Poltrona Cabine: Onde Quer Que Você Esteja/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Onde Quer Que Você Esteja/ Cesar Augusto Mota

Em tempos de internet, ferramenta que domina as interações sociais, a televisão e o rádio ainda desempenham papéis importantes na sociedade, principalmente o último, com informação, entretenimento e prestação de serviço. Presente em diversas classes, o rádio funciona como válvula de escape para os problemas sociais e até mesmo como ferramenta de solidariedade. Esse contexto é explorado no longa ‘Onde Quer que Você Esteja’, de Bel Bechara e Sandro Serpa. Uma obra na qual as dores e as súplicas falam mais alto.

Situada na Grande São Paulo, a rádio Cidade Aberta se propõe a ajudar a comunidade a encontrar familiares e amigos desaparecidos. Os interessados têm o microfone aberto no programa ‘Onde Quer que Você Esteja’ para expressar tudo o que sentem, além de fazer seus apelos e pedido por informações sobre seus entes queridos. No corredor de espera, os participantes que aguardam ser chamados interagem com outros, com as histórias pessoais e dramáticas de cada um se cruzando e estabelecendo laços de amizade entre eles, algo reconfortante em um momento de grande aflição.

Obviamente que o drama prevalece nessa obra. A dor da separação, seja porque o parente quis partir ou por conta de algum incidente, é o fator comum entre os personagens. Os diálogos são o ponto forte e o recurso que mais se sobressai ao longo da narrativa, e algumas reviravoltas são constatadas, algumas positivas, outras, nem tanto.

Dentre os personagens, Lucia (Débora Duboc) e Waldir (Leonardo Medeiros) são os que passam a ganhar mais holofotes, pois os encontros entre eles são constantemente ilustrados. A afeição entre os dois vai crescendo na medida em que as confidências entre eles são reveladas e a confiança sendo construída e se fortalecendo a cada encontro e a cada olhar. A solução para seus casos não é a ideal, bem como a de outros ouvintes, e a escolha do roteiro pelo caminho mais fácil quebra um pouco o encanto da obra, com uma bonita temática, a da solidariedade, que estava funcionando muito bem.

A estética é bem representada, com cores pálidas nos ambientes e planos fechados nos rostos dos participantes do programa, e as cenas em seus cotidianos poderiam ganhar mais corpo e ter uma maior duração para conhecermos um pouco mais sobre os personagens e o relacionamento com seus familiares procurados. Apesar dos momentos de dor, ainda sobrou espaço para o humor, com o diálogo de Lúcia com os ouvintes ao seu lado, ao dizer que o mundo é tão pequeno, mas que há muita gente procurando gente. Poderia soar estranho, mas algumas piadas são uma espécie de alívio e preparo para momentos mais delicados que ainda vão surgir. Tudo é feito em seu perfeito timing, e o elenco colabora bem para que a história caminhe e mantenha o interesse do público em acompanhar até o fim.

Apesar das adversidades e de diversos males presentes na sociedade, ‘Onde Quer que Você Esteja’ mostra que ainda há espaço para o otimismo e a esperança no coração das pessoas, mesmo que os fatos se mostrem pelo lado mais negativo. O carinho e o amor conseguem se sobressair ao desespero e a dor, e tudo isso é devidamente comprovado nessa produção, feita de forma precisa, sensível e autêntica.

Cotação: 3,5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota