Poltrona Cabine: Máquina do Tempo/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Máquina do Tempo/Cesar Augusto Mota

Filmes sobre a dicotomia passado e futuro, bem como o uso de uma máquina no tempo já caíram no gosto do público, com produções que renderam boas audiências e boas histórias, como ‘De Volta para o Futuro’ e ‘Questão de Tempo’. Mas e se fossem usadas filmagens de época para se construir um enredo que visasse abordar a alteração de acontecimentos marcantes e, consequentemente, o destino de toda a humanidade? ‘Máquina do Tempo’(Lola), de Andrew Legge, usa essa ideia com uma nova proposta, mas a execução foi eficiente?

Acompanhamos as irmãs Thomasina e Martha, durante a década de 40 desenvolvem uma máquina capaz de captar transmissões do futuro. Elas descobrem sobre Bob Dylan, David Bowie e outros, além de importantes mudanças sociais anos antes de ocorrerem. Porém, com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, o uso da máquina passa a ser além do entretenimento, mas de inteligência, para mudar as estratégias e acabar com a guerra.

O uso do found footage, técnica usada para dar a impressão que os personagens estão fazendo as gravações, traz um impressionante resultado estético, uma aura revolucionária e inovadora, além de uma boa montagem e transição entre as cenas. Na medida em que a Segunda Guerra vai chegando aos seus momentos mais tensos há uma separação entre as histórias das irmãs, o que acaba por prejudicar o enredo.

A câmera dos anos 30 e a filmagem em 16mm são os elementos que mais chamam a atenção desta obra, com uma perfeita estética e imagens em preto e branco bem enquadradas, proporcionando grandes emoções aos espectadores. O aspecto negativo fica no desenvolvimento do arco dos personagens, com pouca profundidade, e o foco na estética em detrimento da história.

A experiência de ‘Máquina do Tempo’é impressionante e proporciona grandes emoções, mas fica devendo no quesito história, que poderia proporcionar uma experiência mais memorável. Valeu pela intenção e inovação.

Cotação: 3/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Kayara-A Princesa Inca/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Kayara-A Princesa Inca/Cesar Augusto Mota

A cultura de um povo, com seus usos, costumes e símbolos, são sempre importantes, não só do ponto de vista da informação, como também da significação de uma nação. Mas nem sempre a quebra de uma tradição ocorre com facilidade, levando-se em conta os dogmas e princípios que levaram décadas ou até mesmo séculos para serem consolidados. Nesse contexto, a animação ‘Kayara-A Princesa Inca’ se desenrola com promessa de muita emoção e reflexões pertinentes sobre legado, coragem e resiliência.

Kayara, uma jovem de 16 anos sonha em quebrar uma barreira e ser a primeira mulher a liderar a liga dos mensageiros incas, os Chasquis. Porém, ela terá de enfrentar a resistência do pai e de todo o seu povo, tendo em vista que, via de regra, somente homens poderiam ser líderes de uma comunidade. Disposta a alterar essa regra, Kayara contará com sua coragem, resiliência e terá de enfrentar muitos terrenos perigosos e oponentes para alcançar seu objetivo.

As representações visuais da cultura inca, com os monumentos, armas, roupas e o significado das constelações, que significavam princípios e até mesmo a definição do destino de um ser humano, se dão de maneira autêntica, espontânea e com um bom jogo de luzes, com alternância entre as cores quentes para os confrontos e as frias para momentos de tensão e melancolia.

A luta de Kayara por espaço em uma sociedade patriarcal reflete o atual momento no qual vivemos, com debates acerca do empoderamento feminino, a luta diária por igualdade e afirmação e a superação de barreiras culturais e históricas. A animação não só entretem, como possui um importante papel de abrir os olhos das pessoas e mostrar que o mundo está em constante movimento e transformação, com novas descobertas, conquistas e desafios a serem enfrentados e superados.

‘Kayara-A Princesa Inca’ é uma obra que diverte, inspira, debate e conversa com todos os públicos. Uma animação divertida e necessária.

Cotação: 5/5 poltronas.  

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Lua/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: A Lua/Cesar Augusto Mota

A chegada do homem à Lua foi um marco para a humanidade, na qual foram constatadas novas formas de vida e possibilidades de sobrevivência. Outros astronautas já pousaram no principal satélite da Terra, e neste filme de Kim Yong-hwa, intitulado ‘A Lua’ (The Moon), iremos ver os primeiros astronautas sul-coreanos em busca da glória que os americanos alcançaram há mais de cinquenta anos.

Próximo ao ano de 2030, a Coreia do Sul se vê em uma nova corrida espacial e irá tentar chegar à Lua após sete anos, quando a primeira missão tripulada terminou em tragédia, vitimando três jovens astronautas. Nessa segunda missão, Hwang Sun Woo está no comando de um veículo espacial lunar quando um forte vento provoca uma colisão com um perigo desconhecido. O centro espacial nacional resolve recorrer a seu ex-diretor administrativo, antes afastado por uma polêmica interna, que tentará com sua equipe resgatar Sun Woo antes que uma nova tragédia aconteça.

Em se tratando de ficção científica, espera-se uma narrativa que explore bem o fator psicológico dos personagens, apresente um ambiente que seja capaz de fisgar e inserir o espectador e sons estrondosos capazes de atingir quem está acompanhando o desenrolar da história. Tudo isso acontece nessa produção coreana, além de uma forte exploração dos limites das dores físicas e psicológicas. A questão política é brevemente abordada, e rapidamente superada pelo espírito altruístico de duas nações, Estados Unidos e Coreia do Sul, que se juntam para salvar a vida de um ser humano.

O ritmo da trama é um pouco prejudicado, se dá de forma lenta e nem todos os arcos dos personagens são desenvolvidos, tendo em vista o tempo longo de duração da obra, de mais de cento e vinte minutos. A atuação de D.O, que dá vida a Sun Woo, supre as lacunas da produção, com destaque para as cenas mais arriscadas, com a iminência de desintegração da nave espacial na qual está. As expressões de dor e desespero dão autenticidade e se tornam um grande chamativo para essa ficção científica.

‘A Lua’ surge como alternativa a quem curte filmes que explorem o drama, a ficção científica e com viés político. A Sato Company consegue ilustrar que as produções asiáticas, principalmente as japonesas e coreanas, são capazes de oferecer produtos de qualidade para os fãs de cinema, bebendo da fonte de produções ocidentais, mas sem perder suas essências.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Corpo Presente/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Corpo Presente/Cesar Augusto Mota

A música e o cinema são elementos perfeitos para ilustrar nossos valores, costumes e tudo o que compõe nossa cultura. Além delas, a dança também é sinônimo de expressão, e carrega outras conotações. E justamente para mostrar esses novos significados que acompanhamos o documentário “Corpo Presente”, de Leonardo Barcelos, com o intuito de deleite e, principalmente, reflexão.

Simbolista seria um sinônimo  para essa obra, que apresenta diversos artistas e pensadores com contribuições importantes no campo filosófico, político e social. Performances dotadas de coreografias sincronizadas, o tema “corpo” como pano de fundo, assim como depoimentos sobre o tema propõem um importante debate sobre as várias conotações de corpo, muito além de uma matéria ocupando um determinado espaço.

Temas como luta de classes, identidade e gênero foram não só debatidas como apresentadas por meio da dança, com os corpos sinalizando novas ideologias e signos, e transformações constantes para sinalizar que existem novas formas de ser e de estar no mundo. Novos universos são traçados no imaginário das pessoas, bem como os sentidos que podem desempenhar, com várias sensações e reflexões.

Uma espécie de diário em formato visual se apresenta diante dos espectadores, que não só contemplam, como também se imaginam no ambiente e no contexto dos movimentos articulados, numa sensação de verdadeira imersão. Além de ser didático, o documentário proporciona profundas emoções, além de relações bem conexas, entre imagem, som e movimentos, que juntos, formam uma linguagem múltipla.

Uma obra diferente das apresentadas à exaustão, “Corpo Presente” pensa fora da caixa e convida o espectador a fazer o mesmo. Vale a experiência.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Razões Africanas/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Razões Africanas/Cesar Augusto Mota

A música é capaz de ilustrar não só os sentimentos, mas refletir o comportamento e a origem de um povo. No mês de Consciência Negra, “Razões Africanas”, documentário dirigido por Jefferson Mello, conta a história do Blues, do Jongo e da Rumba, três gêneros musicais oriundos dos Estados Unidos, Angola e Cuba, que representam o culto aos antepassados africanos, a reafirmação da negritude e a influência em outros estilos musicais, como jazz e country. Um verdadeiro tour, com a música sendo um dos grandes legados para manter vivas as tradições africanas.

Seis países foram percorridos para abordar essa herança do continente africano, com três personagens relatando acerca dos respectivos ritmos, o que eles representam para si e toda uma comunidade, além de relatos mais sérios, como toda a escravização e opressão sofrida pelos negros, a presença do Ku Klux Klan e relatos de que a música afro-americana seria anti-cristã.

Um verdadeiro deleite com as músicas, as paisagens retratadas, além do didatismo com os depoimentos de adeptos dos ritmos mencionados e relatos de historiadores acerca da diáspora africana na formação desses gêneros. As músicas ao fundo dos depoimentos é um dos recursos utilizados, assim como as danças nos respectivos palcos que acabam também por se tornarem personagens da obra, sem esquecer de uma abordagem mais séria, com temas que são necessários, como intolerância religiosa, racismo e preconceito.

Quem não conhece ou sabe pouco sobre o Jongo, a Rumba e o Blues, não só se encanta pelas melodias e as letras, como também pelas danças e coreografias, bem articuladas e com vários significados por trás. Além de um deleite, o documentário exerce um papel informativo e de denúncia, desde os porões dos navios, as viagens por terra, os maus-tratos em senzalas até a onda de racismo que impacta nossa sociedade nos dias de hoje. Apesar dos tempos difíceis, as tradições africanas, presentes no Brasil e em várias partes do mundo, resistem e se mostram que ainda estão vivas e que há quem se disponha a mantê-las acesas.

Lúdico, didático e sensível, assim se pode definir “Razões Africanas”, que proporciona um interessante e necessário debate sobre música, preconceito e cultura, tão presentes no nosso cotidiano e que não podem se perder pela ignorância, ojeriza e intolerância. Não deixe de acompanhar, essa produção vem para informar, entreter, impactar e, sem dúvida, ficar na memória. Não deixe de acompanhar.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota