Maratona Oscar: Elle

Maratona Oscar: Elle

047036-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxExibida na 40ª Mostra de São Paulo e presente na Palma de Ouro de 2016, “Elle”, do diretor holandês Paul Verhoeven, é sem dúvida uma obra intrigante, de fortes impactos psicológicos e que reforça a imagem de uma mulher segura, apesar das adversidades. Uma produção de forte apelo no circuito nacional e que vai chamar a sua atenção.

A narrativa é sobre Michelle (Isabelle Huppert), proprietária de uma produtora de games, rodeada de amigos e financeiramente bem resolvida. Mas sua tranquilidade é abalada quando é atacada em sua própria casa com requintes de crueldade.

A primeira cena é chocante, apenas com sons de violência, aliada a um olhar atônito do gato preto e o pavor da protagonista. Essa mesma sequência aparece mais vezes em cenas de flashback para ajudar Michelle a compreender o que aconteceu e descobrir a identidade do verdadeiro agressor.

Após essa experiência traumática, Michelle continua cercada pelo criminoso e se sente ameaçada o tempo todo. De início ela compra alguns instrumentos para se defender e resolve não procurar a polícia. Por meio de pistas que foram deixadas, ela procura fazer conexões entre todas elas para desvendar o verdadeiro abusador. A história vai se desdobrando em três atos  e com atitudes seguras e imprevisíveis da personagem central, interpretada magnificamente por Huppert.

O trabalho de Verhoeven na articulação de “Elle” é inquestionável e bastante preciso, com um enredo que toma amplitude na medida em que se desenvolve e a montagem aliada às câmeras junto ao corpo da personagem central contribui para a sensação de impacto real e desconcertante com as cenas de violência presentes. Sem falar que o filme não trata apenas de trauma pós violência física e sexual, como também fala do empoderamento da mulher em uma sociedade predominantemente machista, bem como de relações provocadoras e doentias capazes de instigar e desafiar o ser humano.

Falamos do filme e não poderíamos também deixar de exaltar a atuação de Isabelle Huppert, a força motriz desta produção. A parisiense se entrega de corpo e alma à sua personagem, antes vítima e que acaba por se tornar poderosa. Quando o espectador imagina que ela vai tomar um rumo, vai em direção contrária, o que impressiona ainda mais, fora a força de Michelle em ter de lidar com outros conflitos na vida, como a relação conturbada com a mãe, que se apaixona por homens mais jovens, a dificuldade em aceitar a namorada do filho, o convívio com o ex-marido infiel, fora o amante e o difícil relacionamento com os colegas de trabalho, a maioria homens. A personagem Michelle convive com tudo isso e um trauma de infância que envolve o pai.

O sucesso de “Elle”, sem dúvida, foi fruto da atuação convincente e da genialidade de Isabelle Huppert, que soube compor a personagem e fez o espectador acreditar que é possível enfrentar variadas adversidades ao mesmo tempo, mas sem perder a dignidade. O filme pode ter sido inquietante e polêmico, e com a impressão de que Michelle fez pouco caso à violência que sofreu e que seria masoquista, mas na verdade foi uma maneira de Paul Verhoeven retratar que muitos seres humanos são frágeis, cruéis e agressivos e que o mundo não é violento, mas o homem que o torna.

Não é à toa que Isabelle Huppert foi indicada ao Oscar na categoria de melhor atriz, mas será uma competição acirrada, com excelentes intérpretes, como Emma Stone, Natalie Portman e Meryl Streep, mas Huppert não pode ser considerada carta fora do baralho. Façam suas apostas!

Por: Cesar Augusto Mota

 

Poltrona Resenha: Manchester à Beira-Mar

Poltrona Resenha: Manchester à Beira-Mar

391735A maneira de lidar com a perda e formas de superá-la, não é fácil abordar o sofrimento das pessoas de uma forma sólida, ainda mais com uma narrativa concisa e um cenário que ajude a transmitir melancolia para o espectador. Pois bem, o diretor e roteirista Ken Lonergan já havia tratado do assunto em filmes como “Conte Comigo” e “Margaret” e volta a fazê-lo em “Manchester à Beira-Mar”. Essa produção tem tudo para receber indicações e também levar estatuetas do Oscar.

O zelador Lee Chandler (Casey Affleck), uma espécie de “faz-tudo”, como denominado na história, trabalha em um condomínio residencial e enfrenta problemas com os moradores do prédio por conta de seu comportamento truculento e agressivo. De repente, Lee recebe um telefonema com uma terrível notícia, o que o obriga a retornar para sua terra natal, que havia deixado para trás anos antes por causa de uma grande tragédia.

Após a morte do irmão que sofrera de ataque cardíaco, Lee terá a incumbência de resolver os trâmites burocráticos para o funeral, além de cuidar de Patrick (Lucas Hedges), seu sobrinho adolescente. Mas não será fácil para Lee Chandler cumprir as duas tarefas, pois um grande fantasma do passado ainda assombra sua vida e ele precisa se libertar do trauma. Para lidar com a dor, Lee adota um comportamento introspectivo e opta pelo isolamento.

Além de lidar com a dor, Lee Chandler enfrenta dificuldades de se relacionar com Patrick, muito por conta de sua personalidade introvertida e também pela dor que carrega após sofrer dois baques na vida. Lee se vê incapaz de se tornar tutor do sobrinho, como queria o irmão Joe (Kyle Chandler) em testamento. Além disso, há divergências com a mãe de Patrick, que enfrentou problemas com o álcool e abandonou o filho muito cedo.

A forma como Ken Lonergan utiliza para contar a história, com duas linhas do tempo, uma com flashbacks para explicar os motivos da fuga e isolamento de Lee Chandler, e a outra, com o momento presente, mas com um trauma já enraizado e difícil de ser controlado pelo protagonista. O diretor consegue ilustrar tudo de uma forma sutil, sem confundir o espectador, aliado a um ambiente cinza e sombrio, com uma conotação sensível e capaz de tocar o público.

O clima de tristeza, desolação e angústia é bem transmitido pelo elenco da trama. Casey Affleck consegue convencer como Lee Chandler, mas seu personagem não permite que ele vá além do homem amargurado e de humor contido. Lucas Hedges é uma surpresa, mostra um bom entrosamento com Affleck e tem atuação segura, e Michelle Willians, que interpreta Randi, a ex-esposa de Lee, demonstra toda a sua habilidade em representar papéis dramáticos.

“Manchester à Beira-Mar” possui também algumas doses de humor, mas o drama e a prostração falam mais alto, e não há apelação para o choro fácil. É uma história que traz uma experiência única e reflexiva para o espectador, além de mostrar que existem várias formas de se lidar com a perda, mas que a vida precisa continuar e é necessário ser forte. Uma excelente produção e cotadíssima para o Oscar!

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine/Maratona Oscar: La La Land-Cantando Estações

Poltrona Cabine/Maratona Oscar: La La Land-Cantando Estações

maxresdefaultQuem não é fã de filmes com temática musical vai se surpreender, mas quem gosta vai amar o longa “La La Land-Cantando Estações”, do jovem cineasta Damien Chazelle. A produção acaba de faturar 7 estatuetas no Globo de Ouro e é cotadíssima a levar prêmios no Oscar, principalmente na categoria melhor atriz, com Emma Stone.

Sucesso de crítica nos Estados Unidos, mesmo que a exibição tenha sido em circuito reduzido, será que é tudo isso mesmo que falam? O filme é tão bom assim a ponto de ser considerado favorito ao Oscar? É tudo isso e muito mais, não se trata apenas de um musical.

O enredo gira em torno de dois protagonistas: a jovem Mia (Emma Stone), que sonha ser atriz, e o pianista Sebastian (Ryan Gosling), que planeja ter seu próprio clube de jazz. Cada um possui uma personalidade, a moça é apaixonada pela arte, mas não confiante o bastante para realizar seu sonho, já o rapaz é o típico “pé no chão”, sabe das dificuldades impostas pela vida, mas é otimista e autoconfiante. São essas diferenças que farão os personagens se juntarem e um ajudar o outro a vencer nessa incrível jornada movida por desafios, surpresas, decepções e reviravoltas.

Mia e Sebastian se conhecem de uma forma nada amistosa, mas é impressionante a boa química construída entre Emma Stone e Ryan Gosling durante a trama. Ambos constroem bem seus personagens e demonstram excelente evolução, além do carisma e das importantes intervenções de cada um em momentos cruciais. Destaques também para as excelentes performances durante os musicais, com ótimos sapateados e coreografias bem sincronizadas, além das ótimas músicas tocadas no piano por Gosling, uma performance impressionante.

O trabalho de Damien Chazelle é excepcional, além de saber entreter o público com excelentes sequências de dança soube também aliar a música com cada ocasião na história, bem dividida por quatro estações, sem cansar o público e tampouco arrastar a trama. Além disso, a beleza estética do filme é traduzida por uma fotografia com excelentes cenários de Los Angeles aliados com um precioso jogo de luzes centralizados nos personagens no momento de uma nova interpretação musical, causando grandes vibrações a cada novas cenas.

E para quem achou que o filme era só musical, o conflito entre os dois personagens centrais também causa impacto, ambos estão tão concentrados em suas carreiras que precisam provar que o relacionamento amoroso entre eles consegue resistir, além de uma importante mensagem que a obra transmite. Em um mercado bastante concorrido, nem sempre ser talentoso basta, muitos artistas são ótimos, mas enfrentam dificuldades para encontrarem oportunidades. É preciso sempre perseguir o sonho idealizado, independente das adversidades, se destacar em meio à multidão e, principalmente, dar prioridade à felicidade, ser apaixonado pelo que faz.

Um filme romântico, divertido, nostálgico e reflexivo, “La La Land” tem tudo para ser sucesso de público e de crítica no Brasil. Uma ótima sugestão para esse início de ano, um aquecimento para o Oscar. Não é um filme bom, é ótimo!

Por: Cesar Augusto Mota

#265 Maratona do Oscar: Florence: quem é essa mulher?

#265 Maratona do Oscar: Florence: quem é essa mulher?

florence3O filme poderia ter um roteiro melhor, mas os desempenhos de Meryl Strepp, sempre maravilhosa, e Hugh Grant arrebatam. Os dois concorrem ao Globo de Ouro e prevejo que possam concorrer ao Oscar 2017.

Florence é desafinada, desaprendeu a cantar e quer, porque quer, cantar no Carnegie Hall. Todos escondem dela a verdade, até mesmo o devotado marido, Saint Clair, que mesmo assim, tem uma namorada fora do casamento. Ela caba convencendo um excelente pianista a comprar a ideia dela.

Stephen Frears é o mesmo diretor de Philomena. O talento de Meryl é desperdiçado, mas o filme prende a atenção. Florence sofre todo tipo de chacota e inocentemente parece não ver o que ocorre à volta dela. Florence ama o que faz, mesmo não sendo capaz para realizá-lo, sem o mínimo de senso crítico. Isso porque na época não tinham as redes sociais porque se existissem, rapidinho ela saberia que era péssima soprano, nada tinha a ver com música lírica, um fracasso total.

Foi o fracasso do primeiro casamento que a fez partir para Nova York, onde conheceria o segundo companheiro, o ator inglês St Clair Bayfield (1875-1967), que a ajudaria a realizar o sonho da música, com apresentações fechadas para amigos e conhecidos, a gravação de cinco discos de 78 rotações e o concerto histórico pouco antes da morte.

O marido a preserva de tudo isso. Tenta evitar que o crítico do New York Post não vá ao concerto e tenta subornar os outros críticos. Quando o crítico do Post vai ao Carnegie Hall e faz uma crítica pesada e real à Florence, ele compra todos os exemplares dos jornais e os joga no lixo.

Florence acaba descobrindo a farsa e acaba morrendo porque ela contraíra sífilis do primeiro marido e padecia com sequelas dessa terrível doença sexualmente transmissível.

Vale a pena assistir às atuações de Meryl e Hugh e ouso dizer, que mesmo sendo um filme considerado mediano, Florence: quem é essa mulher? pode ser um candidato ao Oscar 2017. É esperar para ver.

3/5 poltronas.

Por Anna Barros