Poltrona Cabine: Camocim/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Camocim/ Cesar Augusto Mota

Um filme que é o retrato da sociedade brasileira, na qual os cidadãos só se interessam por política e apenas se mobilizam em tempos de eleição. Assim é ‘Camocim’, novo longa de  Quentin Delaroche, que ilustra a disputa por poder em um município pernambucano, com o local dividido entre eleitores adeptos do azul e outros do vermelho, cenário semelhante visto nas últimas eleições gerais no país.

A narrativa se passa em Camocim de São Félix, interior de Pernambuco, no período de eleições municipais. A jovem Mayara Gomes, 23 anos, está bastante motivada e muito engajada na campanha do amigo Cesar Lucena, que tenta se eleger vereador do município. A campanha está bastante parada, em comparação com a disputa pela prefeitura, mas ela se mostra bem apegada ao objetivo de ajudar Cesar e firme em seus ideais, mesmo que esteja sozinha em alguns momentos da trama e não consiga convencer tantos eleitores de que a participação de cada um pode ser decisiva e que é necessário seriedade em tempos de mudança.

O roteiro não se limita apenas em mostrar a campanha eleitoral, mas também de mostrar os bastidores, a intimidade da protagonista, bem como fazer um panorama do comportamento da juventude atual, seus interesses, o quão estão antenados ou não com os problemas locais e do país, além de destacar a polarização do município, com comícios, micaretas, carros de som e alguns entreveros quando os grupos azul e vermelho se encontram, em um clima de quase uma guerra civil.

Tudo que é retratado parece ficção, mas um espelho do que é a política brasileira, com muitos humildes mobilizados com discursos populistas, cabos eleitorais e funcionários do Estado preocupados em manter seus empregos e pessoas esperançosas com um futuro melhor, caso de Mayara, embora o cenário atual, com os atuais governantes e a participação ativa (ou não) dos cidadãos no cotidiano de Camocim de São Félix não contribua para isso. Um filme necessário e apropriado para o momento atual em que vivemos, que serve de incentivo e alerta para a população, que um voto faz diferença, e o conhecimento acerca da realidade é crucial para presente e futuro de uma nação.

Não deixe de assistir ‘Camocim’, apesar do período curto de duração e do ritmo lento, quem acompanha se identifica com ele e vê congruência entre ficção e realidade. Um excelente exercício.

Cotação: 3/5 poltronas.

Poltrona Cabine: O Banquete/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Banquete/ Cesar Augusto Mota

Que tal um drama brasileiro que se apoia em um momento importante vivido na política nacional e um filme representado por algumas figuras, semelhantes a peças de um tabuleiro de xadrez, cujo jogo se altera na medida em que são movimentados? ‘O Banquete’, novo filme de Daniela Thomas, trata dos dilemas de nossa sociedade e as barbáries que os permeiam a cada dia, e a posição quase impotente que assumimos diante das poucas alternativas que temos na política e a falta de soluções para nossos problemas.

O longa consiste em apresentar ao espectador uma narrativa composta por diálogos, com uma diretora de um jornal, um colunista, um advogado, uma atriz, o povo (personificado por um garçom) e uma crítica de arte, com a câmera próxima aos seus rostos, com conversas que vão desde a sexualidade à Filosofia. O momento histórico mencionado acima refere-se aos anos Collor, durante a “lei da imprensa” que trataria de artigos contrários ao governo como motivos que levariam a prisões. E o fato específico é o que teria acontecido na noite anterior à iminente prisão do então diretor de redação de importante jornal de São Paulo após a publicação de uma Carta aberta na capa assinada por ele ao presidente Color de Mello,   posteriormente o processa e culmina na ameaça de prisão imediata do jornalista, que sem curso superior completo seria enviado para o Carandiru.

A proposta de apresentar ao público o mal-estar da classe artística e também da jornalística contra abusos cometidos por regimes opressivos é válida, mas não ilustra a origem deles e tampouco maneiras de como eles poderiam ser combatidos. O uso em excesso de expressões chulas e algumas falas com cunho sexual poderiam até causar desconforto, mas a intenção é de ver os personagens se digladiarem e depois passar por uma catarse, com transformações impressionantes dos personagens.

Dentre as atuações, Caco Ciocler impressiona na figura do triste e amargurado advogado, Gustavo Machado que vê todos da mesa de maneira irreverente, além de Chay Suede, o garçom sedutor, solícito e eficiente. No núcleo feminino,Drica Moraes, Mariana Lima e Fabiana Gugli vivem suas personagens no limite, e Bruna Linzmeyer, a sedutora que vai provocar os acontecimentos mais contundentes da trama. O elenco foi bem escolhido e todos se entregam aos seus personagens, com interpretações sérias, provocadoras e com algumas doses de humor nos momentos menos tensos. Um filme necessário e que se encaixa no momento atual vivido por nós brasileiros.

Além de provocante e tenso, ‘O Banquete’ é encorajador, e transmite uma importante mensagem, de que é preciso ter iniciativa, coragem e atitude, caso você queira mudar alguma coisa. Vale assistir.

Cotação: 3/5 poltronas.

Poltrona Cabine: Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas/ Cesar Augusto Mota

Levar para o cinema uma série animada voltada para o público infantil e adaptá-la para a tela grande parece ser uma proposta interessante, não é mesmo? “Os Jovens Titãs em Ação!” é um grande sucesso do Cartoon Network entre a garotada e que agora chega aos cinemas não só para diverti-los ainda mais, como também para chamar a atenção dos adultos, com referências e piadas com os ícones do Universo DC. Mas será que essa fórmula foi eficaz?

“Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas”, dirigido por Aaron Horvath e Peter Rida Michail, nos traz Robin, Ciborgue, Ravena, Estelar e Mutano, uma turma divertida e carismática, mas que não é conhecida do grande público e tampouco levada a sério, principalmente pelos outros super-heróis da DC, dentre eles o Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha. E para piorar, eles não são considerados super-heróis, não só pela falta de popularidade, como também por não possuírem um arqui-inimigo que pudessem confrontar. O sonho dos Titãs é ter seu próprio filme e ganharem ainda mais notoriedade, e eles não medirão esforços para tal, principalmente Robin, disposto a sair da sombra de Batman, seu mentor.

O roteiro prima por mostrar uma história cheia de ação, piadas bobas e fazer claras referências aos grandes personagens DC, além de tirar um pouco de sarro deles e também dar algumas alfinetadas no concorrente, o Universo Cinematográfico Marvel, com a aparição de um importante ícone. A apresentação dos Titãs já mostra o que estaria por vir, com anedotas sobre flatulências, números musicais com melodias que iam do rap ao techno, além de grandes trapalhadas da trupe. O desejo de Robin também falava alto, de estrelar seu próprio filme, uma verdadeira obsessão, e seu espírito de liderança e carisma foram determinantes para que seus companheiros e amigos comprassem a ideia, além do forte laço de amizade construído entre eles. O clímax chama a atenção de todos, além do forte salto que a história dá rumo ao desfecho, o de salvar o mundo do terrível Slade, o manipulador de mentes.

Temos uma premissa interessante, personagens simpáticos e a animação é perfeita visualmente, porém o ritmo um pouco acelerado, tamanhos os elementos que se apresentam, mas nada que prejudique a obra, que segue o mesmo padrão do Cartoon Network.  Destaque também para o trabalho de dublagem e de tradução, que mantiveram o filme acessível para todas as idades, além de piadas e jargões bem brasileiros, proporcionando ainda mais diversão para o público.

Não perca “Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas”, uma animação exageradamente engraçada e que lembra um pouco os filmes de Zack Snyder, séria em momentos específicos, mas capaz de proporcionar diversão. Vale a pena.

Cotação: 3,5/5 poltronas.

Poltrona Cabine: Te Peguei!/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Te Peguei!/ Cesar Augusto Mota

Sabe aquela comédia nonsense que proporciona risos o tempo todo? E de quebra baseada em uma história real e recheada de frenéticas cenas de ação? Assim é ‘Te Peguei’ (Tag), filme dirigido por Jeff Tomsic (Broad City), com roteiro baseado em um artigo publicado em 2013 no Wall Street Journal e adaptado para as telonas por Rob McKittrick (A Hora do Rango) e Mark Steilen (Mozart In The Jungle). O longa chega com a intenção de entreter e com a premissa de que vale tudo para vencer em um jogo que já dura décadas.

A trama traz um grupo de cinco amigos, Jerry Pierce (Jeremy Renner), Hogan “Hoagie” Malloy (Ed Helms), Bob Callahan (Jon Hamm), Kevin Sable (Hannibal Buress) e Randy “Chilli” Cilliano (Jake Johnson), que se reúne sempre no mês de maio para dar continuidade a um jogo de pega-pega que iniciaram quando ainda eram crianças, mais precisamente quando tinham nove anos. Após trinta anos, cada um seguiu um rumo diferente, mas inspirados pelo lema “nós não paramos de brincar porque envelhecemos, mas envelhecemos porque paramos de brincar”, eles ainda se encontram para manter viva a tradição. O jogo do ano coincide com o casamento de Jerry, o único do seleto grupo que ainda não foi pego. Hoagie tem um objetivo em mente, o de finalmente pegar Jerry, que planeja se aposentar após este ano, a fim de manter seu recorde perfeito e considera o matrimônio o momento ideal para acabar com a invencibilidade do amigo.

A história real que é dramatizada é interessante, recursos como cenas em slow motion e alguns monólogos internos são utilizados para tornar a brincadeira ainda mais dinâmica e manter a atenção do espectador. O roteiro foge da previsibilidade e investe na criatividade ao colocar diversas situações que os amigos passam para poder dar continuidade ao pega-pega, vale até mesmo blefar para poder pegar o companheiro desprevenido. E situações até mesmo de perigo são introduzidas para ilustrar que o grupo de amigos leva mesmo a brincadeira a sério e que vale a pena não só se divertir, mas também estar junto. Os atos da narrativa são bem distribuídos, os personagens são carismáticos e desenvolvidos sem rodeios. As ações, do meio para o fim, são exageradas, mas nada que prejudique a proposta do longa, de divertir e arrancar risos.

O elenco é outro ponto alto, principalmente os personagens de Jeremy Renner e Ed Helmes. O primeiro por mostrar um homem esperto e destoante do grupo, isso por saber defesa pessoal, ter um porte atlético e uma inteligência elevada. Já o segundo lembra o protagonista de ‘Se Beber não Case’, um personagem caricato, líder do grupo e ao mesmo atrapalhado, mas capaz de cativar a todos. O núcleo feminino, apesar de ter pouco espaço na trama, também tem seu brilho. Isla Fisher chama a atenção como Anna, uma mulher intensa, extravagante e principal motivadora de Hoagie e o grupo. Além dela, Leslie Bibb, a Susan, a noiva de Jerry, protagoniza momentos hilários, principalmente em um momento que antecede o casamento e que mexe com os brios de todos. Para finalizar, Annabelle Wallis também ganha importância como Rebecca, a repórter do Wall Street Journal, disposta a encontrar uma grande pauta e peça-chave para que a narrativa evolua e encampe para um desfecho surpreendente.

Se você curte um filme de narrativa simples, divertida e quer rir para valer, ‘Te Peguei’ é o ideal para você. Assista e se divirta muito!

Cotação: 4/5 poltronas.

Poltrona Cabine: Escobar-A Traição/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Escobar-A Traição/ Cesar Augusto Mota

A cinebiografia é um dos grandes atrativos para os cinéfilos, não só por contar uma história real, mas também por mostrar a amplitude e a importância do personagem central em um contexto social. E a bola da vez está com Pablo Escobar, o mais temido traficante do mundo, que já foi chefe do poderoso e forte cartel de Cáli e que manteve um relacionamento perigoso com a jornalista mais famosa da Colômbia, Virginia Vallejo. ‘Escobar: A Traição’ (Loving Pablo) é o mais novo filme do cineasta espanhol Fernando León de Aranoa, que também roteiriza o longa, e traz no elenco estrelas como Javier Bardem e Penélope Cruz.

Inspirado no best-seller de Virginia Vallejo, “Amando Pablo, Odiando a Escobar”, a trama conta com a narração em off de Virginia (Cruz), revelando suas impressões de Hacienda Nápoles, local suntuoso e erguido com as riquezas de Escobar  (Bardem). No local, ela conhece o protagonista, bem como seus planos para o futuro do país e sem dar importância para a origem do dinheiro, nasce um romance. E a partir daí, a vida de Virginia Vallejo vai do céu ao inferno, sofrendo ameaças e sendo alvo de um atentado, que quase a vitimou.

Além de explorar o drama vivido por Virginia, o roteiro não poderia esquecer de retratar as fases mais impactantes e a dimensão do estrago causado por Escobar, como a criação do Cartel de Medellín, a explosão do avião da Avianca, os sicários e os assassinatos em La Catedral. Os fatos retratados são concernentes aos últimos 10 anos de vida de Escobar, que mesmo apoiado por grandes comparsas e praticamente ter a Colômbia na palma de sua mão, um dos méritos de Aranoa foi também mostrar o lado vulnerável e amoroso do personagem central, tendo a família como sua fortaleza e também seu ponto fraco.

A ambientação da época na qual ocorreram os principais acontecimentos que colocaram Escobar em evidência e puseram a Colômbia em colapso é feita de forma cuidadosa, com as filmagens realizadas na própria Colômbia e nos locais reais onde os confrontos com a polícia aconteceram, e isso consequentemente traz mais autenticidade e credibilidade ao filme. O que pesa contra foi o uso da língua inglesa durante a projeção, tendo em vista que a produção é espanhola e búlgara, com atores espanhóis interpretando latinos e em território sul-americano, o que não faz muito sentido.

E nas atuações, temos avaliações díspares. Javier Bardem cumpre bem seu papel como Escobar, conferindo ao personagem um caráter menos jocoso e um pouco mais humanizado, mostrando seu caráter frio, sombrio e também inseguro, pois todo o seu império poderia cair a qualquer momento, mesmo que muito bem assessorado e com todo o armamento em mão. Já Penélope Cruz, mesmo sendo uma atriz de alto nível, teve seu desempenho na trama um pouco prejudicado, não por lhe faltar competência, mas o roteiro que não deixou claro se Virginia era vítima ou cúmplice de Escobar. Nem mesmo com o desfecho da história isso fica claro para o espectador.

Apesar de algumas falhas técnicas, ‘Escobar: A Traição’ é capaz de mexer com os brios dos espectadores mostrando não só a face de uma das figuras mais controversas da América do Sul, que já fez barulho em outros países, inclusive nos Estados Unidos, e ilustrar que o dinheiro pode corromper os mais poderosos. Um ótimo exercício para o cinéfilo, vale assistir.

Cotação: 3,5/5 poltronas.