Poltrona Cabine: Nasce Uma Estrela/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Nasce Uma Estrela/ Cesar Augusto Mota

Todo artista em início de carreira precisa provar para si mesmo que possui talento, acreditar nele e ir à luta. E talento não está só na habilidade, mas também se tem algo diferente a dizer. Com essas palavras, ditas pelo personagem Jackson Maine, é iniciado o longa dirigido por Bradley Cooper, ‘Nasce Uma Estrela’ (A Star is Born), que conta com sua própria atuação, além da estrela musical Lady Gaga.

Gaga interpreta Ally, uma jovem que trabalha em um restaurante para pagar suas contas e sonha em ser uma cantora de sucesso. À noite, canta em um clube noturno e em uma de suas apresentações, ela conhece Jackson Maine (Cooper), um grande astro da música de carreira consolidada. Ao perceber na moça grande talento e aptidão para a carreira musical, Maine resolve ajudar Ally, chamando-a ao palco em um de seus shows, realizando um fascinante dueto e arrancando aplausos da plateia. E isso foi só a largada para que Ally começasse a alçar voos mais altos até chamar a atenção do empresário Rez (Rafi Gavron). Na medida em que a carreira de Ally vai crescendo, Jack vai entrando em declínio, perdendo a batalha contra o alcoolismo e o vício em drogas. Apaixonados, os dois tentam se apoiar, mas tudo acaba se complicando ainda mais que o previsto.

Temos uma belíssima história, de altos e baixos, com  Cooper focando nas relações íntimas dos intérpretes, e não propriamente na carreira musical. As palavras de Ally e Jackson são envolventes, emocionantes e movimentam a trama. Os momentos opostos vividos pelos protagonistas mobilizam a plateia, com Jack sofrendo para vencer seus vícios e Ally na expectativa de se consagrar de vez como estrela pop, mas antes tentando superar ao lado de Jack o drama vivido por ele.

Não só a narrativa impressiona, mas o talento de Cooper como cantor e compositor demonstrado durante a projeção, os timbres de voz alcançados por Lady Gaga e o desenvolvimento complexo dos personagens. Nos momentos dramáticos, Cooper escorrega um pouco, mas não compromete o andamento e a essência da história. Já Lady Gaga mostra que sua performance como Ally foi a melhor de sua carreira, e não seria exagero dizer que ela tem chance de conseguir uma indicação ao Oscar, tamanho foi o bom retorno que sua participação no longa teve entre imprensa e espectadores.

O plano fechado usado para destacar as emoções dos personagens, bem como o aberto para detalhar os artistas e o público dão uma perfeita profundidade das cenas,  realçadas com cores vermelhas para ilustrar a intensidade e o frenesi das apresentações. A direção de fotografia, de Matthew Libatique, acerta a mão e entrega ao espectador um resultado espetacular, aliado às competentes atuações dos protagonistas e do elenco secundário.

Como estreante na direção, Bradley Cooper não faz feio e traz ao público um filme sensível,  de grandes números musicais e lindas mensagens transmitidas nas letras das canções. “Nasce Uma Estrela” tem muito a nos dizer,  é muito mais que um remake.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Um Dia/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Um Dia/ Cesar Augusto Mota

Quem acorda desde cedo para trabalhar e cuida de uma família numerosa tem dias regados a milhares de emoções, não é mesmo? E o que você acharia se essa rotina fosse reproduzida na tela grande para causar a impressão de que as ações de prolongam por dias e meses, mas na verdade tudo ocorre em apenas um dia? Um Dia’, filme húngaro de 2018 e sob a direção de Zsófia Szilágyi, apresenta essa sequência com muita sensibilidade e para causar bastante comoção a quem for assistir.

Anna (Zsófia Szamosi) é uma mãe dedicada, que divide sua rotina de trabalho como professora para cuidar dos três filhos pequenos, além das tarefas domésticas com o marido Szabolcs (Leo Füredi). O que poderia ser muito comum ao espectador e até banal se transforma em algo mais intenso e profundo na medida em que notamos um ar de ansiedade e angústia em Anna para vencer suas tarefas diárias, e esse tom perturbador graças à câmera colada à seu rosto e acompanhando sua movimentação pelos cenários.

O que dá o tom da trama, mesmo que ela não apresente tantos conflitos, é o conjunto de expressões faciais de Anna, com olhar distante e sensação de frustração e impotência, mesmo que o semblante fechado possa significar calma. Anna passa não só por um frenesi causado pela enorme quantidade de atividades, mas por uma séria crise de seu casamento e a sensação de não ter para onde correr, causando muita angústia no público, que compra seus sentimentos e as situações que enfrenta.

O mérito da diretora Zsófia Szilágyi é abordar com esmero os dilemas e as sensações vividas em um cotidiano marcado pela agilidade e ânsia por resultados imediatos, além de uma sociedade cada vez mais consumista e exigente. Valores morais, matrimoniais e os princípios educacionais são também bem abordados, com a apresentação de uma mãe carinhosa para com seus filhos, mas enérgica quando necessário, além da importância do papel do pai no seio familiar. Se no matrimônio o marido de Anna tem condutas questionáveis, ele exerce muito bem sua função de chefe de família.

Um longa sensível, comovente e que rompe o trivial. ‘Um Dia’ é um espelho do que é o papel de mãe, de ser capaz de realizar uma série de tarefas, mas sem perder o foco.

Cotação: 4/5 poltronas.

Poltrona Cabine: Tudo Por Um Popstar/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Tudo Por Um Popstar/ Cesar Augusto Mota

Até onde você estaria disposto a ir para chegar perto de seu ídolo? Fãs de carteirinha de uma famosa banda teen, Gabi (Maisa Silva), Manu (Klara Castanho) e Ritinha (Mel Maia) vão mostrar do que são capazes para conhecer os garotos da “Slava Body Disco Disco Boys” , representados por Slack (João Guilherme), Michael (Victor Aguiar) e Julius (Isacque Lopes). ‘Tudo por um Popstar’, nova comédia teen dirigida por Bruno Garotti e baseado no livro homônimo de Thalita Rebouças é a nova aposta para levar o público infanto-juvenil para as salas de exibição e mostrar que o gênero comédia também alça voos e repercute entre os jovens.

As vidas de Gabi, Manu e Ritinha são regadas de muita alegria, com as três sempre juntas, cantando as músicas da boy band preferida delas e compondo canções declarando o amor delas por seus ídolos. Mas tudo começa a mudar quando elas ficam sabendo que o grupo avisa nas redes sociais que vai fazer um show no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Obviamente, a emoção toma conta e elas explodem de alegria, mas terão que enfrentar alguns empecilhos para ver o sonho realizado: a distância para a capital carioca, tendo em vista que moram no interior, além da tentativa de convencer seus pais severos e controladores, bem como obter os ingressos para o evento. E eis que entra Babete (Giovanna Lancellotti), prima de Manu, uma jovem vegetariana e um tanto excêntrica, disposta a mostrar que é uma adulta responsável e capaz de cuidar das três meninas. Babete se oferece para levá-las para a Cidade Maravilhosa e lá encontram outros contratempos, levando-as para uma aventura épica.

O roteiro toca em assuntos atrativos e ainda atuais, como a paixão de adolescentes por talentos jovens, o culto à imagem e a propagação delas com o auxílio das redes sociais. As três protagonistas não só curtem tudo o que diz respeito à banda, como também fazem questão de deixar explícita a idolatria que possuem pelos rapazes, além de afirmarem que se veem representadas por eles, pois são jovens e realizaram o sonho deles por meio de algo que gostam, a música. A cultura do fã é bem abordada na trama, assim como a confiança e o respeito que devem existir na relação entre pais e filhos. E os conflitos nos quais Manu, Ritinha e Gabi se envolvem não só colocam em risco o convívio delas com seus familiares, como também a integridade física das meninas. E para alcançarem a glória almejada, elas enfrentam as situações das mais inusitadas, além das gozações e da inveja de colegas rivais, que também vão ao show dos “Slava Body Disco Disco Boys”.

A diferença de personalidade de cada protagonista faz uma completar a outra e valorizar o espírito de grupo e o real valor da amizade. Gabi é o cérebro; Manu, a sonhadora; e Ritinha, a insegura. Porém, uma apoia a outra e o mesmo sentimento que todas possuem, o de adoração à Slava Body Disco Disco Boys” as move pela narrativa a buscar seu sonho maior, e sempre fortalecendo os laços de amizade, que não devem ser quebrados, segundo as três. As atuações são satisfatórias e cumprem bem o que está no roteiro, o de levar uma grande aventura para o público e de cativá-lo com o carisma das três meninas e o espírito de força e luta delas contra todas as adversidades. E o elenco secundário proporciona momentos hilários e grandes viradas, principalmente Giovanna Lancellotti, a prima louca que vai ser uma espécie de elo de ligação entre as garotas e a banda, além de ser um combustível na jornada épica de Ritinha, Manu e Gabi. E menção também para Felipe Neto, o famoso youtuber, que interpreta um papel similar ao que ele é na vida real, um influenciador digital que vai por muita lenha na fogueira durante a história, além de mostrar um lado não antes conhecido por seus seguidores.

‘Tudo por Um Popstar’ é uma grande opção de entretenimento para o público jovem e com mensagens importantes, como os grandes momentos que podem e devem ser vividos ao longo da vida, além da busca incessante pela consumação de um determinado objetivo, sem hesitar em desistir. Não é apenas uma comédia teen, é um longa que tem uma história a ser contada e que pode tocar o coração de muitas pessoas, seja qual for o sonho que tenha na vida. Vale todo o sacrifício e provações, e quem está focado em algo não deve desistir jamais. O filme é bom e vale por tudo isso.

Cotação: 3,5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Mare Nostrum/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Mare Nostrum/ Cesar Augusto Mota

Uma obra que acena para a fantasia e a alia a um mundo real cercado por problemas pessoais, principalmente no aspecto financeiro. Uma premissa interessante, e o filme sendo feito de maneira alegórica, com uma fotografia que permite separar a realidade da ficção. Assim é ‘Mare Nostrum’, novo filme de Ricardo Elias (Os 12 Trabalhos), mas será que ele alcança um bom resultado?

A narrativa nos apresenta Roberto (Silvio Guindane), um jornalista esportivo que viveu na Espanha por muitos anos e retornou ao Brasil devido à crise econômica, sem emprego e perspectivas.  Do outro lado, Mitsuo (Ricardo Oshiro) trilha o mesmo caminho de Roberto, ao viajar para o Japão em busca de melhores condições de vida ao lado da esposa. Porém, um tsunami destrói sua casa e seus planos, obrigando os dois a voltarem para casa, na Praia Grande (SP). Os caminhos de Roberto e Mitsuo se cruzam devido a um terreno negociado por seus pais há décadas e eles decidem tentar ganhar dinheiro por conta do local para sanarem dívidas pessoais. Porém, o conflito entre os dois se acentua quando começam a acreditar que o lote é dotado de poderes mágicos e pode realizar todos os desejos das pessoas, desde que não sejam de cunho econômico.

O roteiro se preocupa em trazer magia e poesia à história, e até consegue, mas o ritmo da trama é demasiadamente lento, os diálogos muito pragmáticos e os personagens um tanto apáticos e sem camadas, tanto Mitsuo como Roberto começam e terminam a história com a mesma expressão. Os conflitos pelos quais passam antes do embate entre ambos são bem explicados e sensibilizam o público, Roberto com dificuldades de arrumar um novo trabalho e dívidas batendo sua porta, como o da escola da filha, impedida de frequentar as aulas, e um valor alto de IPTU cobrado de sua mãe, quantia do terreno de Praia Grande, objeto de briga entre os personagens centrais. E Mitsuo de volta ao Brasil procura o pai e a irmã na peixaria de propriedade da família e precisa de cerca de 20 mil reais para recomeçar sua vida. Se já é difícil, ele tem outra preocupação, o estado de saúde do pai, Nakano (Edson Kameda), que necessita de cuidados especiais em decorrência de um AVC sofrido há 10 anos.

Além da apresentação dos personagens e de seus problemas, não vemos aprofundamento em suas atitudes, que são questionáveis, como o desleixo de Roberto com a educação da filha e Mitsuo ter deixado a família por tanto tempo e só ter voltado para pedir ajuda. Outro ponto questionável está também na construção narrativa no tocante aos poderes mágicos do terreno, eles não exercem influência significativa nos rumos da trama, servem mais para atenuar as decepções dos protagonistas, sejam as amorosas como as financeiras. Um recurso que poderia melhor ter sido utilizado, mas subaproveitado no roteiro.

Apesar de bons elementos e uma interessante premissa, ‘Mare Nostrum’ deixa a sensação de que poderia muito mais. A retratação dos problemas vividos por muitas pessoas no cotidiano foram bem colocados, mas a execução do conflito central foi falha. Uma pena.

Cotação: 2,5/5 poltronas.

Poltrona Cabine: Um Pequeno Favor/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Um Pequeno Favor/ Cesar Augusto Mota

Longas-metragens adaptados de obras literárias conseguem em algumas oportunidades trazer resultados positivos para o público, ainda mais em se tratando de histórias que possuam um alto grau de suspense e com enredos que consigam se sustentar até o fim. ‘Um Pequeno Favor’ (A Simple Favor), filme baseado na obra literária de Darcey Bell de título homônimo e com direção de Paul Feig (Caça-Fantasmas), não só funciona no gênero mencionado acima, como faz uma perfeita junção com a comédia e prende a atenção do público, algo difícil de se imaginar, sejam em produções independentes ou hollywoodianas.

A trama apresenta Stephanie Smothers (Anna Kendrick), dona de casa, vlogueira e viúva, que vive para cuidar da casa e do filho. Um dia, seu caminho se cruza com o de Emily Nelson (Blake Lively), uma executiva de moda rica, bem-sucedida, que adora se embebedar, mas é pouco presente na vida do filho Nicky. Ambas possuem seus filhos estudando na mesma escola e logo no primeiro encontro entre elas percebe-se uma perfeita harmonia que logo se transformaria em amizade. As duas passam a trocar ideias e a contar seus mais íntimos segredos, até que Emily passa a pedir favores para Stephanie, como o de buscar Nicky (Ian Ho) na escola. Porém, quando esta vai buscar o garoto em um determinado dia, Emily desaparece misteriosamente. Com o auxílio de seu vlog de variedades, Stephanie resolve p artir para uma investigação e passa a divulgar novas pistas na medida em que as encontra para ajudar a encontrar a amiga.

O roteiro, assinado por Jessica Sharzer (American Horror Story), ilustra uma história dinâmica,  tensa, envolvente e com arcos dramáticos bem desenvolvidos, principalmente de Stephanie, que se transforma após o sumiço da amiga. A vlogueira passa a mostrar um lado não antes visto, de muita força e coragem, deixando de lado seu comportamento inseguro e semblante fragilizado do início da trama. Na medida em que a narrativa vai se desenvolvendo, segredos obscuros vão sendo revelados, a dramaticidade vai aumentando e as pistas encontradas passam a fazer mais sentido para o espectador, que vai juntar tudo e conseguir compreender quais os rumos que Emily tomou e a entender o motivo de seu sumiço repentino. Os plot twists também são outros atrativos da história, o público pensa que a trama acabou, mas surgem muito mais coisas para bagunçar a cabeça e tornar a história ainda mais intrigante e interessante.

Outro ponto alto está na direção de arte. A casa de Emily e seu local de trabalho, a Dennis Nylon Company, conversam com seu desaparecimento e também o potencializam. Os dois ambientes não só dizem muito sobre a personagem, como também oferecem elementos cruciais para desvendar o mistério que toma conta da narrativa, além de ditar os rumos da trama e de seus personagens, muito bem interligados e de arcos complexos.

As atuações são acima da média. Blake Lively mostra uma personagem sedutora, imponente e com um ar bastante misterioso, que convence o espectador. Anna Kendrick consegue em seu papel mostrar que não é aquela amiga submissa e sem personalidade, ela passa por enormes transformações e consegue carregar bem a trama, principalmente nas partes em que Emily, personagem de Blake, está ausente. Kendrick é uma atriz versátil e pronta para atuar em diversas searas, seja de uma comédia rasgada a um tenso suspense, o que é possível constatar nesse longa. E sem deixar de esquecer de Henry Golding, como Sean, marido de Emily. O britânico tem importante participação na história e é uma das principais peças na resolução de vários enigmas que surgem durante a produção, mesmo sendo um personagem secundário. Ele envolve ambas as amigas e também revela um segredo bombástico, que fará o público cair da cadeira nos momentos mais derradeiros.

O trabalho de Paul Feig em ‘Um Pequeno Favor’ é satisfatório, com uma história repleta de grandes reviravoltas, um elenco carismático e afiado e com ritmo frenético e alucinante. Vale a pena ver e rever muitas vezes.

Cotação: 4/5 poltronas.