Maratona Oscar: Ford vs Ferrari/Gabriel Araújo

Maratona Oscar: Ford vs Ferrari/Gabriel Araújo

imagesPor Gabriel Araujo

É muito improvável que “Ford vs Ferrari” conquiste o Oscar de Melhor Filme – pode brigar pelas categorias técnicas. Mas isso não significa que a indicação não seja merecida: o filme é bom, muito bom. Não tem grandes ousadias ou revoluções, mas faz o necessário de maneira excelente, entregando boas doses de ação, drama e comédia.

A história – baseada em acontecimentos reais – é daquelas que os Estados Unidos adoram: a corporação histórica norte-americana (Ford), em busca de um fato novo, decide duelar nas pistas com a gigante Ferrari, equipe cheia de italianos metidos, com o pano de fundo tornando-se as preparações para as 24 de Le Mans e a disputa da prova de 1966. O desafio da produção é transformar esse enredo em um filme que transmita paixão por velocidade, entretenha e traga a mensagem da força de vontade. O diretor James Mangold consegue.

Carroll Shelby (Matt Damon) é o chefe da equipe; Ken Miles (Christian Bale), o piloto casca grossa. E mesmo quem não é um grande fã da história do automobilismo imagina o que vai acontecer, não? Assim como todo grande fã de cinema sabe que as atuações desses dois grandes nomes são excelentes – especialmente a de Bale, em mais uma magistral dedicação a um papel. É uma loucura pensar que o Ken Miles de hoje é o Dick Cheney de ontem. Que ator.

Os coadjuvantes também têm bons momentos. Destaque para Caitriona Balfe (Mollie Miles, esposa de Ken), que vive uma das cenas hilárias do longa, quando dirige com o marido de passageiro; para Jon Bernthal (Lee Iacoca, vice-presidente da Ford), e sua fala “James Bond não dirige um Ford”; para Tracy Letts (Henry Ford II), especialmente na cena em que vai na carona de Shelby; e para Josh Lucas (Leo Beebe, executivo da Ford), um vilão até nos trejeitos. Apenas Peter, o filho de Ken Miles, é meio xarope.

Apesar da mensagem de força de vontade e de empreendedorismo norte-americano, as cenas de corrida não ficam em segundo plano, e têm muita adrenalina envolvida. A caracterização de Le Mans 1966 é fantástica, embora a presença de nomes como Bruce McLaren e Denny Hulme, pilotos históricos mencionados no filme, pudesse ser melhor aproveitada no enredo. Mas, no fim das contas, o charme da prova mais incrível do mundo ajuda a compensar esse deslize.

No mais, o título “Le Mans ’66”, com o qual o filme foi lançado em alguns países, é mais adequado que “Ford vs Ferrari”. Embora o nome com duas gigantes dos automóveis faça sentido e tenha grande apelo comercial, tudo é feito com o objetivo Le Mans, e Enzo Ferrari é retratado menos como vilão, mais como um apaixonado por carros e pela vitória. A rivalidade é o princípio, mas Le Mans 1966 é o alvo.

De qualquer forma, é um filme que vale duas horas e meia de dedicação, vença ou não algum Oscar. O telespectador não há de se arrepender.

Maratona Oscar/Poltrona Netflix: Democracia em Vertigem/Anna Barros

Maratona Oscar/Poltrona Netflix: Democracia em Vertigem/Anna Barros

O filme de Petra Costa e feito pela Netflix conta todos os fatos históricos que levaram ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Todos os bastidores, conchavos e situações que resultaram no golpe que possibilitou que Dilma saísse do poder e em seu lugar entrasse o advogado Michel Temer, seu vice na chapa por duas vezes.

O filme é ágil, com um roteiro bem construído e amarrado com fotos e gravações interessantes desse momento triste da nossa história. Petra faz um paralelo com a história de sua mãe, mineira e ativista política que também lutou na época da Ditadura Militar.

O documentário é tao bom que entrou na lista dos dez mais de 2019 do New York Times e pode beliscar uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário.

Vale a pena ver e rever. Se você ainda não viu, aproveite o recesso de fim de ano e corra!!! É simplesmente imperdível!!!

 

Sinopse: Documentário sobre o processo de impeachment da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que foi considerado como um dos reflexos da polarização política e da ascensão da extrema-direita para o poder. O filme conta com imagens internas e exclusivas dos bastidores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e do Palácio da Alvorada, enquanto ocorria a votação para a queda de Dilma.

 

Maratona Oscar/Poltrona Netflix: Klaus/Anna Barros

Maratona Oscar/Poltrona Netflix: Klaus/Anna Barros

O desenho Klaus da Netflix é muito lindo. Pena não ter sido indicado ao Globo de Ouro 2020 porque não deve nada às produções Disney e Pixar. A qualidade de animação é excelente e a história é comovente. Eu fiquei extremamente tocada e não tenho filhos. Recomendo aos pais que o assistam com seus pequenos.

Há um clima de rancor e hostilidade em Smeerensburg que é quebrado quando o carteiro Jesper, por imposição de seu pai para que não seja deserdado, vai até a cidade para movimentar o Correio local. O que não se esperava era que ele seria tocado por um gesto altruísta e ajudaria Klaus, um senhor amargurado pela vida por causa da morte de sua esposa e acabaria por depois se transformar em Papai Noel, o ajudaria nessa linda missão. Um gesto altruísta mobiliza outro. Então Jesper consegue convencer a professora jovem que havia se aposentado a ensinar crianças que não sabiam a ler e escrever e reabrir a escola local. Também convence Klaus a fabricar os brinquedos e distribuir para as crianças. Faz amizade com uma menininha da Finlândia e por aí vai. Espalha o bem e o amor por toda a cidade.

A galerinha do mal tenta sabotar Jesper mas acaba fadada ao fracasso com tanto gesto de amor. Até tentam trazer o pai de Jesper para levá-lo de volta para sua casa e suas antigas mordomias mas ele não sucumbe à tentação da boa vida de outrora.

Em Smeerensburg, remota ilha localizada acima do Círculo Ártico, Jesper (Jason Schwartzman) é um estudante da Academia Postal que enfrenta um sério problema: os habitantes da cidade brigam o tempo todo, sem demonstrar o menor interesse por cartas. Prestes a desistir da profissão, ele encontra apoio na professora Alva (Rashida Jones) e no misterioso carpinteiro Klaus (J.K. Simmons), que vive sozinho em sua casa repleta de brinquedos feitos a mão.

Nessa época onde todos os bons sentimentos estão aflorados, vale a pena ver um filme tão poético e tão bonito como Klaus.

4/5 poltronas.

 

Maratona Oscar: Poderia me perdoar?/Pablo Bazarello

Maratona Oscar: Poderia me perdoar?/Pablo Bazarello

A Falsária

“Todo comediante quer ser reconhecido como ator sério”. A frase é muito utilizada e , embora relativamente injusta, não está de todo errada. Apesar de a esta altura todos saberem que fazer comédia é mais difícil do que o drama, é nesta segunda vertente da dramaturgia que se encontra o prestígio, reconhecimento pelas atuações e, é claro, os prêmios. É fácil pensar que qualquer humorista carrega em si as mesmas aflições, os mesmos questionamentos e dores que todos nós. De fato, ainda mais, já que precisam estar superficialmente o tempo todo exaurindo alegria a fim de contagiar sua audiência. A síndrome do palhaço triste é outro grande arquétipo imortal e atemporal – é só lembrarmos do saudoso Robin Williams.

A atriz Melissa McCarthy conseguiu seu público-cativo e se tornou uma estrela do cinema norte-americano através da comédia – pelo qual é reconhecida até hoje. Não é surpresa então que o divisor de águas em sua carreira tenha sido justamente num filme do gênero. O que surpreende, no entanto, é que sua ascensão ao estrelato tenha vindo junto do prestígio de uma indicação ao Oscar – justamente pelo mesmo filme: Missão Madrinha de Casamento (2011). Ser notado pela Academia e por um trabalho longe do esperado (o drama) não é uma tarefa a ser subestimada. McCarthy volta agora, sete anos depois, a ser prestigiada pela Academia – desta vez, em seu primeiro papel sério no cinema.

Em seus personagens cômicos, Melissa McCarthy sempre conseguiu encontrar humanidade suficiente para retirar deles trechos dramáticos, nos quais a atriz estendia seu alcance performático – é só perceber cenas específicas de comédias como Uma Ladra Sem Limites (2013) ou As Bem Armadas (2013), ambos exibindo uma faísca do que poderia ser seu desempenho num longa unicamente focado em tal teor. E a oferta não foi em vão. Em Poderia me Perdoar?McCarthy surpreende com uma atuação tocante e pra lá de melancólica.

Passado na década de 1990, e baseado numa história real, McCarthy vive Lee Israel, uma escritora cinquentona, que não está na melhor fase de sua vida. Ao nos depararmos apenas com a superfície do que é a sinopse da vida da personagem, automaticamente somos transportados para um ambiente triste, solitário e repleto de amargura. Israel é uma destas personagens que parecem ter uma nuvem preta pairando sobre sua cabeça. Todo e qualquer elemento de sua vida soa fora do lugar. O relacionamento de anos com Elaine (Anna Deavere Smith) chegou ao fim e tudo o que restou foi um apartamento frio, vazio e sujo. No trabalho, as coisas não vão muito melhor. Sua agente insiste para que seus livros criem uma conexão maior com o público – e daí surge um debate bem interessante (e que parece nunca ter fim) sobre arte, sucesso, lucro e comercialização.

 

No fundo do poço sentimental, sem dinheiro para conseguir pagar o aluguel e atraindo somente “caloteiros” como Jack Hock (Richard E. Grant), o primeiro passo para a mudança precisava vir da própria. Ao invés disso, ela escolhe o caminho mais fácil – ou desesperado – e opta por começar a forjar cartas falsas de escritores e artistas icônicos. E assim, consegue seguir sobrevivendo. Mas até quando?

Poderia me Perdoar? tem roteiro de Nicole Holofcener (em parceria com Jeff Whitty), um dos nomes femininos mais quentes do cinema independente norte-americano, responsável pela direção de filmes como Amigas com Dinheiro (2006), Sentimento de Culpa (2010) e À Procura do Amor (2013). Desta vez, Holofcener dá os holofotes para a jovem Marielle Heller (O Diário de uma Adolescente), que assume o comando da obra –  e era uma das diretoras cotadas a assumir a vaga na categoria no Oscar. Infelizmente sua indicação não veio, o que não diminui em nada o trabalho da cineasta. Heller entrega uma obra intimista, que consegue transpor ao âmago de sentimentos tão doloridos e difíceis de lidar. O clima do cinema autoral impera na produção – realista, crua e detalhada.

No fundo do poço sentimental, sem dinheiro para conseguir pagar o aluguel e atraindo somente “caloteiros” como Jack Hock (Richard E. Grant), o primeiro passo para a mudança precisava vir da própria. Ao invés disso, ela escolhe o caminho mais fácil – ou desesperado – e opta por começar a forjar cartas falsas de escritores e artistas icônicos. E assim, consegue seguir sobrevivendo. Mas até quando?

Poderia me Perdoar? tem roteiro de Nicole Holofcener (em parceria com Jeff Whitty), um dos nomes femininos mais quentes do cinema independente norte-americano, responsável pela direção de filmes como Amigas com Dinheiro (2006), Sentimento de Culpa (2010) e À Procura do Amor (2013). Desta vez, Holofcener dá os holofotes para a jovem Marielle Heller (O Diário de uma Adolescente), que assume o comando da obra –  e era uma das diretoras cotadas a assumir a vaga na categoria no Oscar. Infelizmente sua indicação não veio, o que não diminui em nada o trabalho da cineasta. Heller entrega uma obra intimista, que consegue transpor ao âmago de sentimentos tão doloridos e difíceis de lidar. O clima do cinema autoral impera na produção – realista, crua e detalhada.

 

Por Pablo Bazarello

 

Confira a crítica no site do CinePop.

Maratona Oscar: Green Book/Flávia Barbieri

Maratona Oscar: Green Book/Flávia Barbieri

“Green Book” é um daqueles filmes que, dificilmente, receberia críticas negativas. É aquela história cheia de sutilezas e ensinamentos. Apaixonantes para todos os gostos.

 

Histórias fictícias – se bem escritas – podem gerar um excelente filme. No entanto histórias reais, geralmente, rendem um filme de Oscar. É o caso de “Green Book”.

 

Estreado pelo intenso e sagaz Mahershala Ali, impecável no papel de Dr. Don Shirley e por Viggo Mortesen (Tony Lip) – eterno Aragorn – o filme discorre sobre uma amizade improvável entre um segurança de um bairro ítalo-americano no Bronx, e um pianista negro conhecido mundialmente. Nem a mente mais criativa de um produtor conceituado poderia imaginar uma história tão vigorosa. A amizade inicia-se quando Tony Lip é contratado como motorista de Dr. Don Shirley, que precisa de alguém para guiá-lo em sua turnê de shows de Manhattan até o Deep South. Ao longo do filme, a intolerância inicial de dois homens muito diferentes encontra terreno comum em uma viagem musical e elegante. No momento inicial de sua aventura, entendemos o nome do filme. Green Book, na tradução Livro Verde, é o guia sobre os poucos estabelecimentos que eram seguros para afro-americanos, na década de 60. Numa história que envolve realidades diferentes de pessoas com vivências quase antagônicas, confrotando situações de racismo, e seus perigos e injustiças – eles são forçados a deixar de lado suas diferenças para conseguirem completar a turnê. A amizade, então, intensifica-se nesse ambiente hostil que os aproxima. Uma amizade incerta transforma-se em uma relação inacreditável de afeto, apoio e companheirismo. Tal amizade se torna tão peculiar que Dr. Shirley ajuda Tony a escrever românticas cartas para a esposa, a doce Dolores, vivida pela ainda mais doce Linda Cardellini. O racismo passa a ser apenas pano de fundo para essa história de amizade. Green Book não é um filme sobre lugares que podiam ser ou não frequentados por negros, não é sobre racismo ou preconceito. É sobre amizade, sobre a mais profunda amizade entre duas pessoas completamente diferentes e, ainda assim, iguais. O que mais comove é que são pessoas reais, e o filme é apenas uma pequena parte dessa história estraordinária. Green Book é um filme sobre respeito, sobre nobreza e sobre ter um olhar divertido sobre as piores situações.

Dirigido por Peter Farrelly , o filme leve, elegante e divertido. O roteiro inspirador é permeado de humor e drama, na dose perfeita. O filme é, merecidamente, um dos favoritos para o Oscar; e poderá facilmente desbancar todos os outros concorrentes e levar a estatueta para a casa.