Poltrona Cabine: Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal/Cesar Augusto Mota

Fazer um retrato de um momento delicado da vida não só requer ousadia, como também os elementos certos. Uma boa história, montagem e fotografia sem dúvida ajudam, mas será que “Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal”, que conta com o renomado diretor Barry Jenkins (Moonlight) na produção e direção de Raven Jackson, utilizou de algum desses itens?

A produção está ambientada nos anos 60, nos Estados Unidos, período no qual a jovem Mackenzie cresce em meio a zona rural no Mississipi, tendo enfrentado algumas complexidades, como perdas, amores e conexões familiares. A trajetória é ilustrada desde a infância até a velhice da protagonista, com suas devidas transformações pessoas aliadas à viagem no tempo.

A narrativa é não linear, são abordadas as relações entre corpo e natureza, bem como as imagens são com pouca luz, para sinalizar os sentimentos dos personagens. A vida da personagem-central se dá de maneira cíclica, há registros de poucos diálogos e o foco se dá na imersão, ou seja, fazer o espectador se inserir no ambiente da protagonista e fazê-lo ter as mesmas emoções que ela.

O longa tem uma boa proposta, de ser um filme de sentimento e de diálogo entre o som e os gestos das pessoas, mas fica a sensação de um vazio por conta das pontas soltas, não há um conflito e falta profundidade aos personagens. Em dados momentos, há problemas com a câmera, quem deveria aparecer pelo menos em meio plano acaba por ter a cabeça fora da tela, há alguns cortes abruptos e o melodrama, esperado com o espectador, só aparece no desfecho, com uma música incidental.

“Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal” possui uma boa criatividade visual, mas peca no roteiro, que priorizou o visual e com pouca história e conversas. Uma obra com gosto de quero mais.

Cotação: 3/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Última Invocação/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Última Invocação/Cesar Augusto Mota

Os fãs de terror já estão acostumados com alguns subgêneros, como slasher, gore, sobrenatural e psicológico. ‘A Última Invocação’(The Forbidden Play), dirigido por Nakata Ideo e adaptado do romance Kinjirareta Asobi, aborda esses dois últimos e promete trazer ao espectador uma atmosfera carregada e sombria, além de muito horror psicológico.

Acompanhamos a família Ihara, que vive em harmonia até um grave acidente acontecer e tirar a vida de Miyuki. O marido Naoto e o filho Haruto ficam muito abalados, e a esperança do garoto é de conseguir trazer a mãe de volta enterrando um pedaço de seu dedo e rezando todos os dias. Quando a ex-colega de trabalho de Naoto, Hiroko Kurasawa, faz uma visita a ele, uma série de acontecimentos macabros começam a acontecer e uma maldição passa a assombrá-la.

Nakata Ideo é a mente por trás do sucesso ‘O Chamado’, que gerou regravações no Ocidente. O cineasta procura sempre em seus trabalhos ilustrar ambientes perturbadores, sustos repentinos e aparições assustadoras. A trilha sonora utilizada torna o ambiente da família Ihara mais perturbador, a inocência do garoto Haruto se transforma em terror. O realizador costuma trazer narrativas bem amarradas, grandes reviravoltas e referências a clássicos famosos do terror.

A fotografia cinza e a câmera frontal causam desconforto no espectador e já o prepara para grandes sustos. A exploração do sobrenatural e a exposição do caótico ambiente doméstico dos Ihara também são outros ingredientes que fazem de ‘A Última Invocação’ uma grande experiência, com o aspecto psicológico como foco principal, além de um enredo sem pontas soltas e um elenco que faz a história funcionar e desencadear sequências horripilantes.

O terror e o sobrenatural ditam ‘Última Invocação’, uma boa opção para os fãs do gênero, que promete ir além do terror tradicional.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Dia da Posse/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Dia da Posse/Cesar Augusto Mota

O período de isolamento social ao qual nos submetemos entre 2020 e 2022 foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis que experimentamos. Além da preocupação em nos protegermos de uma doença que matou milhões de pessoas, os desafios de nos reinventarmos e de não nos deixar abater também falaram alto. De uma forma leve e bem-humorada, ‘O Dia da Posse’, de Allan Ribeiro, faz uma mistura de documentário com ficção nesse filme autoral distribuído pela Embaúba Filmes.

Brendo (Brendo Washington) sonha em ser presidente da República, mas, enquanto não alcança seu objetivo, estuda Direito, produz vídeos para as redes sociais e se imagina como um participante de reality show, tudo isso em meio à uma grave crise sanitária, causada pela pandemia do Covid-19. O jovem replica esses cenários imaginários e promove debates acerca de questões políticas em meio à monotonia do ambiente doméstico no qual está inserido.

Nesta produção autoral e independente, Allan Ribeiro, que também atua, procurou com sua equipe reduzida realizar importantes reflexões sobre o momento atual do país, o futuro e enfatizar a importância de cada um ter sonhos e nunca perder as esperanças. O filme encanta pela simplicidade, com cenas do cotidiano, e a interação, mesmo que não seja cara a cara, entre Allan e Brendo, o protagonista e corroteirista.

A discussão acerca do que é realidade e ficção acabou por quebrar um pouco o ritmo do filme, mas as cenas em plano fechado, a espontaneidade dos personagens e os temas atuais que apareceram ao longo da história fizeram o público se identificar com Brendo, se conectar a ele e se interessar por uma produção que foi além da exposição do cotidiano. Um filme simples e necessário.

Mesmo em meio a um cenário caótico e preocupante, Allan Ribeiro aproveitou para dar cara a sua produção, com a pandemia servindo como um incentivo e não uma barreira. De uma maneira sensível, mas otimista, ‘O Dia da Posse`é um convite ao entretenimento e à reflexão.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Último Pub/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Último Pub/Cesar Augusto Mota

Conhecido por retratar em suas obras causas e ações humanitárias que visam apoiar classes fortemente afetadas por sistemas políticos opressores, o cineasta britânico Ken Loach está de volta. Após sucessos como “Eu, Daniel Blake” e “Ventos da Liberdade”, o inglês de 87 anos desta vez ilustra o sofrimento e esperança de refugiados sírios por dias melhores em “O Último Pub” (The Last Oak).

TJ Ballantyne (Dave Turner), proprietário de um bar situado em um vilarejo no noroeste da Inglaterra, luta para manter vivo seu negócio em uma área impactada pelo fechamento de zonas mineradoras, provocando um enorme êxodo da população. Diante desse cenário, refugiados sírios começam a ocupar as casas que ficaram vazias, aumentando a tensão e a união dos moradores sendo colocada à prova. Yara (Elba Mari), uma síria com uma câmera fotográfica na mão, começa uma amizade improvável com TJ e o vilarejo é tomado pelo preconceito com os novos moradores.

Não só conflitos entre uma classe mais abastada e outra menos favorecida podemos constatar, mas também um grande embate entre cristãos e islâmicos, com Ken Loach colocando o dedo na ferida, personificada pelas fotos tiradas pela personagem Yara. É construída uma certa polarização, mas cada grupo irá prender a atenção do espectador e vai mostrar ser possível lutar por seus sonhos e manter firmes seus princípios, apesar das adversidades.

A fotografia, com cores quentes, ilustra o ambiente hostil e pesado que os sírios enfrentam, com tomadas de câmera próximas aos rostos dos refugiados. A amizade entre TJ e Yara é o pano de fundo da história, que se torna um combustível para a narrativa se desenvolver e ganhar mais força. As atuações são sólidas, transmitem autenticidade, e não há furos na história. Tudo é bem amarrado, com um impactante clímax e uma solução plausível.

Um filme impactante, forte e necessário, assim pode ser definido “O Último Pub”, que nos mostra ser possível superar tudo, mesmo com o pouco que se tem.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca/Cesar Augusto Mota

Produções de baixo orçamento e voltadas para um público infantojuvenil estão cada vez mais comuns nos últimos anos, principalmente se forem animações e com mensagens importantes por trás. Premiado como o melhor longa Infantil no Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI) e exibido em países como Cuba, Estados Unidos, Índia, País de Gales e Rússia, “Teca e Tuti: Uma Noite na Biblioteca” chega ao circuito nacional não só com o intuito de ser didático, mas o de ser uma aventura inesquecível para as crianças.

Teca, uma pequena traça que mora com sua família em uma caixa de costuras, alimenta-se de papel. Mas tudo começa a mudar quando ela aprende a ler e descobre que os livros não devem ser comidos, pois estes trazem histórias que tanto adora. Ao lado de seu amigo ácaro Tuti, Teca viverá uma grande aventura em uma biblioteca durante uma noite. Disposta a achar sua mãe, ela terá que lidar com grandes perigos e irá se deparar com grandes desafios que vão transformar sua vida para sempre.

As técnicas de stop motion, com uso de fotografias para fazer os bonecos falarem e se movimentarem, aliadas ao live action, não só proporcionaram uma experiência mais lúdica, como também épica para o público, com belas sincronias e representações imagéticas. As interações entre as animações, combinadas com as dos atores reais estimulam o público infantil a se interessar pelas aventuras de Teca e Tuti, como também o de criar o hábito da leitura, cada vez mais crescente nos dias atuais entre os jovens.

O estímulo à imaginação, a transformação do mundo por meio da leitura e a valorização da cultura brasileira se fazem explícitas na obra, o que torna a produção ainda mais brilhante e memorável. Os encorajamentos feitos personagens secundários, como Clarice, a aranha, e o João, o ratão, são outros ingredientes que tornam a jornada de Teca inesquecível. Carismática, sonhadora e doce, ela cresce ao longo da animação e passa a desbravar um novo mundo, graças à leitura, um estímulo para a atual e futuras gerações do nosso país.

Divertido, didático e inspirador, “Teca e Tuti: Uma noite na Biblioteca” vem para conquistar os corações de todos e ficar por muito tempo na memória dos bons apreciadores da leitura e de boas animações.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota