Poltrona Cabine: Quem Você Pensa que Sou/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Quem Você Pensa que Sou/ Cesar Augusto Mota

O processo de envelhecimento pode ser complicado para algumas pessoas, ainda mais nos dias atuais. Afinal, não é fácil ouvir tantas vezes frases como ‘quando você era jovem, tinha mais vitalidade’, ou então, ‘você é velho demais para isso’. Agora, com o advento das redes sociais, surge uma nova barreira que separa os jovens das pessoas de mais idade, seja pela resistência de alguns mais velhos em aderir a novas tecnologias ou pelo fato da juventude não querer adicionar e se relacionar no Facebook e Twitter com pessoas acima de sua faixa etária. E justamente esse tema, tão delicado, será abordado no novo filme de Saffy Nebbou (Dumas), ‘Quem Você Pensa que Sou’ (Celle que vous croyez), com uma protagonista que tem um desejo que se faz claro logo no início da trama: sentir-se novamente jovem.

Claire Millaud (Juliette Binoche) é uma professora de literatura de sucesso no meio acadêmico, divorciada e com dois filhos, mas que sente a necessidade de ter alguém em sua vida. No início ela se relaciona com o jovem Ludo (Guillaume Gouix), mas ele se recusa ser apresentado à família dela, o que gera insatisfação em Claire. Após levar um fora dele, ela entra em depressão, passa a questionar se ainda é possível encontrar a felicidade, apesar de se achar velha, e resolve criar um perfil fake no Facebook para tentar chegar até Ludo. A partir daí surge uma espécie de alter ego, Claire Antunès, mas ela acaba adicionando o colega de Ludo, Alex (François Civil). Ela de início não se interessa por ele, mas resolve se passar por uma jovem de 24 anos e tudo sai dos trilhos, pois uma simples adição em uma rede social passa a se tornar algo mais sério, mexendo com a cabeça de ambos e criando situações dramáticas e quase que sem saída.

A história levanta pontos interessantes, o da construção da personalidade e como nos apresentamos ao mundo nas redes sociais. Claire deixa claro que não aceita a velhice e aponta que a sociedade trata com desdém as pessoas de mais idade, o que fica claro em uma cena na qual dança loucamente em uma festa e os convidados a desprezam. Ela sente a necessidade de nadar contra a maré e resolve se apresentar como outra pessoa na internet. Mas ser jovem no mundo online vai pelo menos trazer um pouco de paz a Claire e ela vai conseguir segurar as pontas com um rapaz que mal conhece e por quem se apaixonou instantaneamente? Essas perguntas são respondidas com um enredo que mistura drama, suspense e bom humor.

A construção das diversas facetas de Claire são bem traçadas ao longo da trama, e se dá durante as consultas da protagonista com sua terapeuta (Nicole Garcia), que faz um profundo estudo de sua mente e essa análise é boa para mostrar como nosso cérebro funciona e como nos comportamos, afinal, todos sentimos frustrações, mentimos, avançamos e atropelamos as coisas, sem respeitar o devido tempo. E com as contínuas consultas, percebemos que Claire vive em mundos paralelos, o real, no qual vive prostrada e sem saída, e o da fantasia, no qual se liberta e vê a chance de alcançar a felicidade. E ao longo da narrativa, surgem revelações acerca do passado de Claire, da vida de Alex, comportamentos controversos e uma impressionante reviravolta, que faz o espectador pensar que está tudo acabado, mas é só mais um ingrediente para mostrar o quanto o mundo virtual é complicado e é capaz de coisas que nem imaginamos.

Nebbou não se limitou a uma história clichê, de relacionamento entre mulher mais velha e rapaz jovem, ele resolve ir além, pois o insere em um contexto atual, que engloba um mundo em que todos temos os passos vigiados e necessitamos sempre da aprovação dos outros para nos sentirmos bem, seja por uma curtida em uma foto, um compartilhamento ou um comentário. E a história funciona graças a boa escolha de elenco, que tem uma atriz de sucesso (Binoche) que se entrega de cabeça ao seu papel e um jovem ator do cinema francês (Civil) cada vez mais em ascensão. Ingredientes certos, bem utilizados e com um bom produto no final, apesar do desfecho escorregar um pouco e mostrar um desvio de conduta da terapeuta, vivida por Garcia, que claramente viola o Código de Ética de sua profissão, algo que poderia ser alterado ou até mesmo excluído do roteiro.

‘Quem Você Pensa que Sou’ é profundo, filosófico, moderno e necessário a todos, sejam jovens, adultos ou idosos. Uma obra que serve de sinal de alerta para a maneira como nos portamos e nos apresentamos aos outros, seja no mundo real ou virtual.

Cotação: 4/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

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