Maratona Oscar: O Apartamento

Maratona Oscar: O Apartamento

filme-o-apartamentoUma trama de carga psicológica com temas polêmicos e atuais e que faz o espectador se colocar no lugar dos personagens. Esses são os ingredientes de “O Apartamento”, filme do cineasta iraniano Asghar Farhadi e que vem com chances de levar para casa o Oscar de melhor filme estrangeiro.

A história tem como ponto central o casal Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti). Ambos são atores e encenam a peça clássica “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, mas são obrigados a deixar o prédio onde vivem por risco de desabamento. Por recomendação de um amigo, eles vão morar em um apartamento cuja dona sai às pressas e deixa diversos objetos pessoais, para incômdo de Rana e Emad. O local guarda um passado que afetará seriamente o presente dos dois.

Em uma certa noite, Rana deixa a porta da frente do apartamento entreaberta por pensar se tratar de que era Emad nas escadarias, mas é atacada durante o banho por um estranho ligado à antiga moradora. A partir daí começa um grande drama e um enorme trauma, principalmente para Rana, não apenas físico, com cicatrizes da agressão, mas o forte abalo psicológico, a dor e o medo constantes e um enorme vazio pelo descaso de Emad.

Descaso? Sim, ele se mostrou tão manchado quanto a esposa, porém mais preocupado em descobrir a verdadeira identidade do agressor para poder se vingar. Faltou apoio, afeto, e a raiva muitas vezes foi transferida para a peça e também para a sala de aula. Foi sugerido à Rana que esta procurasse a polícia e denunciasse, mas a postura dela é surpreendente, ela deseja esquece o ocorrido e seguir em frente, tamanho o constrangimento e a dor que carregava consigo.

Observa-se nesse contexto uma postura machista e a questão do direito do homem de preservar a esposa para si, ideais presentes na sociedade iraniana e também em outras comunidades. Esses são determinantes para a deterioração da relação do casal. Ambos não falam a mesma língua e a presença de mais um personagem no terço final da trama faz a tensão aumentar ainda mais e Rana ter postura mais enérgica com Emad, mas sem quebrar a hierarquia social.

As interpretações dos atores são magníficas, os conflitos são bem articulados e complexos e a realização de tomadas em plano fechado e ambientes livres nos dão a sensação de vazio e solidão, como sentiu Rana após a agressão e o desinteresse do marido pela dor dela. É uma produção que nos faz pensar sobre a posição do homem e da mulher na sociedade contemporânea, além da alta carga psicológica existente e dos conflitos morais existentes.

O Apartamento” foi premiado no Festival de Cannes como  melhor roteiro e Shahab Hosseini levou o troféu de melhor ator por sua atuação como Emad. O filme também saiu vencedor outros festivais, como o World Cinema Amsterdam, Satellite Awards e Munich International Film Festival e com chances reais de levar a estatueta da maior premiação de Hollywood. Recomendo!

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Elle

Maratona Oscar: Elle

047036-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxExibida na 40ª Mostra de São Paulo e presente na Palma de Ouro de 2016, “Elle”, do diretor holandês Paul Verhoeven, é sem dúvida uma obra intrigante, de fortes impactos psicológicos e que reforça a imagem de uma mulher segura, apesar das adversidades. Uma produção de forte apelo no circuito nacional e que vai chamar a sua atenção.

A narrativa é sobre Michelle (Isabelle Huppert), proprietária de uma produtora de games, rodeada de amigos e financeiramente bem resolvida. Mas sua tranquilidade é abalada quando é atacada em sua própria casa com requintes de crueldade.

A primeira cena é chocante, apenas com sons de violência, aliada a um olhar atônito do gato preto e o pavor da protagonista. Essa mesma sequência aparece mais vezes em cenas de flashback para ajudar Michelle a compreender o que aconteceu e descobrir a identidade do verdadeiro agressor.

Após essa experiência traumática, Michelle continua cercada pelo criminoso e se sente ameaçada o tempo todo. De início ela compra alguns instrumentos para se defender e resolve não procurar a polícia. Por meio de pistas que foram deixadas, ela procura fazer conexões entre todas elas para desvendar o verdadeiro abusador. A história vai se desdobrando em três atos  e com atitudes seguras e imprevisíveis da personagem central, interpretada magnificamente por Huppert.

O trabalho de Verhoeven na articulação de “Elle” é inquestionável e bastante preciso, com um enredo que toma amplitude na medida em que se desenvolve e a montagem aliada às câmeras junto ao corpo da personagem central contribui para a sensação de impacto real e desconcertante com as cenas de violência presentes. Sem falar que o filme não trata apenas de trauma pós violência física e sexual, como também fala do empoderamento da mulher em uma sociedade predominantemente machista, bem como de relações provocadoras e doentias capazes de instigar e desafiar o ser humano.

Falamos do filme e não poderíamos também deixar de exaltar a atuação de Isabelle Huppert, a força motriz desta produção. A parisiense se entrega de corpo e alma à sua personagem, antes vítima e que acaba por se tornar poderosa. Quando o espectador imagina que ela vai tomar um rumo, vai em direção contrária, o que impressiona ainda mais, fora a força de Michelle em ter de lidar com outros conflitos na vida, como a relação conturbada com a mãe, que se apaixona por homens mais jovens, a dificuldade em aceitar a namorada do filho, o convívio com o ex-marido infiel, fora o amante e o difícil relacionamento com os colegas de trabalho, a maioria homens. A personagem Michelle convive com tudo isso e um trauma de infância que envolve o pai.

O sucesso de “Elle”, sem dúvida, foi fruto da atuação convincente e da genialidade de Isabelle Huppert, que soube compor a personagem e fez o espectador acreditar que é possível enfrentar variadas adversidades ao mesmo tempo, mas sem perder a dignidade. O filme pode ter sido inquietante e polêmico, e com a impressão de que Michelle fez pouco caso à violência que sofreu e que seria masoquista, mas na verdade foi uma maneira de Paul Verhoeven retratar que muitos seres humanos são frágeis, cruéis e agressivos e que o mundo não é violento, mas o homem que o torna.

Não é à toa que Isabelle Huppert foi indicada ao Oscar na categoria de melhor atriz, mas será uma competição acirrada, com excelentes intérpretes, como Emma Stone, Natalie Portman e Meryl Streep, mas Huppert não pode ser considerada carta fora do baralho. Façam suas apostas!

Por: Cesar Augusto Mota

 

#265 Maratona do Oscar: Florence: quem é essa mulher?

#265 Maratona do Oscar: Florence: quem é essa mulher?

florence3O filme poderia ter um roteiro melhor, mas os desempenhos de Meryl Strepp, sempre maravilhosa, e Hugh Grant arrebatam. Os dois concorrem ao Globo de Ouro e prevejo que possam concorrer ao Oscar 2017.

Florence é desafinada, desaprendeu a cantar e quer, porque quer, cantar no Carnegie Hall. Todos escondem dela a verdade, até mesmo o devotado marido, Saint Clair, que mesmo assim, tem uma namorada fora do casamento. Ela caba convencendo um excelente pianista a comprar a ideia dela.

Stephen Frears é o mesmo diretor de Philomena. O talento de Meryl é desperdiçado, mas o filme prende a atenção. Florence sofre todo tipo de chacota e inocentemente parece não ver o que ocorre à volta dela. Florence ama o que faz, mesmo não sendo capaz para realizá-lo, sem o mínimo de senso crítico. Isso porque na época não tinham as redes sociais porque se existissem, rapidinho ela saberia que era péssima soprano, nada tinha a ver com música lírica, um fracasso total.

Foi o fracasso do primeiro casamento que a fez partir para Nova York, onde conheceria o segundo companheiro, o ator inglês St Clair Bayfield (1875-1967), que a ajudaria a realizar o sonho da música, com apresentações fechadas para amigos e conhecidos, a gravação de cinco discos de 78 rotações e o concerto histórico pouco antes da morte.

O marido a preserva de tudo isso. Tenta evitar que o crítico do New York Post não vá ao concerto e tenta subornar os outros críticos. Quando o crítico do Post vai ao Carnegie Hall e faz uma crítica pesada e real à Florence, ele compra todos os exemplares dos jornais e os joga no lixo.

Florence acaba descobrindo a farsa e acaba morrendo porque ela contraíra sífilis do primeiro marido e padecia com sequelas dessa terrível doença sexualmente transmissível.

Vale a pena assistir às atuações de Meryl e Hugh e ouso dizer, que mesmo sendo um filme considerado mediano, Florence: quem é essa mulher? pode ser um candidato ao Oscar 2017. É esperar para ver.

3/5 poltronas.

Por Anna Barros