Maratona Oscar: A Grande Jogada/ Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: A Grande Jogada/ Cesar Augusto Mota

Está chegando às telonas mais um filme baseado em uma história real, e com direito à indicação ao Oscar. Conhecido por apresentar filmes com roteiros que contém diálogos rápidos, verborrágicos e recheado de informações didáticas e reveladoras para seu público, Aaron Sorkin (Steve Jobs), roteirista agraciado com o Oscar em 2011 por ‘A Rede Social’, estreia na direção com ‘A Grande Jogada (Molly’s Game), baseado no livro Molly’s Game: From Hollywood’s Elite to Wall Street’s Billionaire Boys Club, de autoria de Molly Bloom, a princesa do pôquer, como era conhecida. O longa, além desses ingredientes, contará com as atuações de Michael Cera (Scott Pilgrim Contra o Mundo), Jessica Chastain (Armas na Mesa), Idris Elba (A Torre Negra) e Kevin Costner (Estrelas Além do Tempo), um elenco de peso, não é mesmo? Mas será que essa adaptação funcionou e Sorkin fez sua estreia como cineasta com o pé direito ou deixou a desejar?

A história nos apresenta Molly Bloom (Chastain), grande promessa do esqui estilo livre, que se machuca durante preparação para as Olimpíadas de Inverno, lesionando a coluna seriamente. Após o incidente, Molly se muda para tentar vida nova em Los Angeles e rapidamente se encanta com o mundo tentador, charmoso e perigoso da jogatina, se tornando uma das maiores promotoras de jogos de pôquer na Terra do Tio Sam. Disposta a enriquecer facilmente e ter todos a seus pés, Molly não hesita em utilizar todos as armas que tem nas mãos, até mesmo sua sensualidade, para ter os mais poderosos perto de si, mas controlando à distância o ímpeto dos jogadores. Com o negócio cada vez mais lucrativo, Molly acaba por encontrar as autoridades e a té mesmo a máfia russa, num caminho tortuoso e bastante complexo, deixando sua situação bastante delicada e tento que fazer de tudo, até mesmo contratar um dos melhores advogados, Charlie Jaffey (Elba), para não ir para a prisão.

Sorkin traz um roteiro com uma história dinâmica, cheia de revelações e capaz de transportar o espectador para um universo no qual egos e emoções se misturam, e milhões de dólares são obtidos ou perdidos. Há um misto de blefes, sagacidades, dramas e jogo de poderes, tudo pelo topo. Quem acompanha a trama fica empolgado e também se interessa por seus desdobramentos, mesmo quem não estiver familiarizado com o mundo do pôquer e suas regras. E além das diversas rodadas de jogos e muita bebida, o público vai se deparar com os conflitos internos pelos quais a protagonista passa, desde os desentendimentos com seu primeiro patrão até as brigas com o exigente psicólogo e pai, Larry (Costner).

Apesar do roteiro satisfatório e com uma boa proposta, uma das falhas apresentadas está no ritmo dos acontecimentos. Se todo o universo em torno de Molly Bloom é bem construído, desde os traumas que sofreu na infância até o FBI bater em sua porta, a relação com a família, principalmente com o pai turrão, é composta por rápidos saltos e diversas pontas. Os diálogos entre os dois são rasos e artificiais, principalmente nas últimas cenas, prejudicando o fechamento da narrativa. Além disso, o terço final apresenta uma rápida e fácil resolução para o conflito maior da história, se Molly vai ou não ser presa, e o desfecho para a clientela de Molly, dos ricos empresários até as altas celebridades viciadas em jogo, passa quase que despercebido. Alguns conflitos não foram tão bem explorados, e outros poderiam ter sido mais encurtados, mas apesar dos deslizes, Aaron Sorkin consegue entregar uma obra com qualidade aos espectadores, que conseguem se importar com a personagem principal e torcer por ela.

Não poderia me esquecer das atuações, Jessica Chastain prova que é uma atriz em ascensão nos últimos anos. A ruiva transmite empatia ao público com uma personagem cercada de controvérsias, mas com uma aura humana. Apesar da personalidade forte e de demonstrar empoderamento ao longo da história, ela é cercada de fraquezas e em muitas ocasiões ela é confrontada pelos homens, mas mostra força e demonstra ser difícil alguém derrubá-la. Idris Elba interpreta um advogado com participação decisiva na história e revelador de outras facetas de Molly, apesar de contestá-la na maior parte da trama. Kevin Costner tem uma participação discreta e entrega o que seu personagem pede, mas não é uma atuação memorável e para ser sempre lembrada. Michael Cera teve uma participação especial, nada além disso.

Apesar dos altos e baixos, ‘A Grande Jogada’ ilustra uma história interessante, empolgante e também dramática para o público, com uma personagem forte e disposta a tudo para vencer, sem dar o braço a torcer. Temos um enredo que mostra a realidade e o sonho americanos, de enriquecer e prosperar numa terra de oportunidades, uma adaptação satisfatória de uma história real e que poderia ter sido mais valorizada pela crítica e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Uma pena mesmo.

Avaliação: 3,5/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Três Anúncios para um Crime/ Gabriel Araújo

Maratona Oscar: Três Anúncios para um Crime/ Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araujo (@gabriel_araujo1)

Maratona Oscar: “Três Anúncios para um Crime”

É fato que a “dona” de “Três Anúncios para um Crime”, Frances McDormand, tem missão complicada no Oscar ao concorrer o prêmio de Melhor Atriz com gente do quilate de Meryl Streep. Como também é fato que sua atuação — que já a rendeu um Globo de Ouro — a credencia para levar também o troféu da Academia e impulsiona, ao lado do excelente roteiro de Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri à indicação como Melhor Filme. E essas são apenas duas das sete indicações recebidas pelo bom longa no prêmio.

No filme de McDonagh, os coadjuvantes aparecem bem, mas o domínio da tela por McDormand é impressionante. Da primeira à última cena, a atriz exala sentimentos que constroem a protagonista Mildred Hayes. O espectador cria, ao mesmo tempo, simpatia e desprezo pela personagem, em um filme que não tem nem herói, nem vilão, já que a raiva move (e muda) praticamente todos. Mas que tem razão e emoção em doses cavalares e permite um misto de emoções a quem assiste.

A simpatia por Mildred advém do que ocorreu com sua filha Angela, brutalmente estuprada e assassinada. Meses se passam sem que a polícia consiga resolver o caso e a mãe, então, decide chamar atenção: aluga três outdoors em sua cidade, Ebbing (Missouri), para cobrar ações dos homens da lei, cujo representante e alvo principal é o xerife William Willoughby (Woody Harrelson). ‘Bill’, admirado pela cidade, certamente é a maior voz da razão do filme, por mais que Mildred ache o contrário, e precisa conviver tanto com a dificuldade para investigar o caso de Angela e com os outdoors que o acusam, quanto com um câncer pancreático terminal.

O filme se desenvolve no ódio de Mildred pela polícia e em sua busca por justiça, que expõe, por sua vez, um radicalismo exacerbado da protagonista e leva ao sentimento de desprezo por Hayes, capaz, por exemplo, de passionalmente sugerir um “banco de dados de DNA” para todos os homens do país e penas de morte ou de atear fogo em uma delegacia.

Do outro lado da moeda está o policial Jason Dixon (Sam Rockwell), que também move desprezo e simpatia — sim, em ordem inversa ao que Mildred gera. Dixon transita do policial “machão”, que se acha acima de tudo e se coloca como o principal rival da mãe de Angela e seus outdoors, ao homem comum com empatia que sofre no incêndio e mesmo assim salva arquivos importantes.

A trama de história pesada não impede, ainda, momentos de forte humor negro. As cenas das idas de Mildred ao dentista amigo de Willoughby e à escola de seu filho Robbie (Lucas Hedges) são exemplos, bem como a ‘visitinha’ que o policial Dixon faz a Red Welby (Caleb Landry Jones), chefe da empresa de outdoors contratada por Hayes.

É um filme realmente muito bom, que justifica a vitória como Melhor Drama no Globo de Ouro e a indicação à estatueta de Melhor Filme. Suas quase duas horas passam rápido e a trama é envolvente. A indicação de Martin McDonagh a Melhor Roteiro Original é justa e há boas chances de vitória — o roteiro já venceu um Golden Globe. McDonagh estranhamente não concorre a Melhor Diretor, prêmio que, de qualquer forma, deve ficar com Guillermo del Toro (A Forma da Água).

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri ainda concorre com a dupla Woody Harrelson e Sam Rockwell a Melhor Ator Coadjuvante. Apesar do bom papel de Harrelson como Willoughby, a maior chance de estatueta na categoria é Rockwell, certamente a grande estrela do longa após Frances McDormand.

Há também indicações ao Oscar de Melhor Edição, categoria na qual é bom candidato, e de Melhor Trilha Sonora, em que, por sua vez, não chama tanta atenção.

Nota: 4,5/5

Sinopse:
Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o Delegado Willoughby, responsável pela investigação.

Maratona Oscar: Uma Mulher Fantástica/ Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Uma Mulher Fantástica/ Cesar Augusto Mota

Como tratar de uma maneira terna uma questão que ainda é um tabu na sociedade e bastante carregada de preconceito, a transexualidade? O diretor Sebastián Lelio, nesta grande produção chilena, utiliza recursos precisos e essenciais para ilustrar o que o ser humano tem de melhor e pior.

A história acompanha Marina Vidal (Daniela Vega), uma garçonete e cantora lírica que perde o namorado Orlando (Francisco Reyes) devido a um mal súbito. Após a tragédia, uma série de situações tristes e desagradáveis se desembocam. Recai sobre Marina uma suspeita de envolvimento na morte de Orlando, além de ser negado a ela o direito de se despedir do amado. Já dá para sentir as agruras pelas quais a protagonista irá passar, sem esquecer da discriminação por conta da orientação sexual dela e de como ela lida com tudo isso.

A abordagem das agressões físicas e psicológicas sofridas por Marina são muito bem contornadas, há situações que trazem um certo alívio e impedem que a trama seja sinônimo de calvário para ela: o apoio dado pelos amigos no ambiente de trabalho e fora dele, além das aulas de canto e a relação de amizade e afeto com o professor, que a enxerga como um grande talento e uma mulher forte e de personalidade.

Na medida em que as situações vão se apresentando e as mudanças na vida de Marina vão se configurando, você enxerga tudo sob a perspectiva da protagonista, além de conseguir ter uma empatia por ela e sentir na pele todas as agressões sofridas.  O roteiro consegue apresentar situações que vão ficando mais complexas por conta da falta de aceitação social à identidade de gênero de Marina, e tudo isso interfere negativamente na vida dela, sendo complicado para ela levar sua vida adiante, seja do lado profissional, como pessoal.

A atuação de Daniela Veja é, sem dúvida, o ponto alto do filme. A atriz passa autenticidade com sua personagem, além da sensibilidade evidenciada na luta por respeito e para fazer valer seus direitos como cidadã demonstrada durante a história. Uma importante mensagem fica implícita, além de um teor de denúncia presente, de comportamentos retrógrados e abomináveis que devem sem combatidos.

O uso de recursos como a câmera fechada no rosto da protagonista em boa parte do filme e do uso de efeitos especiais para construir uma metáfora e simbolizar que Marina é forte e inabalável não só enriquecem como também valorizam ainda mais a temática da produção, algo que não é tão explorado no cinema e que aos poucos vai ganhando mais espaço nas telas e mais debatido entre os amantes da sétima arte. Tudo ocorre de forma espontânea e sem forçar a barra, o que valoriza ainda mais o trabalho do diretor Sebastián Lelio.

Apesar do preconceito ainda enraizado numa sociedade intolerante e opressora, os transgêneros estão a cada dia ganhando mais espaço e enfrentando as adversidades de forma mais forte e digna. Um filme que merece todo o respeito e atenção de todos, vale a pena.

Avaliação: 4,5/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Lady Bird-A Hora de Voar/ Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Lady Bird-A Hora de Voar/ Cesar Augusto Mota

Uma história sobre autodescoberta, aprendizado, crescimento  e o desejo de alçar voos mais altos. Provavelmente você já deve ter visto um filme assim, mas ‘Lady Bird-A Hora de Voar’, de Greta Gerwig (Frances Ha), tem tudo isso e mais um pouco e fará você olhar para si mesmo e para os que estão ao seu redor de uma forma diferente, mais crítica, mais consciente.

Saoirse Ronan (Brooklyn) é Christine McPherson, ou ‘Lady Bird’, como se autodenomina, uma garota nada popular em uma escola católica da cidade de Sacramento, que deseja sair de casa e se livrar de suas raízes locais. Para ela não será nada fácil, pois para bater asas e voar, como sugere seu nome, terá que enfrentar uma grande jornada de amadurecimento, vários entreveros com sua mãe, Marion, interpretada por Laurie Metcalf (The Big Bang Theory), além de lidar com as decepções comuns às jovens de sua idade e superar o último ano do Ensino Médio, o terror da maioria dos adolescentes.

A história começa despretensiosa, mas após a cena da discussão entre Lady Bird e sua mãe no carro, com um breve silêncio, vamos sentir o peso das brigas e o quanto isso vai impactar na personalidade e no futuro da protagonista, além de momentos hilários com amigos e das decepções de Lady Bird com alguns planos frustrados. O roteiro, também assinado por Greta Gerwig, vem com propostas claras, como motivar e provocar o espectador; trazer os dramas e dificuldades adolescentes por um outro prisma, o de enxergar o mundo por sua própria ótica e também a dos outros; além de utilizar diálogos e recursos precisos para transmitir sinceridade à obra e mostrar que a vida é cheia de percalços e que nunca se deve perder a pose. É errando que se aprende, como estamos acostumados a ouvir.

Sem dúvida os calorosos e verborrágicos diálogos entre mãe e filha chamaram mais a atenção durante os 94 minutos de projeção, protagonizados por Saoirse Ronan e Laurie Metcalf. As duas mostraram um entrosamento incrível, além de conseguirem ilustrar um relacionamento tocante e cenas que fizessem o público se autotransportar para o mundo de Lady Bird, com sua criatividade, percepção, sensibilidade a tudo ao seu redor e a ousadia para driblar as situações mais difíceis. Laurie, como mãe da protagonista, apresentou o lado mais tenso do amor materno, além da postura superprotetora e zelosa, fazendo muitas mães se identificarem com ela. Já Saoirse consegue convencer e trazer o público para si, não só pela dificuldade que é o de interpretar uma jovem que está em fase de transição para a vida adulta, como encarar com naturalidade esse papel e passar segurança em suas atitudes, além de seus medos. Saoirse soube equilibrar as virtudes e os defeitos de sua personagem, bem como apresentou soluções inteligentes para seus problemas, além de nos brindar com momentos cômicos e emocionantes ao lado dos amigos. Destaque também para Timothée Chalamet (Me Chame pelo Seu Nome) e Beanie Feldstein (Vizinhos 2), dois amigos que possuem papéis importantes na trajetória de Lady Bird e  que vão cativar o público, tanto pela espontaneidade como pela força de seus personagens.

Investir em uma trama adolescente e contá-la de uma forma honesta, sem melodrama e fazer um se colocar no lugar do outro e entender suas necessidades, não só seus próprios anseios, são os ingredientes para o sucesso de ‘Lady Bird-A Hora de Voar’. Não foi à toa que o filme recebeu importantes indicações ao Oscar, como a de melhor direção, para Greta Gerwig, melhor atriz para Saoirse Ronan e atriz coadjuvante para Laurie Metcalf. Greta acerta a mão em fazer esse tipo de abordagem em seu filme e foge do lugar comum, além das duas atrizes cumprirem muito bem seus papéis e chamarem a atenção do público em geral. Um longa que alcançou voos altos, e que pode conseguir muito mais.

Avaliação: 4,5/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Eu, Tonya/ Cesar Augusto Mota

Maratona Oscar: Eu, Tonya/ Cesar Augusto Mota

Está prestes a chegar ao circuito nacional mais uma cinebiografia, mas se você pensa que se trata de mais um filme sobre uma celebridade que está no auge do sucesso, atravessa diversas adversidades, mas depois se reinventa e reencontra a felicidade, está enganado. ‘Eu, Tonya’, indicado em três categorias no Oscar 2018, como montagem, atriz coadjuvante e atriz principal, não procura glamourizar e tampouco transformar em mito a protagonista, a fórmula utilizada aqui é diferente, e sem dúvida, vai chamar a atenção de quem acompanhar.

Dirigido por Craig Gillespie (Arremesso de Ouro), ‘Eu, Tonya’ retrata a trajetória de Tonya Harding (Margot Robbie), da infância pobre ao auge da carreira na patinação artística no gelo, bem como seu declínio. Além de sua carreira, o longa retrata os dramas pessoais vividos pela personagem central, com os abusos e agressões sofridos da mãe exigente, sarcástica e debochada, Lavona Harding (Allison Janney), e os maus tratos do marido até o episódio que culminou com denúncia e julgamento nos tribunais de uma brutal agressão sofrida por sua concorrente, Nancy Kerrigan (Caitling Carver), que teve seu joelho quebrado às vésperas das Olimpíadas de Inverno, em 1994. Por trás desse ataque covar de, estavam Jeff Gillooly (Sebastian Stan), o marido de Tonya, e Shawn (Paul Walter Hauser), seu segurança, num dos capítulos que acabaram por culminar com o fim do percurso de uma das atletas mais promissoras da patinação estadunidense nos anos 1990, mesmo sem a comprovação da participação efetiva de Tonya no caso.

O primeiro terço do filme traz como destaque Lavona, mãe de Tonya, muito bem interpretada por Allison Janey. Se Gary Oldman está irreconhecível e impecável em cena em ‘O Destino de Uma Nação’, o mesmo acontece com Allison. A maquiagem e a transformação pela qual passou a aproximaram da aparência idosa da mãe de Tonya, além dos trejeitos desenvolvidos pela atriz durante a trama e condução de sua personagem, com cenas memoráveis junto de Margot Robbie. Lavona, mesmo sendo uma mãe controversa e longe de ser exemplo para a filha, com seu jeito turrão e debochado, exigia sempre o melhor de Tonya e que ela nunca se conformasse com pouco, mesmo que para isso precisasse partir para meios mais violentos.

Margot não fica atrás e mostra que mereceu a indicação de melhor atriz no Oscar. A australiana apresenta ao público uma personagem multifacetada, em dados momentos chora, em outros ri, há espaço para expressar felicidade e euforia ao se lembrar que foi uma patinadora de sucesso e também consegue transparecer culpa ao relembrar do incidente com sua ex-colega. Reunir tudo isso em apenas uma personagem e conseguir transmitir autenticidade e verdade ao espectador é algo muito difícil, e Margot consegue fazer isso com eficiência, uma atuação memorável.

O formato do filme é diferente e faz o espectador não tirar os olhos da tela e se interessar pela história de Tonya. Não há apenas uma reconstituição dos fatos, a popular dramatização, existe também uma espécie de documentário presente no filme, com uma série de depoimentos dos envolvidos direta ou indiretamente com a vida de Tonya Harding, com entrevistas e depoimentos (dos atores), além da parte investigativa, do drama, do suspense e alguns momentos hilários, sem esquecer da quebra da quarta parede, com os personagens interagindo com o espectador e interrompendo as ações. O roteiro, assinado por Steven Rogers (P.S Eu Te Amo), tem como mérito não reduzir a vida de uma pessoa a apenas um fato, mas humanizar a imagem da protagonista e mostrar o que está por trás da personalidade de Tonya Harding, como as agressões, as pressões para ser a melhor em seu esporte, a obsessão pelo sucesso e o preconceito sofrido por não ser esteticamente agradável aos olhos dos jurados da patinação no gelo. Quem vê Tonya se lembra dela por diversos motivos, e várias mensagens são transmitidas durante o filme, e uma delas é uma crítica à cultura americana, de cultuar o belo e a perfeição como requisito para o sucesso. O filme também acerta nessa proposta.

Um filme dramático, cuidadosamente construído e com uma biografia que consegue conectar a protagonista com o público. ‘Eu, Tonya’ é um dos longas-metragens melhor produzidos, com uma equipe de primeira, da direção ao elenco, todos em harmonia e com um excelente resultado. Faz juz às indicações ao Oscar.

Avaliação: 4/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota