A Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvida, um dos acontecimentos mais impactantes e dolorosos na história da humanidade, que vitimou milhões e deixou muitas cicatrizes. Mas até quando essas sequelas podem permanecer vivas nas almas daqueles que vivenciaram a tragédia? Encontrar um novo significado para a vida pode ser difícil, mas é uma alternativa e esse caminho é tomado pelas protagonistas da produção russa ‘Uma Mulher Alta’, representante do país na corrida pela indicação ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.
Com direção de Kantemir Balagov e inspirado no livro ‘A Guerra Não tem Rosto de Mulher’ (1983), a história se passa em Leningrado (atual São Petersburgo) e narra a trajetória de duas jovens que retornam da guerra para casa após cumprirem suas missões na Força Aérea Soviética. Com suas vidas devastadas, Iya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina) tentam encontrar tranquilidade e compreensão em um mundo tão sombrio, complexo e solitário por meio da relação de intimidade que elas possuem de longas datas, e fazem novas descobertas na medida em que ficam ainda mais próximas.
Inicialmente, o espectador, graças ao belo trabalho de edição e desenho de som, já começa a sentir a agonia, as tensões e os infortúnios de Yia ao ouvir seus soluços e respiração acelerada, consequências da guerra. Em meio a um hospital que abriga os veteranos de guerra, ela tenta confortá-los, alguns aliviados após o fim de intensas batalhas que quase os vitimaram, outros dispostos a por um fim em suas vidas, com a morte sendo encarada como uma solução menos dolorosa.
Na medida do possível, Yia vai aos poucos transformando o cotidiano dessas pessoas, alguns para melhor, mas ela também precisa controlar seus ímpetos e cuidar de seu estado psicológico ainda afetado, e comete um ato terrível enquanto cuida do filho de Masha, que não está em casa. Yia, de alta estatura, é muito tímida, já Masha é mais aberta e procura (re)encontrar a felicidade por meio de prazeres sexuais. Com seus arcos bem construídos, vemos um perfeito e importante contraste entre as protagonistas e aos poucos um denominador é estabelecido entre elas ao longo de um caminho tortuoso e difícil que é evidenciado ao longo de 137 minutos de projeção.
Além do uso preciso do som, o universo perturbador é sentido pela fotografia em tons cinza e a representação dos ambientes sucateados após as fortes explosões, e o passeio da câmera em dados momentos na primeira pessoa. A cor verde, vista em alguns ambientes e quadros, também se faz presente, e a interação ao ar livre, em contato direto com a natureza, que ocorre com Yia e Masha, são uma constante, a sensação de liberdade e o sentimento de alívio não só são retratados com perfeição, mas como uma necessidade após um cenário avassalador e um enorme caos que tomou conta da Rússia.
Questões como empatia e sexualidade também são explorados, e cada tema ganha sua importância graças à profundidade tão bem construída das personagens. Cada uma enfrenta um dilema, Masha sonha em ter filhos, mas sofre de infertilidade, Yia é apaixonada por Masha, mas não consegue avançar e declarar seu amor. Há fortes barreiras entre elas, as condutas reprováveis de ambas, constatadas ao longo da história, não passam pelo julgamento de quem acompanha a trama, a questão primordial é se ambas vão encontrar a paz interior que tanto procuram e se irão continuar a alimentar a esperança de um mundo melhor para todos, em meio a tantas atrocidades e pessoas cruéis. O trabalho das atrizes é admirável e faz o público se sentir ainda mais leve quando acompanha a história, sensação já sentida pelo ritmo lento, mas necessário, que a narrativa imprime.
Visceral, intenso e perturbador, ‘Uma Mulher Alta’ reserva fortes emoções e importantes debates acerca da liberdade de expressão, de ir e vir e a sensação de pertencimento em um cenário pós-guerra e que ainda apresenta pessoas com a expectativa que todos os males possam ser revertidos. Uma obra de arte do cinema russo e que carrega todos os méritos, desde o elenco até o trabalho sério e certeiro de seu diretor, que soube explorar os pontos fortes e fracos no tocante ao comportamento humano.
Cotação: 4/5 poltronas.
Por: Cesar Augusto Mota
