogos com muitos palavrões e roteiro previsível. Assim é “Tinha que ser Ele?”, filme dirigido por John Hamburg e produzido por Ben Stiller, que chega ao circuito nacional nesta quinta-feira (16) com sensação de déjà-vu.

Déjà-vu? Quem leu a sinopse verá que se trata da história de Ned Flaming (Bryan Craston), que vai para a Califórnia passar o Natal com a família e vai visitar a filha Sthepanie (Zoey Deutch). Ao chegar lá, conhece Laird Mayhew (James Franco), um programador de aplicativos e jogos para vídeo games bem sucedido e que vive numa casa digitalizada, com artigos exóticos e, por incrível que pareça, sem papel. A impressão de Ned é a pior possível, e o pai superprotetor e rabugento de Sthepanie fará de tudo para que Laird não se case com a filha.

Esse roteiro me faz lembrar do filme “Entrando numa Fria”, com o pai ranzinza protagonizado por Robert de Niro. Se vemos coincidência no enredo, há também na direção e no roteiro, que está também a cargo de John Hamburg. Já dá para perceber o que devemos esperar dessa nova produção, não é mesmo?

Com roteiro previsível e piadas manjadas, nos deparamos também com um verdadeiro embate, uma briga de cão e gato entre Ned e Laird, com direito a golpes marciais e parkours praticados por Laird, tornando algumas cenas mais interessantes. Além disso, vemos um contraponto entre passado e futuro. Ned possui uma gráfica e que está prestes a falir, já Laird tem visão de futuro e possui uma grande empresa desenvolvedora de aplicativos. Temos a ideia implícita de um futuro que é iminente (Laird) e de um passado prestes a ser deixado de lado (Ned).

Falei em confronto entre namorado e futuro sogro, mas ambos os personagens, Ned e Laird, são seres humanos puros e de bom coração, mas com personalidades díspares. Enquanto Ned é conservador e protege demais a filha Sthepanie, Laird tenta agradar de todos os modos, mas não consegue em boa parte das vezes por ser muito atirado, desbocado e sem limites. E Sthepanie, que está no centro dessas rusgas, será o fiel da balança para o desfecho da trama, com atitudes decisivas e que vão mexer no núcleo da história.

Se o enredo parece batido, as atuações do elenco são o ponto alto, com excelentes intervenções de Bryan Cranston e James Franco, além de Megan Mulally, que dá vida à Barbara Flaming, mãe de Sthepanie, facilmente envolvida por Laird e protagonista de cenas hilárias ao lado do marido. Atores de primeira e que proporcionam momentos divertidos.

Se você é fã de filmes com humor escatológico, ritmo lento e desfecho de simples resolução, você está no filme certo. E aguente mas um pouco, há cenas pós-créditos que farão você ficar de queixo caído, não vá perder!

 

Poltrona Cabine: Kong-A Ilha da Caveira

Poltrona Cabine: Kong-A Ilha da Caveira

Já tivemos três versões diferentes de King Kong nos cinemas. O filme clássico de 1933 e refilmagens de 1978 e 2005, além do épico “King Kong vs Godzilla”. Agora em 2017 somos brindados com “Kong: A Ilha da Caveira”, com uma história recheada de cenas de ação e uma aventura eletrizante. Será que podemos esperar um bom resultado, já que está sendo resgatado um ícone do cinema que marcou gerações?

O longa dirigido por Jordan Vogt-Roberts (Reis do Verão) se passa no ano de 1973, época em que os Estados Unidos se preparam para retirar suas tropas da Guerra do Vietnã. A trama traz o cientista Bill Randa (John Goodman) e o geólogo Houston Brooks (Corey Hawkins), ambos dispostos a partir em expedição para uma ilha na Costa do Pacífico. O primeiro acredita que o local é habitado por criaturas jamais vistas por toda a humanidade e considera a missão primordial para seus estudos. Embarcam nessa aventura o capitão James Conrad (Tom Hiddleston), o sargento Preston Packard (Samuel L. Jackson), a fotógrafa Mason Weaver (Brie Larson) e mais oito tripulantes.

Já nas primeiras cenas, com a chegada dos helicópteros à Ilha da Caveira, temos uma pequena noção do que nos espera, com um King Kong ainda mais forte, feroz  e ágil, disposto a defender seu território e afugentar possíveis invadores. Se parece ser clichê, vemos uma nova versão do famoso gorila em perfeito CGI, uma excelente fotografia em tom amarelado de dia, um ótimo jogo de luzes nas cenas noturnas e movimentos em câmera lenta que envolvem o público. Mas se engana que é somente Kong o grande perigo da ilha, há algumas criaturas gigantes que serão mortais para que fizer qualquer movimento brusco.

Se temos a questão da nostalgia do personagem, uma bela fotografia e uma direção bem feita por parte de Jordan Vogt-Roberts, o roteiro não oferece muitas novidades e não permite uma aprofundidade maior para os personagens centrais, mas isso não afeta o bom desempenho dos protagonistas, principalmente de Tom Hiddleston e Samuel L. Jackson.

Se o primeiro tem um lado mais humano, o segundo está mais inclinado para a vingança, disposto a liquidar Kong tido como um rei da Ilha da Caveira. Brie Larson, a vencedora do Oscar de melhor atriz de 2015, tem uma atuação sólida e convincente, certamente é uma peça importante na empolgante tanto na luta contra as criaturas mais bizarras e nunca antes vistas, e também na busca pela sobrevivência e fuga da ilha.

Outro destaque positivo vai para o trabalho na edição e mixagem de som, são perfeitamente sincronizados com a pirotecnia e as muitas cenas de pancadaria, além da passagem dos soldados que tentam localizar criaturas por meio de sons de uma máquina fotográfica presa ao corpo, nota 10.

Ficou curioso para assistir a “Kong: A Ilha da Caveira”? O filme chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 9 de março. Apesar do roteiro simples, vale a pena conferir, a produção oferece muita adrenalina, cenas fortes e cheias de ação. E não saia correndo após a sessão, há cena pós-crédito. Pode ser que outras surpresas e novas produções surjam adiante, aguardemos.

Por: Cesar Augusto Mota

 

Maratona Oscar: Jackie/ Pablo Bazarello

Maratona Oscar: Jackie/ Pablo Bazarello

2420_capaQuando teve sua estreia no prestigiado Festival de Veneza, no início de setembro passado, Jackie, o novo filme do chileno Pablo Larraín, arrancou elogios da imprensa especializada. Os jornalistas enalteciam o longa e, em especial, a atuação de Natalie Portman como a personagem título, chegando ao êxtase cinematográfico de garantir uma indicação na categoria de melhor atriz para ela. De fato, a nomeação (e possível vitória) era cantada desde o lançamento do filme ao longo dessa jornada pré-Oscar. Dito e feito, Portman se posiciona novamente na história da Academia e está entre as três possíveis ganhadoras no próximo domingo, elencada com Emma Stone (La La Land) e Isabelle Huppert (Elle).

Com Jackie, Natalie Portman conquista sua terceira indicação ao maior prêmio da sétima arte após Closer (2004) e a vitória por Cisne Negro (2010) – o que pode prejudicar sua vitória – já que tem uma estatueta recente. O roteiro escrito por Noah Oppenheim narra os eventos pós-assassinato do presidente norte-americano John F. Kennedy, em 1963. Funcionando em algumas linhas narrativas diferentes e simultâneas, o filme de Larraín aborda uma entrevista de Jackie com um jornalista interpretado pelo ótimo Billy Crudup (creditado apenas como “o jornalista”), na qual a figura intocável e imaculada da Primeira Dama, pode finalmente se mostrar como ser humano pensante e cheia de fúria.

Além deste contexto, somos levados aos minutos que sucederam o fatídico dia, com a Primeira Dama ainda em estado de choque, e mais atrás ao passado, quando em um vídeo para uma matéria, revela-se bela, recatada e do lar, apresentando as mudanças que fez em sua nova moradia, a Casa Branca. Como disse um amigo, Jackie é o filme que dá voz a uma figura que nunca a teve. O objetivo realmente é explorar os bastidores desta figura tão querida para os EUA, e humanizá-la.

Outro fato curioso no longa, é que Larraín opta por incluir sua protagonista em todas as cenas do filme. Não existe um segmento em Jackie no qual Portman não esteja presente. Isso faz com que sua atuação seja ainda mais importante para a obra, se comportando como a espinha dorsal desta representação quase documental, tamanha é a inspiração. É como se o espírito de Jacqueline Kennedy Onassis realmente tivesse pairado sobre a atriz e acompanhado as gravações.

Somado a isso, temos coadjuvantes de luxo, encorpando bastante o produto final, como as participações de Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy, o cunhado de Jackie, Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, John Carroll Lynch como o sucessor de Kennedy na presidência Lyndon Johnson, Max Casella como Jack Valenti e a despedida do saudoso John Hurt, falecido no dia 25 de janeiro, em seu último trabalho lançado ainda em vida (o ator ainda possui quatro trabalhos a serem lançados, de forma póstuma), na pele de um padre. Neste momento, Jackie ganha, através da interação com o personagem de Hurt, significados existencialistas e religiosos mais profundos, onde sentimos a presença do grande texto de Oppenheim.

Junto com Jackie, o cineasta chileno lançou outra biografia, esta mais artística e com maiores liberdades narrativas: a do conterrâneo poeta Pablo Neruda, no filme Neruda. O longa esteve indicado ao Globo de Ouro, mas infelizmente não teve força de chegar até o Oscar, embora Larraín não seja estranho a indicações da Academia. Com Jackie, o diretor igualmente se apoia em grandes profissionais para entregar um exímio produto cinematográfico, chamando atenção a fotografia de Stéphane Fontaine (que este ano fotografou outros dois indicados: Capitão Fantástico e Elle) e a trilha insana e hipnotizante de Mica Levi (Sob a Pele). Jackie é emocionante, contundente, desesperador e humano. Um grande filme que, com 3 indicações ao Oscar 2017 (melhor atriz, figurino e trilha sonora), podemos argumentar ser merecedor de mais nomeações.

Maratona Oscar: Loving

Maratona Oscar: Loving

19c7ce_1a6db303bd46462e87a59d185b376b50Um retrato perfeito sobre luta pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960 nos Estados Unidos, bem como a abordagem delicada da história de uma família americana que busca a felicidade, apesar das adversidades. Assim é “Loving”, longa dirigido por Jeff Nichols e que possibilitou a indicação de Ruth Negga ao Oscar 2017 na categoria de melhor atriz.

A história se passa precisamente no ano de 1958, época de muitas injustiças e desigualdades sociais na terra do Tio Sam. O casal Richard Loving (Joel Edgerton) e Mildred Jeter (Negga) mora no estado da Virginia e sonha em se casar e criar os filhos no campo. Eles se deslocam para Washington para oficializar a união, mas enfrentam um problema: as leis estaduais não permitem casamentos entre brancos e negros. Quando a polícia descobre, ambos são presos, julgados e expulsos da região.

Anos depois, começa uma batalha jurídica que chega até a Suprema Corte, graças ao apoio da American Civil Liberties Union (ACLU). Vemos nesta obra questões jurídicas e também humanas. Não só a luta pelo direito à propriedade, de contrair matrimônio e de poder ir e vir, mas também de ser feliz onde quiser, com quem quiser e da forma que desejar. Tudo isso não deveria ser complicado, mas é colocado à prova durante a narrativa.

As atuações dos protagonistas impulsionam a trama e conquistam o público, e a diferença de comportamento de cada um reforçam as ideias da passividade, bem como da solidariedade. Richard sempre reforçou ser um absurdo não poder viver com dignidade e ao lado da esposa na Virginia, mas se demonstrou apático, de mãos atadas e quase sem nenhum poder de reação. Já Mildred era mais forte, determinada e quem ditava as regras, a força motriz da família. Graças à sua coragem e confiança, um caso que parecia ser impossível entrou para a história e alterou os rumos das relações em sociedade nos Estados Unidos.

É inegável que Joel Edgerton faz um ótimo trabalho como Richard, mas é Ruth Negga quem rouba a cena, por tudo isso dito anteriormente, além de ter desempenhado tão bem um papel com alto grau de complexidade. Boa parte da trama foi centrada em sua personagem, sempre disposta a colocar a cara a tapa e sem se importar com as consequências. Sem dúvida valeu a indicação de Ruth para melhor atriz no Oscar, com uma interpretação justa e sólida.

Vale também destacar o trabalho do diretor Jeff Nichols, que fez uma abordagem contundente de uma história real e diretamente relacionada com o cotidiano de milhões de americanos nos anos 1950 e 1960, além de fazer uma ótima referência, a carta enviada por Mildred ao Procurador-Geral Robert Kennedy, que posteriormente repassou para a ACLU. Um trabalho magistral e digno de todos os aplausos.

Quem é fã de filmes históricos e com ótimas ilustrações de época sem dúvida vai curtir “Loving”, obra que retratou um caso verídico e que mudou para sempre os rumos de uma nação. Vale o convite.

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Capitão Fantástico/ Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Capitão Fantástico/ Cesar Augusto Mota

65wmfnUm filme sensível, de autoajuda e que fará você pensar e repensar seu estilo de vida. Assim é “Capitão Fantástico”, um longa dirigido por Matt Ross e que traz Viggo Mortensen no papel principal. Sua atuação lhe rendeu indicação para o Oscar 2017 na categoria de melhor ator.

A história mostra Ben (Mortensen), que cria seus seis filhos em meio a uma floresta, ensinando-os técnicas de sobrevivência, música, literatura, direitos civis e princípios sociais segundo Noam Chomsky, filósofo americano. Para a família, não existe o dia de Natal, mas o de Noam Chomsky em 25 de dezembro.

Uma grande tragédia envolvendo Leslie (Trin Miller) faz a família deixar seu habitat por um tempo e uma enorme reviravolta em suas vidas, pois terão que se adaptar à vida na cidade. Pode até parecer fácil, mas se vê resistência por parte das crianças e a defesa dos ideais que aprenderam junto com o pai. Tudo isso gera uma afronta à sociedade, principalmente com Jack (Fank Langella), que vê Ben como uma ameaça aos netos e chega a fazer sérias ameaças, uma delas como requerer a guarda deles.

Nos deparamos com cenas bem serenas no início, aprendizado e diversão das crianças em outras, mas da segunda metade em diante existem fatos intrigantes, alguns expõem os garotos ao ridículo. Esses acontecimentos são suficientes para criticar as mazelas constantes que vivenciamos em sociedade e nos mostrar que se existe esperança e sentimento de liberdade, é possível mudar as coisas, e tudo deve ser feito com racionalidade e equilíbrio.

O trabalho de direção de arte, composto por cenas feitas com câmera na mão, simulando o olhar de cada personagem, além de ótima fotografia e trilha sonora com direito a um nostálgico “Sweet Child O’ Mine”, dos Guns N’ Roses são espetaculares, além da atuação dos atores, com sintonia, simplicidade e cumplicidade, mas, sem dúvida, Viggo Mortensen é o ponto alto do filme. Com brilhante atuação, o ator consegue atingir equilíbrio nas situações mais dramáticas, principalmente quando tem suas metodologias contestadas, e mostra um personagem firme em suas doutrinas e sem demonstrar espírito de uma pessoa revoltada, mas adepto de ideais libertários.

Se nesta trama não existe lugar para o ódio há para o amor, capaz de superar todos os conflitos e unir os personagens, como vemos em “Capitão Fantástico”. Vale a pena acompanhar essa fantástica história e acompanhar a atuação magistral de Viggo Mortensen, merecidamente indicado ao maior prêmio de Hollywood.