

ENTRE FÉ E QUESTIONAMENTO, A VOZ DE DEUS OBSERVA O CRESCIMENTO DE JOVENS PREGADORES
Documentário de Miguel Antunes Ramos observa jovens pregadores em momentos distintos de suas vidas e constrói um retrato atento às suas escolhas e dilemas

A VOZ DE DEUS, novo documentário dirigido por Miguel Antunes Ramos, estreia nos cinemas brasileiros no dia 16 de abril, com distribuição da Embaúba Filmes.
Filmado ao longo de cinco anos, o documentário acompanha a trajetória de dois jovens pregadores evangélicos em momentos distintos de suas vidas. Daniel Pentecoste foi o pregador infantil mais famoso do país reunindo multidões e projeção nacional, numa época onde os smartphones ainda não estavam tão presentes em nossas vidas. Ao crescer, enfrenta o esvaziamento da fama precoce e a incerteza sobre o futuro. Já João Vitor Ota é um fenômeno atual, que ganhou projeção ainda criança com vídeos de suas pregações nas redes sociais e vive o auge da visibilidade com milhares de seguidores no TikTok e Instagram.
Ao aproximar essas duas trajetórias — o auge e o depois —, o filme constrói um retrato sobre o que permanece e o que se transforma quando a infância se cruza com a exposição pública.
Mais do que registrar um fenômeno religioso, A VOZ DE DEUS observa como a fé, a família e o contexto político atravessam a construção da identidade de dois jovens. Daniel relembra que sua trajetória na igreja antecede qualquer escolha consciente: criado pelo pai após o divórcio, cresceu em um ambiente em que a igreja se tornou refúgio, rotina e horizonte possível. “Como qualquer criança incentivada em um ambiente específico, fui impulsionado por isso”, afirma. No filme, sua história revela não apenas o fato de ter sido transformado em figura pública gospel ainda jovem, mas também o esforço de reinventar a própria vida para além desse lugar.
Hoje em outro momento da sua relação com a igreja, Daniel afirma que sua fé permanece viva, sustentada menos pela rigidez dogmática e mais pela mensagem de amor do evangelho. “Acredito que parei de pastorear dentro da igreja para pastorear na vida”, diz. Atualmente, trabalha com música e educação infantil.
Ao refletir sobre sua trajetória, ele também propõe uma leitura crítica do campo religioso. “Costumo dividir a igreja entre a ‘Igreja da Varanda’, que vê o mundo de cima, de forma dogmática e com a ideia de que sua verdade é a única, e a ‘Igreja do Caminho’, que é a que eu acredito, que está entre as pessoas e entende o mundo como quem faz parte dele”, afirma.

Ao acompanhar Daniel e João Vitor em tempos diferentes de suas trajetórias, o filme também desenha um retrato das mudanças recentes no Brasil. Entre o país dos programas de auditório, DVDs e televangelismo, que marcou a ascensão de Daniel, e o universo das lives, publis e redes sociais que impulsiona João, A VOZ DE DEUS evidencia uma transformação profunda nos regimes de visibilidade e influência.
Para o diretor Miguel Antunes Ramos, no entanto, o centro do filme nunca esteve na espetacularização desses personagens. “O filme recusa essa ideia de uma ‘voz de Deus’ que explica tudo. O interesse está justamente nos tempos mortos, nos silêncios, nas cenas banais do cotidiano”, afirma o diretor. Em vez de reforçar caricaturas ou julgamentos fáceis sobre o universo evangélico, o documentário se aproxima das contradições, dos afetos e das ambiguidades de seus personagens.
Essa escolha faz com que política e religião apareçam não como temas abstratos, mas encarnados nas relações familiares, nos conflitos geracionais e nas expectativas projetadas sobre esses jovens. Daniel, por exemplo, vive um distanciamento em relação ao pai justamente por ter seguido caminhos diferentes dos esperados dentro do ambiente religioso. “Até hoje, meu pai não entende as decisões que tomei de me afastar do meio eclesiástico. Apesar de termos uma relação boa, esse é o grande “elefante na sala” entre nós.”, reflete Daniel.
Com uma abordagem observacional que privilegia a presença e a escuta, A VOZ DE DEUS evita sensacionalismos e propõe um olhar rigoroso e sensível sobre personagens que costumam ser reduzidos a estereótipos. A câmera compartilha o espaço, acompanha hesitações, silêncios e conflitos, revelando como a fé pode ser ao mesmo tempo abrigo, herança, disputa e reinvenção.
Desde sua estreia em festivais, o longa vem sendo reconhecido pela crítica por seu olhar rigoroso e sensível. A VOZ DE DEUS integrou a Competitiva Brasileira do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, onde recebeu o prêmio de Melhor Montagem, além de participar do CineBH – Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte, da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e do Festival de Brasília 2025. Mais recentemente, o documentário conquistou o Prêmio Especial do Júri na seção oficial de documentários do Festival de Málaga, reforçando sua trajetória de destaque no circuito de festivais.
Dirigido por Miguel Antunes Ramos, o filme dialoga com temas recorrentes na trajetória do cineasta, como a observação de grupos sociais, as dinâmicas de poder e as relações entre indivíduo e contexto. Em A VOZ DE DEUS, esses elementos ganham uma dimensão temporal inédita em sua obra, acompanhando ao longo dos anos a formação — e a reinvenção — de figuras públicas ainda em idade de descoberta.
SINOPSE
Duas crianças pregadoras buscam o caminho para uma vida melhor por meio da fé. Daniel Pentecoste foi o pregador infantil mais famoso do Brasil, mas conforme cresce enfrenta a frustração de um futuro incerto. João Vitor está no auge, com um milhão de seguidores. Entre lives e smartphones, prega para multidões. O filme revela as infâncias escondidas sob a construção de duas figuras públicas, oferecendo uma reflexão sobre um Brasil em transformação, em que política e religião frequentemente se confundem.
FICHA TÉCNICA
A VOZ DE DEUS (2025) – 85’
Direção: Miguel Antunes Ramos
Roteiro: Miguel Antunes Ramos, Alice Riff
Produção: Nicholas Bernstein
Produtoras: Corisco Filmes, Intropia Media
Distribuição: Embaúba Filmes
Montagem: Yuri Amaral
Fotografia: Alice Andrade Drummond, Léo Bittencourt
Som: Jonathan Macías, Tomás Franco, Rafael Veríssimo
Desenho de Som: Fernando Henna
Trilha Sonora: Arthur Decloet, Kiko Dinucci
País: Brasil / Espanha
SOBRE O DIRETOR
Cineasta brasileiro cujo trabalho explora a transformação de paisagens urbanas e a persistência da violência histórica. É formado em audiovisual pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA–USP). Realizou, entre outros, os curtas-metragens “Um, Dois, Três, Vulcão” (2012), “Salomão” (2013), “E” (2014), “A Era de Ouro” (2014), “O Castelo” (2015) e “Comissão de Vendas” (2016), apresentados em festivais como os de Roterdã, Toulouse e Oberhausen e premiados em diversos festivais no Brasil. Realizou também os longa-metragens documentais “Banco Imobiliário” (2016) “Filhos de Macunaima” (2019) e “A Flecha e a Farda” (2020).
