“Nada há encoberto que não haja de ser descoberto, nem oculto que não haja de ser sabido. Tudo o que em trevas dissestes, à luz será ouvido, e o que falaste ao ouvido no interior da casa, sobre os telhados será apregoado.” (Lucas 12: 2,3). Essa passagem bíblica inserida na tela logo no começo da projeção já dá o tom do que vai acontecer em ‘O Enigma da Rosa’ (Bajo La Rosa), suspense espanhol de Josué Ramos, que traz um drama vivido por uma família de classe média, além dos segredos que cada membro esconde e que precisam a todo custo ser revelados.
A história se inicia com a pequena Sara (Patricia Olmedo), de 10 anos, que escondera de seus pais o boletim com uma nota baixa em matemática, sendo duramente repreendida por Julia (Elisabet Gelabert), sua mãe, que a castiga com a retirada de seu celular e sem poder sair de casa. Atrasadas para a escola, ambas saem às pressas, e logo no início da tarde a família é surpreendida com a demora da filha e o recado da diretoria de que Sara sequer foi à aula. Julia; Oliver (Pedro Casablanc), o pai; e Alex (Zack Gómez), o irmão mais velho, partem em busca de notícias, mas os dias passam e a angústia só aumenta por não saberem nada sobre o paradeiro de Sara. E eis que surge uma carta de alguém que diz tê-la sequestrado e que tem um claro desejo: falar com a família naquela mesma noite.
O roteiro apresenta ao espectador uma trama envolvente, que ilustra dor, apreensão e angústia de uma família por ver um membro em perigo de vida, além de elementos interessantes no que concerne à cultura medieval trazidos para os dias atuais. O título original, ‘Bajo La Rosa’, seria traduzido literalmente como ‘Sob a Rosa’, e, segundo a tradição, a rosa vermelha era inserida nos tetos das salas de reuniões e indicava que se existisse esse símbolo acima das cabeças das pessoas, os assuntos deveriam ser mantidos em segredo. E junto à carta que a família recebe, está a foto de uma rosa vermelha, que simboliza os segredos que aquelas pessoas guardam e precisam ser revelados. E ao se depararem com um homem de vestes escuras que diz estar com Sara e exige que todos falem a verdade, ele propõe um acordo inusitado: quem tivesse algo a dizer, deveria estar de frente para os demais e no fim pagar por seu erro com algum castigo, seja estabelecido por si mesmo ou pelo homem de preto.
Na medida em que as horas passam, o drama vai só aumentando, e a ansiedade de todos também, dos personagens e de toda a plateia que acompanha a narrativa. O que cada personagem revela não só surpreende como também causa espanto e também repulsa, a depender do que é contado. E, além disso, os castigos que cada um recebe chocam, um em grau mais branco e os outros cada vez mais cruéis. A forma como a história é conduzida e como as dores de cada personagem são trabalhadas mantém o interesse do público, que quer saber um pouco mais sobre cada um deles antes de descobrir o que o homem de preto quer de fato ouvir para cumprir sua parte do trato, de trazer sã e salva a pequena Sara.
A profundidade dada à história, com três pessoas de personalidades distintas, mas bastante complexas, enriquecem a narrativa, com um adequado e equilibrado estudo sobre a personalidade humana, suscetível a vulnerabilidade, com mentiras e a facilidade de manipulações. E tudo isso perfeitamente bem conduzido pelo homem de preto (Ramiro Blas), que, mesmo exposto, conseguiu não só extrair tudo o que queria de suas vítimas, mas trazer grandes revelações ao público. A reviravolta que a trama dá é espetacular, e um grande segredo acaba por abalar a todos, e faz mudar o panorama em relação a um dos personagens, antes tido como inofensivo e passa a ter a reprovação de todos.
Com uma história angustiante, perturbadora e personagens controversos, ‘O Enigma da Rosa’ consegue fisgar a plateia e inseri-la em uma atmosfera sufocante e num caminho quase que sem volta. Por mais dura que possa ser a verdade, ela, mais cedo ou mais tarde, acaba por vir à tona. E não à toa que esta obra recebeu pouco mais de 30 prêmios pelo mundo e tem tudo para alcançar muito mais, com sua narrativa bem construída e seus personagens convincentes e autênticos.
Cotação: 4,5/5 poltronas.
Por: Cesar Augusto Mota

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