Maratona Oscar: A Qualquer Custo/Gabriel Araújo

Maratona Oscar: A Qualquer Custo/Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araújo (@gabriel_araujo1)

Maratona Oscar: “A Qualquer Custo”hell_or_high_water

Se alguém imaginava que o western estava morto, é bom pensar melhor. Um dos filmes de destaque de 2016 traz de volta ao mainstream o característico faroeste americano, com um bom toque de modernidade e amplificando importantes questões sociais. Cinco minutos bastam para que os sentidos sejam aguçados pelo longa de David Mackenzie, que na seguinte 1h40 mostra que mereceu suas quatro indicações ao Oscar.

O filme tem como protagonistas os irmãos Toby e Tanner Howard, interpretados por Chris Pine e Ben Foster, respectivamente. O primeiro é o “filho bom”, divorciado, dois filhos, que tem como objetivo pagar a hipoteca e os impostos de sua recém-falecida mãe. Ele se junta ao segundo, o “filho mau”, um ex-presidiário sem grandes pretensões na vida, para cumprir seu propósito com uma dose de criminalidade: roubando bancos para angariar os fundos necessários.

O mais curioso é justamente o fato de um banco, especificamente, ser o alvo principal da dupla: o banco que “sustentava” a terra da família e emprestava um dinheiro mínimo para a pobre mãe se manter no fim da vida, esperando que, após a morte da matriarca, o rancho sobrasse de ‘mão beijada’ para a companhia. São suas agências que os irmãos Howard atacam, com a ideia de pagar o que o banco cobrava… com o próprio dinheiro do banco. Segundo um advogado que os atende ensinando a lutar contra o banco e a lavar o dinheiro em casino, como se o ganhassem em apostas, “não há nada mais texano”.

Não parece, realmente, um roteiro muito mirabolante, mas as entrelinhas fazem de Hell or High Water um bom filme. A primeira imagem do longa é um muro em frente a um banco com a pichação de “mandam tropas para o Iraque, mas não refinanciam nossa hipoteca”. Um tom de uma ‘realidade americana 2016’ e do que o filme abordará — há momentos, inclusive, em que é possível quase ‘torcer’ para os anti-heróis contra o duro mundo de lucro, lucro e lucro dos bancos. Como se ‘torcia’ para um Walter White (“Breaking Bad”) da vida.

Claro que, como um bom faroeste moderno com crimes, a polícia também se envolve — e é daí que sai a melhor atuação do filme: a de Jeff Bridges, interpretando o quase aposentado policial Marcus Hamilton, que tem como sua “missão final” a caça aos irmãos Howard. Bridges, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel, dá à personagem o tom que um velho policial do interior texano merece. Está muito bem, e aqui surge a melhor chance de “A Qualquer Custo” na premiação da Academia.

Não desmerecendo, claro, as atuações de Chris Pine e Ben Foster, que fazem um bom papel como irmãos. A seleção de elenco foi boa ao buscá-los, mas não há grandes surpresas ou destaques nas atuações dos dois, que beiram o normal, enquanto Bridges toma conta do filme com seu estilo muito bem definido, amplificado pelos trejeitos e sotaque de Marcus Hamilton.

É interessante notar, também, como outras questões que voltaram a ser extremamente comentadas recentemente, especialmente com eleição e posse de Donald Trump como presidente dos EUA, também são abordadas em uma área bastante conservadora: o posse de arma, já que todos no filme andam com seu revólver (ou rifles, até) nas mãos; o racismo, evidenciado nas constantes piadas do detetive Hamilton com seu companheiro, Alberto (Gil Birmingam), um descendente de mexicanos e indígenas (aqui entra também a questão histórica, da terra tomada dos índios pelo exército, e agora das gerações seguintes pelos bancos e petrolíferas); e a xenofobia, em uma cena em especial: em um dos assaltos, um senhor que estava no banco (armado, claro) se surpreende e diz que “vocês (Toby e Tanner) não são nem mexicanos [para assaltarem]”; tudo se unindo, é claro, para explicitar justamente o conservadorismo ferrenho do interior sulista norte-americano, que, além de tudo isso, também rende bons espaços de filmagem e um estilo bem peculiar, principalmente na forma de falar, que o filme aborda bem.

O grande mérito do filme é justamente trabalhar com um gênero um tanto quanto esquecido unindo-o bem aos Estados Unidos dos últimos dez anos. Os problemas econômico-sociais (estes, ok, bem mais antigos) americanos ganham mais uma voz importante. É um excelente mecanismo para se inteirar de como anda o caminho dos EUA no pós-crise, de como as questões históricas ainda atormentam, o que se encontra em um West Texas e adjacentes, a que pés anda o capitalismo e no que o país parece estar pronto para mergulhar.

Outro ponto de destaque é a trilha sonora, que traz com maestria o som do faroeste às telonas. A assinatura vem com o selo “The Bad Seeds” de qualidade: o líder da banda, Nick Cave, mais uma vez se une a Warren Ellis, também membro do grupo, para explorar a música no cinema. Se saem bem.

Hell or High Water não parece pintar como um grande favorito ao Oscar. Se levar algo, deve ser justamente com Jeff Bridges como coadjuvante. Apesar de bom filme, parece que outros estão à frente na preferência da Academia. Em outras premiações, sempre surgiu como indicado, mas também não faturou muita coisa — destaque para um Satellite para Bridges. Mas não custa aguardar e conferir. O longa de David Mackenzie ainda concorre aos prêmios de melhor filme, melhor roteiro original (Taylor Sheridan) e melhor edição (Jake Roberts).

Nota: 4,5/5

Sinopse:
Dois irmãos, um ex-presidiário e um pai divorciado com dois filhos, perderam a fazenda da família em West Texas e decidem assaltar um banco como uma chance de se reestabelecerem financeiramente. Só que no caminho, a dupla se cruza com um delegado, que tudo fará para capturá-los.

 

Maratona Oscar: Fences ´Um limite entre nós/Flavia Barbieri

Maratona Oscar: Fences ´Um limite entre nós/Flavia Barbieri

fences2Vinte e nove anos após sua estréia na Broadway, “Fences” chega aos cinemas por cortesia de um roteiro do próprio dramaturgo August Wilson. Ganhador de dois prêmios Pulitzer e autor da magnífica obra de dez peças, “The Pittsburgh Cycle”, da qual “Fences” é a sexta peça.

“Fences” conta o cotidiano de um coletor de lixo da cidade de Pittsburgh – Troy Maxson, esplendoramente interpretado por Denzel Washington; que ao final dos dias se reúne com sua família e seu melhor amigo Bono (Stephen Henderson) para contar histórias em uma rotina cercada de lembranças e garrafas de gin.

A história da classe operária da década de 1950 serve de pano de fundo para a vivência da família de Troy. Sua esposa Rose – docemente interpretada por Viola Davis, seu filho mais velho Lyions (Russel Hornsby), seu irmão incapacitado Gabe (Mykelti Williamson – O inésquecível Bubba de “Forest Gump”) e seu filho mais jovem Cory (Jovan Adepo).

Nas discussões com os filhos, nos enlaces emocionais com a esposa e seu irmão, a história se desenrola cheia de sentimentos, destacando a vida dos negros daquela época. Muitas passagens importantes reafirmam o preconceito e a segregação sofrida por eles.

Como diretor Denzel Washington respeitou a escrita de August Wilson, como a verdadeira estrela do filme. Um roteiro que flui fácil pelas palavras trocadas entre seus personagens, como se todas as cenas realmente tivessem acontecido em algum lugar daquele tempo.

O final do filme culmina de forma mágica e suave. Podemos dizer que o ápice do filme é justamente seu fim, como um laço de emoções eternas congeladas no coração daquela família.

Obra indispensável para os amantes do bom cinema. Na premiação dos Oscar desse ano, já vejo Denzel e Viola juntos no Palco.

O filme concorre a Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado.

 

Maratona Oscar: Moonlight/Lívia Lima

Maratona Oscar: Moonlight/Lívia Lima

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Duro e doce, bem como a vida.
Moonlight transporta, mesmo que não se trate de uma ficção irreal e extraordinária. Chiron, é um menino negro e periférico, e o filme retrata a sua jornada de autoconhecimento, enquanto tenta lidar com seus problemas familiares e fugir da criminalidade de Miami. A trama passa por sua infância até sua vida adulta, abordando conflitos comuns gerados por assuntos como sexualidade, bullying e consumo de drogas.

Moonlight não é um filme de amor, mas definitivamente é um filme sobre o amor. Chiron tenta lidar com questões como sua sexualidade e problemas familiares e é possível notar, com sutileza, o amor sendo encontrado, o que torna o longa muito humano e sensível.

Diálogos simples, porém sucintos, passam a confiança das reflexões com leveza. Fotografia impecável, assim como a trilha sonora, com certeza fazem o espectador se apaixonar pela produção. É importante também salientar que a sintonia entre os três atores que interpretam Chiron em suas três fases é visível e trás uma credibilidade real à história.

Em eras onde a homofobia ainda é presente, a importância de um filme tão empoderador quanto Moonlight consegue ser é imensurável. Apesar da pouca idade, Chiron já lida com agressões de colegas e com o passar dos anos e com a evolução do bullying, isso culmina em um sofrimento reprimido que é observado também em sua fase adulta.
Apesar de sentir falta de um melhor trabalho em relação aos traumas e ao sofrimento de Chiron, ao observar que o filme lida bem com a sutileza, em pequenas cenas, é possível ver que são nos diálogos delicados e simples que essas questões são trabalhadas, o que acaba por compensar essa falta.

Simples e Brilhante. Uma grande produção, com muito a ensinar sobre o amor, sobre o sofrimento e, principalmente, sobre a vida.

Cotação Poltrona de Cinema: 4 poltronas

Por Lívia Lima

Maratona Oscar: Ryan Gosling e Emma Stone de La la Land/Anna Barros

Maratona Oscar: Ryan Gosling e Emma Stone de La la Land/Anna Barros

la-la-land-2La la Land já teve sua resenha publicada aqui e hoje vamos falar das interpretações de Ryan Gosling e Emma Stone que concorrem ao prêmio de Melhor Ator e Melhor Atriz. Não é à toa que os dois estão arrebatando vários prêmios por aí. Eles estão simplesmente sensacionais. Emma está sensível, delicada e totalmente inserida na atmosfera nostálgica e sublime de La La Land, favoritaço a ganhar o Oscar de Melhor Filme e de Melhor Direção para Damian Chazelle. Seu desempenho é simplesmente espetacular e sua simbiose com Ryan Gosling é perfeita.

Ryan também arrebentou, mas tem em seus calcanhares Denzel Washington por Fences e Casey Afleck por Manchester à beira-mar. A meu ver, Denzel incomoda mais. Ryan está perfeito, em estilo próprio, mal-humorado compondo um músico que ama jazz e que quer levar seu sonho de um jazz club adiante. Ele aprendeu a tocar piano, passa veracidade ao tocar o instrumento, dança, canta, enfim incorpora de maneira doce e cativante um Fred Astaire.

Emma empresta seus olhos azuis grandões a uma mocinha batalhadora e sonhadora, que acaba tendo a ajuda do amado para realizar tudo que sempre sonhou a vida toda. Mia é o protótipo da heroína moderna.

La La Land é um filme de metalinguagem que resgata clássicos como Casablanca e Juventude Transviada e extravasa toda a paixão dos musicais. A cena inicial dos motoristas cantando no engarrafamento é simplesmente antológica e  ali que os protagonistas se encontram, de maneira fugaz e inesperada. Sebastian ainda reluta e a refuga e depois acaba se entregando ao amor de Mia.

Eu vou torcer por Ryan Gosling e Emma Stone. Chorei muito na sessão. O filme me tocou profundamente. Talvez por amar musicais, esse é daqueles típicos, mesmo. Talvez pela perda da minha querida mãezinha no último dia 20 de janeiro.

Enfim, as atuações de Emma e Ryan são luminosas! Iluminem-se logo e corram para assistir La La Land. Para ontem!

 

Esse post é in memoriam à Maria de Lurdes Faria de Barros, que ia pouco ao cinema, mas quando ia amava filmes nacionais! Seu filme predileto era Ghost! Descanse em paz, mamãe!

Por Anna Barros

 

 

 

 

Maratona Oscar: Elle

Maratona Oscar: Elle

047036-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxExibida na 40ª Mostra de São Paulo e presente na Palma de Ouro de 2016, “Elle”, do diretor holandês Paul Verhoeven, é sem dúvida uma obra intrigante, de fortes impactos psicológicos e que reforça a imagem de uma mulher segura, apesar das adversidades. Uma produção de forte apelo no circuito nacional e que vai chamar a sua atenção.

A narrativa é sobre Michelle (Isabelle Huppert), proprietária de uma produtora de games, rodeada de amigos e financeiramente bem resolvida. Mas sua tranquilidade é abalada quando é atacada em sua própria casa com requintes de crueldade.

A primeira cena é chocante, apenas com sons de violência, aliada a um olhar atônito do gato preto e o pavor da protagonista. Essa mesma sequência aparece mais vezes em cenas de flashback para ajudar Michelle a compreender o que aconteceu e descobrir a identidade do verdadeiro agressor.

Após essa experiência traumática, Michelle continua cercada pelo criminoso e se sente ameaçada o tempo todo. De início ela compra alguns instrumentos para se defender e resolve não procurar a polícia. Por meio de pistas que foram deixadas, ela procura fazer conexões entre todas elas para desvendar o verdadeiro abusador. A história vai se desdobrando em três atos  e com atitudes seguras e imprevisíveis da personagem central, interpretada magnificamente por Huppert.

O trabalho de Verhoeven na articulação de “Elle” é inquestionável e bastante preciso, com um enredo que toma amplitude na medida em que se desenvolve e a montagem aliada às câmeras junto ao corpo da personagem central contribui para a sensação de impacto real e desconcertante com as cenas de violência presentes. Sem falar que o filme não trata apenas de trauma pós violência física e sexual, como também fala do empoderamento da mulher em uma sociedade predominantemente machista, bem como de relações provocadoras e doentias capazes de instigar e desafiar o ser humano.

Falamos do filme e não poderíamos também deixar de exaltar a atuação de Isabelle Huppert, a força motriz desta produção. A parisiense se entrega de corpo e alma à sua personagem, antes vítima e que acaba por se tornar poderosa. Quando o espectador imagina que ela vai tomar um rumo, vai em direção contrária, o que impressiona ainda mais, fora a força de Michelle em ter de lidar com outros conflitos na vida, como a relação conturbada com a mãe, que se apaixona por homens mais jovens, a dificuldade em aceitar a namorada do filho, o convívio com o ex-marido infiel, fora o amante e o difícil relacionamento com os colegas de trabalho, a maioria homens. A personagem Michelle convive com tudo isso e um trauma de infância que envolve o pai.

O sucesso de “Elle”, sem dúvida, foi fruto da atuação convincente e da genialidade de Isabelle Huppert, que soube compor a personagem e fez o espectador acreditar que é possível enfrentar variadas adversidades ao mesmo tempo, mas sem perder a dignidade. O filme pode ter sido inquietante e polêmico, e com a impressão de que Michelle fez pouco caso à violência que sofreu e que seria masoquista, mas na verdade foi uma maneira de Paul Verhoeven retratar que muitos seres humanos são frágeis, cruéis e agressivos e que o mundo não é violento, mas o homem que o torna.

Não é à toa que Isabelle Huppert foi indicada ao Oscar na categoria de melhor atriz, mas será uma competição acirrada, com excelentes intérpretes, como Emma Stone, Natalie Portman e Meryl Streep, mas Huppert não pode ser considerada carta fora do baralho. Façam suas apostas!

Por: Cesar Augusto Mota