Poltrona Cabine: Nosso Lar 2: Os Mensageiros/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Nosso Lar 2: Os Mensageiros/Cesar Augusto Mota

Embate entre corpo e mente, a existência da fé em contraponto à descrença, e a ponte entre o êxito e o fracasso. Várias dessas antíteses se fazem presentes na vida de muitas pessoas, e tudo isso possui um elemento em comum: atitude. Tudo depende do que você faz, e cada ação leva a uma consequência. Inspirado no best seller ‘Os Mensageiros’, de Chico Xavier, ‘Nosso Lar 2: Os Mensageiros’ possui uma bela proposta, com uma história de fé, amor e perdão.

Conhecemos o grupo espiritual Nosso Lar, liderado pelo mensageiro Aniceto (Edson Celulari), cujo objetivo é o de salvar projetos de vida que estão prestes a desmoronar. Junta-se à equipe o médico André Luiz (Renato Prieto), e todos passam a se dedicar a cuidar de três protegidos cujas histórias são interligadas: Otávio (Felipe de Carolis), um jovem com o dom da mediunidade e com uma vida promissora, mas que se desvirtua no caminho; Isidoro (Mouhamed Harfouch), líder de um centro de caridade, e Fernando (Rafa Sieg), empresário responsável pelo financiamento do projeto.

Na medida em que conhecemos a trajetória de vida de cada um dos irmãos, Isidoro, Otávio e Fernando, percebemos que algo faltava para cada um ter uma vida plena e feliz: fé. E após a passagem dos três pela Terra, foram retratados como entes que habitavam as sombras, incrédulos e totalmente perdidos, com destaque para Otávio, disposto a levar com ele outros irmãos para o fracasso. Mas a retratação do trabalho do grupo Nosso Lar, de como os mensageiros atuavam na vida das pessoas e as transformações que aconteciam nos mostraram ser possível trilhar novos caminhos e escrever novas histórias.

Assuntos como reencarnação e vida após a morte também entram em pauta e ambos são bem abordados visualmente, com um ambiente de cores frias e aspecto futurista, o Bosque das Águas, local de encontro entre os mensageiros. Além disso, há um jogo de luzes e efeitos especiais para ilustrar a limpeza do corpo físico e a força mental. O grupo Nosso Lar não é só uma ponte para que as pessoas possam se salvar, ele serve de inspiração e um caminho para quem deseja se reencontrar ou ratificar suas escolhas. A produção faz questão de mostrar que não defende uma religião específica, mas que Deus se faz presente em todas as religiões.

Uma obra feita com leveza, assuntos sensíveis e mensagens importantes. ‘Nosso Lar 2: Os Mensageiros’ chega com o intuito de abrir os olhos, iluminar caminhos e mostrar que o mundo precisa de amor, compreensão e perdão, escolhas felizes e finais felizes.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Bizarros Peixes das Fossas Abissais/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Bizarros Peixes das Fossas Abissais/Cesar Augusto Mota

Animações costumam ser grandes atrativos para todos os públicos, com histórias divertidas, lineares, com muitas cores vivas e histórias com belos ensinamentos por trás. Mas a obra desenhada, produzida e dirigida pelo cineasta Marão foge do lugar comum. ‘Bizarros Peixes das Fossas Abissais’, uma obra com um título um tanto estranho, não só aborda o esquisito, mas explora a catarse, a fluidez dos nossos pensamentos e a capacidade de evolução e aprendizado do ser humano.

Acompanhamos uma típica jornada do herói, com uma jovem dotada de poderes excêntricos, que percorre da Baixada Fluminense até Belgrado em busca de um mapa que irá levar para um precioso tesouro, uma planta que será capaz de curar o Azheimer, séria doença degenerativa de seu avô. E para ajudá-la, contará com o auxílio de uma tartaruga que sofre de TOC e uma nuvem com incontinência pluviométrica. E, de quebra, um grande confronto no oceano em busca do tão sonhado mapa.

O uso de novos recursos, como a técnica de full animation, na qual os traços e movimentos dos personagens são refeitos na medida em que a história fica mais intensa encaixa direitinho com a jornada na qual os três protagonistas se submetem, pois há uma dose de humor exagerado, além de leveza nesta animação voltada para o púbico adulto. O humor nonsense empregado foge do lugar comum, e o espectador percorre locais e situações inimagináveis antes de se deparar com o perigo.

Além do emprego de recursos que enriquecem a trama, a interação dos protagonistas e o deleite do público, a sintonia entre os protagonistas também é outro ponto forte, pois cada um é dotado de um talento e a junção de todos eles desencadeia grandes desdobramentos e proporciona muitas surpresas. Um humor diferente, surpreendente e libertador.  Após uma icônica conclusão, o espectador sai com uma sensação de leveza e extrema satisfação  ao se deparar com uma trama bem articulada, movimentos bem ritmados, um excelente trabalho de efeitos sonoros e uma boa variação entre cores quentes e frias.

Se você busca um humor diferente, ácido, bizarro e que beira à catarse, ‘Bizarros Peixes das Fossas Abissais’ é uma ótima sugestão. Um prato cheio e de ótimos ingredientes.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Diário de uma Onça/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Diário de uma Onça/Cesar Augusto Mota

Conhecida por sua abundância em água e a diversidade da fauna e da flora, o Pantanal está cada vez mais ameaçado, seja pela ação humana ou pelas constantes mudanças climáticas. Em meio a esse cenário, iremos acompanhar uma história real que envolve uma onça pintada, a terceira de sua linhagem que foi libertada e posta na natureza. O que será que a jornada de Leventina nos reserva?

A responsável por dar vida à protagonista é a atriz Alanis Guillen, a Juma do remake da novela Pantanal, da TV Globo. Ela usa o recurso do voice over durante o documentário “Diário de uma Onça”, produzido por WCP em coprodução com Ventre Studio e Globoplay. Mas antes de ouvirmos a trajetória de Leventina na voz de Alanis, que procura encontrar o tom certo conforme o momento apresentado em tela, vamos nos inteirar de momentos que envolveram Fera e Ferinha, outras duas onças pintadas que foram libertadas pela organização Onçafari e que também passaram por percalços antes de ficarem livres na natureza.

Quem acompanha o documentário se depara com um formato diferente do habitual, com uma narração em primeira pessoa e o tratamento de duas onças por “mãe” e “vó” na voz de Alanis. O voice over torna a peça mais imersiva e cria uma empatia entre público e natureza, que se aproxima do cenário retratado, bem como dos animais que lutam por sobrevivência e enfrentam ameaça de extinção. Com um sotaque característico dos nativos do Pantanal, Alanis imprime sinceridade e muita autenticidade acerca da real situação das espécies que habitam o local, além do cenário que é palco do dia a dia das três onças, antes de viverem na natureza.

 Além disso, o tratamento dado ao ser humano e à onça pintada não é apenas o de predador e presa, é possível perceber durante o documentário que é possível existir uma relação amistosa entre ambos e que a onça não é vista apenas como um animal feroz, mas sim como um símbolo de resistência e até mesmo da criação do mundo, que habita, resguarda e protege. O trabalho dos biólogos com os animais antes de serem soltos mostra que é possível mudar de olhar acerca da relação entre homem e onça, sem esquecer dos riscos e o sofrimento dos bichos, que são vistos como incômodo por peões e pecuaristas, de olho no futuro e em seus negócios.

Ela não é somente um elemento de cenário, Leventina é um autêntico personagem, que vive, tem medos, reage e se adapta ao ambiente conforme a situação. Vale a pena acompanhar sua trajetória antes de sua nova rotina, viver na natureza, tornando-a posteriormente sua mãe.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Ainda Temos o Amanhã/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Ainda Temos o Amanhã/Cesar Augusto Mota

“Após a tempestade, a bonança”.  Esse versículo bíblico traduz a trajetória de Delia, a personagem-central de “Ainda Temos o Amanhã” (C’É Ancora Domani’), drama italiano protagonizado e dirigido por Paola Cortellesi. A obra aborda temas sociais e importantes não só na Itália dos anos 40, como também no período contemporâneo, com dose de drama e humor em momentos-chave.

Em uma Roma pós-Segunda Guerra, com a expectativa de recuperação econômica e sentimento de libertação social, vive Delia, uma esposa dedicada e mãe de três filhos. Enquanto o marido Ivano age com postura violenta e autoritária, ela encontra consolo na amiga Marisa. Com perspectiva de dias melhores após a filha Marcella anunciar seu noivado com o jovem Giulio, de uma família de posses e proprietária de um Café em Roma, Delia passa a viver uma grande virada em sua vida após a chegada de uma carta misteriosa. A partir daí, ela passa a questionar seu papel de mãe, sua posição na sociedade romana e a nutrir sentimentos como revolta e busca por libertação.

A obra é retratada em preto e branco para ambientar o público com a Itália que estava se recuperando após derrota na Segunda Guerra e mostrar o quão sofrida era a sociedade italiana da época, marcada por muita miséria, porém otimista por novos dias e melhorias. As mulheres eram resignadas e submissas a seus maridos, já os chefes de família bastante rígidos e focados nas posses e posições sociais. Em meio a esse universo, Delia tenta, do seu jeito, fazer o seu melhor e passar por todos os sofrimentos e privações dentro de casa.

O arco dramático da protagonista dá intensos saltos, mas em um ritmo cadenciado, para ilustrar todas as camadas da personagem, em momentos resignada, em outros mais ressentida, mas sempre esperançosa por dias melhores para si mesma e sua família. Ela encontra seu ponto de virada após conversas mais ríspidas com Marcella, a filha mais velha, e daí por diante busca com mais intensidade seu momento de se libertar da prisão domiciliar que vivia. As agressões eram ilustradas de uma forma menos chocante, com uma vibe musical, para tornar a trama menos traumática, mais dinâmica e instigante.

A atuação e direção de Paola Cortelessi cumprem o que prometem, com um enredo que promove debates importantes sobre as diferenças entre classes sociais, o papel da mulher na sociedade e a capacidade do ser humano em tomar decisões difíceis e em momentos primordiais da vida. O encerramento se dá com um importante acontecimento que mudou para sempre a vida das mulheres italianas e que serviu de inspiração para a transformação e o empoderamento feminino. Um filme didático, emocionante, inspirador e chocante, que vale toda a atenção.

Cotação: 5/5 poltronas.  

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Sombra de Caravaggio/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Sombra de Caravaggio/Cesar Augusto Mota

“O verdadeiro significado está na própria imagem”. Esta análise retrata muito bem o trabalho de um artista plástico de excelência, principalmente se for alguém que já foi apontado como um pintor à frente do seu tempo. Trata-se de Michelangelo Merisi, conhecido no século XVII como Caravaggio, que buscava sempre retratar o que ele enxergava ao seu redor e primar pela verdade. Porém, o artista esbarrou em importantes dogmas da Igreja Católica, que considerava seu trabalho obsceno e ofensivo aos princípios cristãos. Sob a direção de Michele Placido, ‘A Sombra de Caravaggio’ (L’Ombra di Caravaggio) vai abordar a grande jornada e os conflitos psicológicos pelos quais passou esse renomado pintor italiano.

A história se passa em Roma, no ano de 1609, período em que Michelangelo Merisi (Riccardo Scamarcio) espera pelo perdão do Papa para fugir de uma sentença de morte após cometer um crime terrível. O pintor encontra refúgio na Família Colonna, onde suas pinturas deixam uma marca profunda e cheia de encantos. Caravaggio também chega a se refugiar em Nápoles, e por lá também consegue cativar todas à sua volta e fisgar a atenção para suas pinturas, verdadeiras obras de arte que faziam contrastes profundos entre claridade e sombra, luz e trevas, ódio e amor.

A Itália apresentada durante a narrativa mostrava muito bem como foi o período pós-renascentista, ainda sob o poder da Igreja Católica. Os monumentos e vestes bastante similares, além de um belo jogo de sombras em ambientes fechados, relembrando o clima de tensão e de trevas. O plano fechado de câmeras no personagem-central foi usado de forma eficiente, retratando Caravaggio tenso, pressionado e colocado contra a parede por grandes autoridades. As cores quentes nas ocasiões em que contava com apoio de seus modelos para suas pinturas mostravam muito bem o verdadeiro espírito do artista, entusiasta pela beleza, essência do espírito humano e, principalmente, a verdade. A busca pela perfeição e o verossímil faziam parte dos princípios de Caravaggio, dos quais não abria mão e fazia questão de defender com unhas e dentes, mesmo que suas atitudes pudessem representar risco ao seu trabalho e à própria vida.

O enredo se apresentou coeso, com pautas importantes como liberdade de expressão e de crença, além de respeito e o conceito de criação, que passa por inspiração, liberdade, e, principalmente, verdade. As obras de Caravaggio são sinônimo de autenticidade, excelência e beleza, com a realidade e cultura social devidamente representada. O arco dramático de Caravaggio é altamente dinâmico e emocionante, capaz de mobilizar o público até o fim, seja pelos tormentos sentidos pelo protagonista, como pelo significado de suas obras e consequências delas para a sociedade italiana e geral.

Michele Placido, que também atua em ‘A Sombra de Caravaggio’, consegue com eficiência mostrar a beleza e importância das obras de arte de Michelangelo Merisi, bem como quem estava por trás delas, com seus pontos de partida, princípios e motivações. Pinturas que estão na Itália e em várias partes do mundo e que até os dias atuais ganham repercussão. Uma jornada que vale a pena ser acompanhada e inteiramente percorrida.

Cotação: 5/5 poltronas.  

Por: Cesar Augusto Mota