Poltrona Cabine: Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca/Cesar Augusto Mota

Produções de baixo orçamento e voltadas para um público infantojuvenil estão cada vez mais comuns nos últimos anos, principalmente se forem animações e com mensagens importantes por trás. Premiado como o melhor longa Infantil no Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI) e exibido em países como Cuba, Estados Unidos, Índia, País de Gales e Rússia, “Teca e Tuti: Uma Noite na Biblioteca” chega ao circuito nacional não só com o intuito de ser didático, mas o de ser uma aventura inesquecível para as crianças.

Teca, uma pequena traça que mora com sua família em uma caixa de costuras, alimenta-se de papel. Mas tudo começa a mudar quando ela aprende a ler e descobre que os livros não devem ser comidos, pois estes trazem histórias que tanto adora. Ao lado de seu amigo ácaro Tuti, Teca viverá uma grande aventura em uma biblioteca durante uma noite. Disposta a achar sua mãe, ela terá que lidar com grandes perigos e irá se deparar com grandes desafios que vão transformar sua vida para sempre.

As técnicas de stop motion, com uso de fotografias para fazer os bonecos falarem e se movimentarem, aliadas ao live action, não só proporcionaram uma experiência mais lúdica, como também épica para o público, com belas sincronias e representações imagéticas. As interações entre as animações, combinadas com as dos atores reais estimulam o público infantil a se interessar pelas aventuras de Teca e Tuti, como também o de criar o hábito da leitura, cada vez mais crescente nos dias atuais entre os jovens.

O estímulo à imaginação, a transformação do mundo por meio da leitura e a valorização da cultura brasileira se fazem explícitas na obra, o que torna a produção ainda mais brilhante e memorável. Os encorajamentos feitos personagens secundários, como Clarice, a aranha, e o João, o ratão, são outros ingredientes que tornam a jornada de Teca inesquecível. Carismática, sonhadora e doce, ela cresce ao longo da animação e passa a desbravar um novo mundo, graças à leitura, um estímulo para a atual e futuras gerações do nosso país.

Divertido, didático e inspirador, “Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca” vem para conquistar os corações de todos e ficar por muito tempo na memória dos bons apreciadores da leitura e de boas animações.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Música Natureza de Léa Freire/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Música Natureza de Léa Freire/Cesar Augusto Mota

A música é inerente aos sentimentos das pessoas e à cultura de um país e de um povo. E viver da arte é um grande desafio para o profissional, seja para conseguir a aceitação do público e ingressar em mercados fonográficos do exterior. Em um documentário dirigido por Lucas Weglinski, “A Música Natureza de Léa Freire” ilustra a trajetória de uma instrumentista brasileira que lutou contra barreiras e preconceitos para se estabelecer em um ambiente antes dominado por homens.

Ao som do piano ou da flauta, Léa Freire detalha o início de sua paixão pela música, ícones que a influenciaram a entrar no ambiente musical e tudo sobre a música erudita e popular, com destaque para a Bossa Nova. Há depoimentos de artistas, que relatam ter Léa como exemplo e inspiração para a música. Além disso, o traquejo musical de Léa é bastante elogiado, bem como suas inovações e técnicas de improviso durante a execução de uma música.

Um dos assuntos mais importantes da obra é a superação dos preconceitos, e Léa teve de mostrar que mulheres podem ser o que quiserem e improvisar nos momentos de dificuldade. Confiante em suas habilidades, seguiu com seu propósito e hoje é referência mundial, tendo inclusive composto centenas de músicas. Além da misoginia e machismo que enfrentou, passou por cima da desconfiança e dificuldade em fechar contratos, tendo mais tarde fundado a Maritaca Discos.

Com um tom sereno e linguagem simplificada, o documentário faz o espectador não só conhecer e contemplar uma carreira consolidada e vitoriosa de Léa Freire, como também refletir sobre a cultura brasileira, da sua importância, como também saber valorizar o que é nosso. Para Léa, não basta só ter talento, como também ter a capacidade de influenciar pessoas, ser visto e mostrar tudo o que a cultura do país tem a oferecer.

Um deleite para os ouvidos e para a alma, “A Música Natureza de Léa Freire” não só distrai, mas inspira todos os amantes da música, bem como os profissionais ou quem deseja entrar no mercado musical. Além do talento, é necessário incentivo, há abençoados que encontram a oportunidade no local e o momento certo, caso de Léa Freire. Vale a pena acompanhar.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Ninguém Sai Vivo Daqui/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Ninguém Sai Vivo Daqui/Cesar Augusto Mota

Dramas psicológicos vêm ganhando espaço entre filmes e séries, e podem ser consideradas ferramentas importantes acerca do estudo sobre a mente humana, o quão ela pode ser complexa, manipulada ou até mesmo cruel e perversa. Com direção de André Ristum, “Ninguém Sai Vivo Daqui” é uma produção brasileira que relembra ao público um dos episódios mais sórdidos e macabros da História do Brasil.

Inspirado no livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, acompanhamos Elisa (Fernanda Marques), internada no hospital psiquiátrico Colônia, de Barbacena, à força pelo pai por ter engravidado do namorado e se recusado a casar com um homem mais velho escolhido por ele. O local era conhecido por receber pessoas que se recusam a cumprir regras impostas pela sociedade ou pela própria família, sofrendo tortura e maus tratos. Elisa e os demais internos vão usar todas as forças possíveis para fugir daquele ambiente hostil e infernal.

O ambiente apresenta pouca luz e o filme é inteiramente em preto e branco, criando uma atmosférica sufocante e claustrofóbica. Esses recursos transportam o espectador para o local, fazendo-o sentir toda a dor e sofrimento pelos quais os personagens passam. O recurso do preto e branco é proposital, pois ilustra o olhar desolado e sem cor dos internos do Hospital Colônia, sem perspectivas de uma vida melhor em um ambiente torturante e opressor.

O filme proporciona importantes debates sobre a violação dos direitos humanos e saúde mental, tendo em vista as atitudes atrozes e meios cruéis utilizados pelos enfermeiros do Hospital Colônia, a privação dos direitos básicos dos internos, bem como seus transtornos psicológicos. O público se solidariza com os demais internados e se surpreende com a performance entregue por eles e principalmente por Elisa, a personagem-central. Ela conseguiu ilustrar toda a fragilidade e medo, proporcionando muita veracidade e emoção.

Apesar da falta de profundidade sobre a vida de Elisa, como seu passado e planos futuros, “Ninguém Sai Vivo Daqui” é polêmico, didático e visceral, que não só entretém, como também denuncia as barbaridades do ser humano e as complexidades da mente humana, que ainda requer estudos exaustivos da ciência.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Flor do Buriti/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Flor do Buriti/Cesar Augusto Mota

Demarcação de terras indígenas e preservação da natureza são temas há muito tempo discutidos e necessários na sociedade. No audiovisual, a produção luso-brasileira “Flor do Buriti”, dos cineastas João Salaviza e Renée Nader Messora, aborda esses temas, bem como estimula as pessoas a pensarem e agirem, bem como a resistirem à exploração feita pelo homem branco.

A obra ilustra os últimos 80 anos dos Krahô, povo indígena que vive no norte do Tocantins, na fronteira entre Maranhão e Piauí, com a retratação das mais diferentes formas de resistência, como luta por maior liberdade, por terra, preservação dos ritos ancestrais e da natureza das comunidades nas quais vivem. Um dos massacres retratados foi um ocorrido em 1940, no qual fazendeiros da região mataram pelo menos 26 pessoas do povo Krahô.

A narrativa é não-linear e se dá por meio das memórias compartilhadas entre os indígenas, com reconstituições dos fatos de décadas diversas até os dias de hoje, como uma forma de incentivar os Krahô a sempre se reinventarem e nunca se calarem diante dos exploradores. As cenas são feitas por indígenas autênticos e sem o uso de imagens de arquivo para retratar os desmatamentos e chacinas experimentados pela região.

Há uma aura de suspense sobre o íntimo espiritual dos Krahô, que ocorre graças ao ritmo lento e contemplativo da narrativa, e com um jogo de sombra e luz sobre a aldeia e um corte abrupto para a transição entre passado e presente.  As transformações e adaptações pelas quais os indígenas passam são mostradas com seriedade e sensibilidade, e notamos isso por meio de dois personagens, como um jovem que acompanha a política brasileira pela internet e um pajé que vigia uma criança e parte para uma viagem para Brasília. As percepções de mundo são distintas, mas a espiritualidade é praticamente a mesma.

“Flor do Buriti” é uma produção de cunho político, social e didático, com debates necessários em todas as comunidades, que ilustra a ideia do cuidado, do respeito e da tolerância. Vale toda a contemplação e reflexão.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Salamandra/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Salamandra/Cesar Augusto Mota

 Salamandra

O uso da metáfora tem sido bastante comum em obras do audiovisual, tanto em filmes como em séries, e visa ilustrar uma visão lúdica e pessoal do idealizador. E na obra escrita e dirigida por Alex Carvalho, intitulada “Salamandra”, não é diferente. Em busca de libertação, a protagonista vive em um mundo totalmente novo e está disposta a passar por todo tipo de provação, mas conseguirá alcançar o que deseja?

Adaptado de obra homônima de Jean-Christophe Rufin, acompanhamos a jornada de Catherine (Marina Fois), uma francesa que após viver anos de isolamento em decorrência de ter cuidado dos pais doentes, ela decide recomeçar a vida e vai para o Brasil para morar com a irmã, em Recife. Ela acaba se apaixonando pelo jovem Gil (Maicon Rodrigues), e a comunicação entre eles passou a ser sensorial e corporal, tendo em vista que ela é francesa e ele, brasileiro, e ambos não falam o mesmo idioma. A relação passa a ficar complexa e os atos de cada um, alguns impensados, geram sérias consequências.

Como dito anteriormente, Catherine busca se libertar das amarras de uma classe rica à qual pertence e buscar os prazeres carnais, e Gil vê a oportunidade de mudar de vida e ter uma trajetória mais digna, tendo em vista ser de família pobre e preso ao seu empregador. Ambos estão dispostos a todo tipo de sacrifício, e não se preocupam com os desdobramentos que suas escolhas podem acarretar, e o que vemos é uma verdadeira gangorra. Há uma certa demora no desenrolar dos acontecimentos, e o desfecho não condiz com o esperado.

As ações dos personagens se dão com extrema naturalidade, a sexualidade é bem retratada com uma entrega corporal ousada e satisfatória, há uma certa catarse experimentada por Catherine e Gil, e a ambientação se deu pelo foco na captação do som contrastando com o problema de comunicação entre ambos, valorizando a individualidade de cada um. O título Salamandra retrata muito bem a transformação e a superação pelas quais Catherine e Gil passam, além da catarse e anti-catarse que experimentam ao longo da jornada.

Se faltou um pouco de originalidade no desfecho, “Salamandra” é um convite a um debate sobre sexualidade, sensualidade, violência, tendo em vista algumas cenas fortes, bem como a luta de classes. Uma obra convidativa e altamente recomendada.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota