Poltrona Cabine: Tinta Bruta/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Tinta Bruta/ Cesar Augusto Mota

Que tal um filme que revele intensidade nos movimentos e sentimentos do protagonista, apresente também a cidade onde a narrativa se desenvolve como personagem e cenas com belas representações estéticas? Premiado com o prêmio Teddy de Ficção no Festival de Berlim e Melhor Filme do Festival do Rio 2018, ‘Tinta Bruta’, dirigido pelos diretores gaúchos Márcio Reolon e Filipe Matzembacher (Beira-Mar) mostram que a narrativa a ser contada não só tem sequências belas, como possuem muito a dizer.

Pedro (Shico Menegat) é um jovem com um passado obscuro, envolvido em uma briga na faculdade, cujo incidente lhe rendeu um processo na esfera criminal. Para preencher seu tempo e o único propósito que possui para ganhar a vida, ele realiza performances eróticas na webcam, sob o pseudônimo “GarotoNeon”.  Ele mora em um apartamento alugado em Porto Alegre com a irmã Luiza (Guega Peixoto), mas quando ela se muda para Salvador, a vida de Pedro, já atribulada, toma rumos ainda piores.  Porém, quando conhece Leo (Bruno Fernandes), outro rapaz que realiza danças eróticas na internet e usando tinta neon, vê seu cotidiano se transformar.

Se antes enxergava Leo como uma ameaça pelo fato de o jovem também realizar o mesmo ofício, Pedro passa a sentir uma espécie de catarse, uma libertação que ele não experimentara antes e um novo significado de vida, que era triste, preso à rotina e tomado pelo luto, pois perdera a mãe muito cedo. Além disso, nasce um grande amor e o sentimento de ter uma lacuna preenchida, tendo em vista que não possui nenhum projeto para o futuro e sem perspectivas de encontrar seu lugar na sociedade. Leo é um jovem que sonha em ensinar dança e trilhar o mundo, e ele se torna um dinâmico, uma força-motriz para Pedro, que aos poucos vai acordando para a vida. Porém, ocorre uma reviravolta e o protagonista se vê novamente em decadência e na busca por felicidade.

O principal sentimento retratado na história é a solidão, não só pela expressão contida de Pedro quando desliga o computador ou quando conversa com seus seguidores no chat, mas também em cenas mostrando a cidade de Porto Alegre, apresentada como um local composto por jovens que se divertem em festas regadas a música alta e muita bebida e uma terra que não oferece muitas oportunidades de trabalho. Não só Leo, mas outros amigos de Pedro têm a intenção de buscar a realização profissional fora dali, e alguns planos abertos mostrando sombras nas janelas, outras pessoas nos altos dos muros observando tudo o que acontece nas ruas, acentuando a sensação de isolamento. E a falta de opções reforçam a ideia de Leo que suas apresentações semanais na internet podem lhe trazer estabilidade e realização, mesmo que ilusórias.

A estética é belíssima, as luzes em neon em um ambiente tomado por luzes negras não só enriquecem as apresentações de Pedro, como também trazem sensação de liberdade e deleite. O espectador se sente inserido no ambiente, e fora dos shows, nos planos mais fechados, com Pedro apreensivo e tomado pelo desespero, quem acompanha não só se compadece como vai aos poucos descobrindo mais sobre o protagonista. O destaque para a cena da forte chuva não só é impactante, como faz o espectador se sentir na pele de Pedro, que só quer procurar conforto a partir dali. A montagem e a forma como a história foi contada foram feitas de forma precisa e sincera, com o espectador comprando a ideia e torcendo para Pedro encontrar seu rumo e a felicidade.

Shico Menegat tem uma excelente atuação, ele não precisa se concentrar nos diálogos para transmitir ao público tudo o que seu personagem sente, com seu olhar triste e distante já é possível perceber o que se passa com ele, e os problemas pelos quais passa serve de estímulo para outras pessoas acreditarem que existe luz no fim do túnel e que a vida pode proporcionar momentos grandiosos e inesquecíveis. Há a ideia de esperança, muito bem retratada pelo roteiro e pelo personagem Pedro, o Garoto Neon.

Uma história intensa, comovente, sensível e realista, quem acompanha vai se interessar e se sentir envolvido. Não é à toa que ‘Tinta Bruta’ já foi merecedor de alguns prêmios e com potencial para voos ainda mais altos. Fortemente recomendado!

Cotação: 4/5 poltronas.

‘Tinta Bruta’, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, é o grande vencedor do Festival do Rio

‘Tinta Bruta’, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, é o grande vencedor do Festival do Rio

O filme “Tinta bruta”, dirigido por e Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, foi o grande vencedor do Festival do Rio 2018. O evento foi encerrado na noite deste domingo (11), com a cerimônia de premiação no Cine Odeon, na Cinelândia, Centro do Rio. O longa-metragem levou os troféus de melhores filme, roteiro, ator e ator coadjuvante.

O drama LGBT conta a história de Pedro, um jovem homossexual que ganha dinheiro com atuações em fóruns na internet. O filme já tinha sido premiado no Festival de Berlim, em fevereiro.

Confira abaixo a lista dos ganhadores da 20ª edição do festival:

Festival do Rio 2018 – vencedores:

Troféu Redentor – Melhor FilmeJúri Oficial: “Tinta Bruta”, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon

Troféu Redentor – Melhor Filme – Júri Popular: “Deslembro”, de Flavia Castro

Troféu Redentor – Melhor Documentário – Júri Oficial: “Torre das donzelas”, de Suzanna Lira

Troféu Redentor – Melhor Documentário – Júri Popular: “Torre das donzelas”, de Suzanna Lira

Troféu Redentor – Melhor Direção de Ficção: João Salaviza e Renée Nader Messora, por “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”

Troféu Redentor – Melhor Direção de Documentário: Suzanna Lira, por “Torre das donzelas”

Menção Honrosa Direção de Documentário: Daniel Gonçalves, por “Meu Nome é Daniel”

Troféu Redentor – Melhor Atriz: Ítala Nandi, por “Domingo”

Troféu Redentor – Melhor Ator: Shico Menegat, por “Tinta Bruta”, e Valmir do Côco, por “Azougue Nazaré”

Troféu Redentor – Melhor Atriz Coadjuvante: Eliane Giardini, por “Deslembro”

Troféu Redentor – Melhor Ator Coadjuvante: Bruno Fernandes, por “Tinta Bruta”

Troféu Redentor – Prêmio Especial do Júri: “Azougue Nazaré”, de Tiago Melo

Troféu Redentor – melhor roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, por “Tinta bruta”⠀

Troféu Redentor – melhor montagem: André Sampaio, por “Azougue Nazaré”

Troféu Redentor – melhor fotografia: Renée Nader Messora, por “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”⠀

Melhor curta pelo voto popular: “Você não me conhece”, de Rodrigo Séllos

Melhor curta pelo júri do Festival do Rio: “O Órfão”, de Carolina Markowicz

Menção Honrosa curta-metragem: “Universo Preto Paralelo”, de Rubens Passaro

Novos Rumos – melhor curta: “Lembra”, de Leonardo Martinelli⠀

Novos Rumos – melhor filme: “Ilha”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio

Novo Rumos – Prêmio Especial do Júri: “Inferninho”, de Guto Parente e Pedro Diogenes⠀

Novos Rumos Menção Honrosa: “Mormaço”, de Marina Meliande

Novos Rumos Menção Honrosa: Eduarda Fernandes pela atuação (Luna, de Cris Azzi)

Novos Rumos Menção Honrosa: Alexandre Amador pela atuação (Vigia, de João Victor Borges)

Novos Rumos Menção Honrosa: Verónica Valenttino pela atuação (Jéssika, de Galba Gogóia)

Prêmio Felix – Especial do Júri: “Inferninho”, de Guto Parente e Pedro Diogene⠀

Prêmio Felix – melhor longa documentário: “Obscuro Barroco”, de Evangelia Kranioti⠀

Prêmio Felix – melhor longa ficção: “Sócrates”, de Alex Moratto⠀

Troféu Suzy Capó – Personalidade Felix do ano: Saulo Amorim, presidente nacional da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas.

Prêmio Mostra Geração: “Shade – Entre bruxas e heróis”, de Rasko Miljkovic, filme da Sérvia em parceria com a Macedônia.

Prêmio FIPRESCI: “Deslembro”, de Flavia Castro

Por: Cesar Augusto Mota