Filmes que envolvem a máfia e o poder dos gângsters sobre uma cidade estão cada vez mais populares, e começaram pelas mãos de Francis Ford Coppola com sua saga ‘O Poderoso Chefão’ e depois com Martin Scorsese, com ‘Os Bons Companheiros’, ‘Cassino’ e ‘Os Infiltrados’. Essa temática requer não só uma boa leitura por parte do diretor, mas também criatividade para trazer uma história envolvente e personagens capazes de cativar a plateia e levá-la até o fim da trama. E justamente da criatividade que se utiliza a diretora Andrea Berloff (Straight Outta Compton: A História do N.W.A) no longa ‘Rainhas do Crime’ (The Kitchen), com protagonistas mulheres. Mas é um filme feito somente para elas?
Adaptação da HQ ‘The Kitchen’, da Vertigo, a história se passa em Nova York, em 1978, cidade marcada por suas casas de penhores, lojas de artigos eróticos e bares de péssima reputação. Os 20 quarteirões entre a 8ª avenida e o rio Hudson dominados pela máfia e conhecidos como Hell’s Kitchen jamais foram considerados pontos ideais para se viver, e a situação fica ainda mais complicada quando os poderosos mafiosos e controladores do local são presos pelo FBI. As esposas dos gângsters, Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss), resolvem assumir as rédeas do negócio, dispostas a cuidar de todas as falcatruas e eliminar a concorrência. Elas terão que mostrar que são capazes de comandar a vizinhança e aguentar todo tipo de pressão.
O trio apresentado ao espectador é bem heterogêneo, mas unido. Kathy é o cérebro, com forte espírito de liderança e bem flexível, Claire é a aprendiz e se mostra sempre disposta a se aperfeiçoar, já Ruby quer sempre fazer tudo do seu próprio jeito. E são essas diversidades que fazem as três protagonistas se completarem e mostrarem muita cumplicidade durante os 102 minutos de duração da história. E o contexto da trama, mesmo sendo na década de 70, sem dúvida pode se passar na atualidade, tendo em vista as questões de gênero e também a luta contra o preconceito e disputa por poder. As três personagens centrais a cada cena procuram mostrar que são independentes e com capacidade de controlar a cidade de Nova York, além da vontade de lutar contra o sistema, frio e opressor.
A fotografia, com a predominância da cor vermelha, além de uma trilha sonora vibrante, foram outros ingredientes para um filme tão envolvente, violento e dinâmico. Os planos fechados nas cenas que envolvem mutilações também causam arrepio no espectador, como um bom thriller de gângster pede. A montagem e direção de arte são precisa e quem acompanha se impressiona com tamanho realismo das sequências. E além do aspecto técnico, a história tem muito a oferecer, com impressionantes reviravoltas que envolvem as três comparsas e seus maridos, com sérias consequências para ambos.
As atuações são sólidas, as atrizes mostram que não são apenas comediantes e podem encarar qualquer papel. E o filme não é de mulheres para mulheres, há também um forte elenco masculino, composto por Domhnall Gleeson, Common, Bill Camp e Brian d’Arcy James, um forte suporte para uma narrativa que lida com machismo, opressão, poder e a necessidade de afirmação. E, nesse pultimo caso, não pelo fato de serem mulheres, mas para mostrarem que não dependem de outros para atingirem seus objetivos. E isso fica evidente em um diálogo que envolve Kathy, o marido e um mafioso italiano. O gângster afirma que não precisa do companheiro de Kathy para mais nada, e ela devolve com ‘e eu também não’.
Intrigante, violento, agitado e emocionante. ‘Rainhas do Crime’ mostra ao público que é possível contar uma história interessante e com mensagens necessárias e importantes, e tudo pode se dar com pessoas talentosas em frente e por trás das câmeras.
Cotação: 4,5/5 poltronas.
Por: Cesar Augusto Mota
