Poltrona Cabine: A Jaqueta de Couro de Cervo/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Jaqueta de Couro de Cervo/ Cesar Augusto Mota

Obras que retratam o comportamento humano, com foco no desvio de personalidade e suas consequências chamam muito a atenção, pois além de proporcionar reflexões, chamam as pessoas para profundos e constantes debates. ‘Deerskin: A Jaqueta de Couro de Cervo’ (Le Daim), de Quentin Dupieux, causa sensações de estranheza e agonia, mas possui potencial para estudos mais aprofundados sobre o psicológico e a mente humanas.

Georges (Jean Dujardin) é um homem solitário, abandonado pela esposa e sem nenhum trabalho. Quando encontra uma jaqueta de couro de cervo, ele fica alucinado e obcecado pela peça e isso o leva a uma jornada surpreendente, de possessividade, ciúmes e condutas psicóticas. E em um piscar de olhos, Georges acaba por se tornar uma outra pessoa.

A narrativa começa por mostrar cenas comuns e banais, com um homem de semblante misterioso descartando sua jaqueta após terminar seu relacionamento, e a joga no vaso. Depois, cenas de uma câmera amadora com pessoas descartando suas jaquetas e proferindo a frase: “eu nunca mais irei usar uma jaqueta novamente”. Claramente se percebe que essa vestimenta de camurça também é personagem da história, uma espécie de alter ego do protagonista que diz que está realizando um filme, o que não é verdade. Sua flagrante obsessão pela peça e o desejo utópico de ser a única pessoa a vestir uma jaqueta no mundo são os fortes condutores dessa trama cheia de mistério e sequências que beiram a insanidade.

Além da loucura de George e de sua busca por liberdade e afirmação, notamos uma história bem amarrada, peças de quebra-cabeça e ações que aos poucos se encaixam em uma trama intrigante. Momentos como a projeção da voz do protagonista para dar a impressão que a jaqueta conversa com ele são o ápice do quadro caótico e do arco dramático do personagem, que insinua que sua valiosa peça também tem um sonho. E na medida em que ele vai adquirindo outras peças de couro de cervo, ele passa a se transformar e se perder ainda mais, para ele, só aquilo existe e, para ele, vestir couro o transforma em um ser onipotente e poderoso.

A chegada de Denise (Adéle Haenel), uma editora de vídeos e garçonete nas horas vagas, chega como uma forte aliada de George, que acredita em sua história e chega a emprestar dinheiro para a realização de seu suposto filme. Vemos um filme dentro de um outro filme, com tomadas interessantes que mostram o processo de edição e a perfeita leitura que Denise faz do material que lhe foi entregue, com a jaqueta ganhando holofotes nas filmagens. E as interações entre os dois dizem muito sobre ambos, que são solitários e estão dentro de uma bolha e necessitam se desgarrar dela. Tudo é muito bem amarrado, os nós desatados aos poucos e o desfecho de uma maneira inusitada, com direito a retorno de um garoto mundo e olhar distante, um personagem que parecia ser apenas mera figura decorativa, mas que vem e surpreende.

Com uma bela abordagem sobre crise existencial, boa dose de humor e uma linguagem cinematográfica de qualidade, ‘A Jaqueta com Couro de Cervo’ sinaliza com uma boa proposta, de intenso suspense aliado a sustos e importantes pensamentos acerca do comportamento, que devemos sair da bolha ou zona de conforto que possamos estar e que há muito mais barreiras que imaginamos e devemos enfrentar.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota