Maratona Oscar(republicado): Bohemian Rapsody/Cesar Augusto Motta

Maratona Oscar(republicado): Bohemian Rapsody/Cesar Augusto Motta

“Um bando de desajeitados cantando para desajeitados, um complementando o outro, somos uma família”. Com essas palavras do lendário líder da banda Queen, Freddie Mercury, explicando porque seu conjunto é diferenciado dos demais, inicia-se a cinebiografia que traz o nascimento e a trajetória da famosa banda inglesa, bem como de seu líder, que deixou saudades e um rico legado musical há 27 anos. Uma obra para agitar o corpo e a mente dos fãs do rock n roll e também dos fãs de cinema, com o protagonismo de Rami Malek (Mr. Robot) na pele de Mercury e um grande elenco.

O primeiro ato de ‘Bohemian Rhapsody’, sob a direção de Dexter Fletcher (Voando Alto), tem o cuidado de retratar as origens de Mercury (Malek) e seus primeiros passos na música. A relação difícil com sua família zoroastra e paquistanesa, além da relação de amizade com Mary Austin (Lucy Boynton) e a formação da banda com Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Bem Hardy), John Deacon (Joseph Mazello) dão o tom de como será a projeção ao longo de seus 135 minutos de duração. A essência e os ideais da banda são devidamente personificados por seu líder, que tinha como premissa de dar mais passos adiante e tentar coisas inéditas, como misturar gêneros, de roc k com ópera, além de desafiar estereótipos e trazer canções que soassem como poesia e mexessem com os sentimentos dos fãs. E um dos grandes sucessos do grupo, ‘Bohemian Rhapsody’, que dá título ao longa, representa muito bem o que os músicos queriam com suas letras, além de uma interação forte com a plateia, incentivando a cantar os sucessos e a fazer gestos com o corpo. E ainda há espaço para os desentendimentos de Freddie Mercury com seus companheiros e um grande show feito em Wembley, o Live Aid, voltado ao combate a fome na África, que eletrizou toda a plateia presente e os mais de 180 países que acompanhavam pela televisão.

Ao longo da narrativa, a face do vocalista do Queen vai sendo devidamente construída, com seu lado espontâneo, extrovertido e jeito irreverente nos palcos e seus dramas pessoais fora deles, como o medo de ficar só e também questões acerca de sua sexualidade e a dificuldade de lidar com a fama e a imprensa. A composição de Bohemian Rapsody, com os métodos criativos de Freddie Mercury, além dos incentivos feitos por ele a cada um dos companheiros a melhorar suas performances fazem o filme ganhar ainda mais dinamismo e novos contornos são traçados, importantes do segundo para o terceiro ato. A crise existente no grupo, por conta de mudança no estilo de vida de Mercury, além de sua doença tornam o longa mais tenso e complexo, pr omovendo uma inserção maior do público, que passa a ter uma noção da real dimensão do Queen e de seu líder.

Mesmo com interessantes premissas e um belo trabalho de direção de arte, com adereços que lembra os anos 70 e 80 e um perfeito jogo de luz e sombras nas cenas mais dramáticas, há problemas de profundidade dos personagens secundários, eles não ganham muitos contornos, como Mary Austin e Paul Prenter, o maior antagonista da trama, suas interações são muito mecanizadas,  e alguns fatos que marcaram o Queen e a vida de Freddie Mercury, que levaram anos para ocorrer, são dramatizados em um curto intervalo dando a impressão que tudo ocorreu em um único dia, prejudicando a continuidade da história.

Apesar de alguns problemas, Rami Malek conseguiu encarnar muito bem o líder do Queen e demonstrou ter se preparado e mergulhado de cabeça no personagem, principalmente nas cenas que exigiam um esforço maior em lidar com as pressões profissionais que o cercavam, além das interações mais enérgicas com seus colegas e o executivo da EMI, Ray Foster, representado por Mike Myers, que não acreditava que o Queen pudesse alçar voos mais altos e se tornar um fenômeno do rock. Malek se mostra forte, contagiante e um perfeito intérprete para uma linda e épica história, não só da banda, mas do líder e icônico Freddie Mercury.

Dotado de grande beleza estética, interações fortes, além de momentos épicos e regados a interpretações sensíveis e contagiantes, ‘Bohemian Rhapsody’ é um filme convidativo a todos os fãs de música e de boas histórias que mereçam ser contadas. E a trajetória de Freddie Mercury e do Queen estão entre as narrativas que vêm para marcar e serem passadas de gerações a gerações. Super recomendo!

Cotação: 3,5/5 poltronas.

 

Maratona Oscar: Roma/ Gabriel Araujo

Maratona Oscar: Roma/ Gabriel Araujo

Roma 3Por: Gabriel Araujo

A aclamação em torno do mais recente longa de Alfonso Cuarón, o autobiográfico “Roma“, é totalmente justificada. Com uma incrível dose de sensibilidade e pitadas do amargor latino-americano da década de 1970 (o título do filme remete a um bairro da Cidade do México), o lançamento da Netflix já garantiu dois Globos de Ouro ao diretor mexicano e chega ao Oscar indicado a dez categorias – o que já não seria nada mal para um filme americano, é uma fantástica realização para uma produção do México. “Roma” é favoritíssimo (com ‘F’ maiúsculo, diria o outro) ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, mas não surpreenderia com vitórias em outras categorias, seja por roteiro, edição ou direção.

O filme é protagonizado por Cleo (Yalitzia Aparicio), empregada doméstica de uma família de classe média, da qual Sofía (Marina de Tavira) é matriarca – são quatro crianças na casa. A trama desenrola-se pelas histórias pessoais das duas, especialmente no que tange à gravidez de Cleo e à crise do casamento de Sofía com Antonio (Fernando Grediaga), recorrentemente utilizando como plano de fundo o cuidado para com as crianças.

A edição de “Roma” é absolutamente magistral. Filmado em branco e preto, o longa traz uma fotografia que impressiona. Pode ser, sim, considerado monótono por alguns, mas a capacidade de reflexão a que induz contrapõe-se a qualquer lentidão, especialmente na abordagem de questões sociais e étnicas. Há um bom uso de antíteses para tais reflexões: rico x pobre, confronto evidenciado pela classe-média da família e pela pobreza do bairro onde Cleo procura seu (ex)namorado Fermín (Jorge Antonio Guerrero); americano x mexicano, observado em uma reunião dos latinos com a parcela ianque da família; e mesmo os elementos, céu x terra x água x fogo, que surgem, respectivamente, em filmagens de aviões, nas fezes do cachorro, na lavagem do quintal/na ida à praia e no incêndio do rancho.

Algumas de suas cenas tendem a se marcar na eternidade do cinema, principalmente a belíssima passagem na praia, já na parte final do longa, que tem tocado até os corações mais molengas. Ou mesmo a cena em que a bolsa de Cleo se rompe em meio aos conflitos de uma manifestação de estudantes. São sequências muito poderosas.

Em seu Twitter, o atual detentor do Oscar de Melhor Diretor (e de Melhor Filme), o também mexicano Guillermo del Toro (“A Forma da Água”), fez uma análise de “Roma” em dez postagens. Então, não parece exatamente necessário que o pseudo-crítico deste blog continue a divagar sobre as intensidades de Roma. Clique aqui e leia o que pensa del Toro, que não surpreenderia se tivesse de “passar o bastão” de melhor diretor pela Academia a Cuarón. Se isso de fato ocorrer, seria o quinto Oscar mexicano na categoria apenas nesta década – além de del Toro no ano passado, Alejandro González Iñárritu venceu duas vezes (por “Birdman” e “O Regresso”, em 2015 e 2016, respectivamente) e o próprio Cuáron, que agora apresenta sua obra-prima, faturou por “Gravidade”, em 2014. Impressionante.

Sinopse:
Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.

Maratona Oscar: Nasce uma Estrela/Anna Barros

Maratona Oscar: Nasce uma Estrela/Anna Barros

É meu filme preferido do Oscar. Por quem irei torcer apesar de  saber que o filme perdeu gás desde que estreou até agora. Green Book e Bohemian Rapsody ganharam corpo nessa reta final. Mas Nasce uma Estrela tem tudo de um filme épico: drama, romance, reflexão, a busca pela fama, a derrocada dela, envolvimento com drogas e álcool permeados por uma linda história de amor.

Achei injustiça Bradley Cooper não concorrer a Melhor Diretor porque o filme é muito bem dirigido, todo em plano-sequência e com a impressão de que você está no palco ou na plateia com Jack e Ally. Lady Gaga está estupenda como atriz, totalmente desconstruída de pop star que merecidamente é e numa performance sensível e tocante. Você enxerga Ally totalmente na sua aspiração por ser uma artista de sucesso e no amor profundo e bonito que sente por Jack. Só perde para Glenn Close, se perder. Bradley está maravilhoso como o artista decadente que num gesto de generosidade alça ao estrelato uma cantora desconhecida e acaba se apaixonando por ela. Uma entrega sem igual, firme e dócil de um pop star que vê sua carreira escorrendo pelas mãos por causa das drogas e do álcool. Eu adoro Bradley Cooper e essa é uma das suas melhores interpretações. E olha que gostei do Pat de O Lado Bom da Vida. Além de bonito e de ter sex-appeal, Bradley Cooper canta e muito bem. Seu dueto com Lady Gaga em Shallow é simplesmente divino.

A outra interpretação interessante é de Sam Elliott como o irmão de Jack.  Ele é contido, determinado, e extremamente invejoso quanto ao talento do irmão, que o venera, A  performance é tocante e quando saí do cinema, já sabia que concorria. Ele tem 74 anos e é a sua primeira indicação ao prêmio. Tem como forte concorrente, Maherhsala Ali por Green Book: O Guia. Maherhsala ganhou por Midnight essa categoria em 2017.

E tanta interpretação forte e comovente só poderia ter uma trilha sonora maravilhosa com Shallow, que a meu ver, é a grande barbada da noite do Oscar. Lady Gaga compôs todas as músicas da trilha e deve levar com essa canção que nos remete ao filme.

O filme também concorre a Melhor Roteiro Adaptado num roteiro bem amarrado, insinuante e cujo desfecho é impactante e profundo, por vezes cruel. A impressão que tive foi que foi escrito para que Lady Gaga brilhasse tamanha a generosidade contida nele e ela simplesmente não  decepcionou.

Nasce uma Estrela é um filme de impacto, que fica na sua retina e na sua memória por várias semanas e no faz crer que o amor requer sacrifícios e renúncias e que temas tão atuais como fama, exposição, sucesso e fracasso são atemporais. A história é um remake e não deve nada às anteriores.

Na Noite do dia 24 de fevereiro, minha torcida toda irá para Bradley Cooper, Ladu Gaga e Nasce Uma Estrela, um dos filmes mais lindos que vi em 2018 e talvez nos últimos cinco anos. Para ver, rever, refletir e se emocionar. Chorei litros.

Nasce uma Estrela concorre a 8 categorias.

São elas:

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Ator

Melhor Atriz

Melhor Ator Coadjuvante

Melhor Música Original

Melhor Fotografia

Melhor Mixagem de Som

Melhor Filme

 

Maratona do Oscar(republicado): Inflitrado na Klan/Cesar Augusto Mota

Maratona do Oscar(republicado): Inflitrado na Klan/Cesar Augusto Mota

Dotado de capacidade de realizar grandes debates acerca dos temas que são abordados em seus filmes, o emblemático e consagrado cineasta Spike Lee (Malcom X) mais uma vez vem para mobilizar o público e lhe dar um tapa na cara com uma produção que fala de supremacia branca e manipulação. ‘Infiltrado na Klan’ (BlaKKKlansman) conta com um roteiro de alta qualidade, perfeita produção cinematográfica e um grande elenco.

A narrativa conta a história real de Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro que conseguiu se infiltrar dentro da Ku Klux Klan, em 1978, com a ajuda de seu amigo e parceiro Flip (Adam Driver), no intuito de desmontar a organização e proteger Patrice (Laura Harrier), uma militante estudantil do movimento negro. Ron se passa por um branco racista ao telefone, começa a estreitar relações com o chefe do grupo, David Duke (Topher Grace), e quando precisa comparecer pessoalmente aos cultos, Stallworth pede ao seu colega Flip para que assuma seu papel.

O roteiro traz uma premissa tão interessante que faz o espectador rir de algumas situações que beiram ao absurdo e se revoltar com as atrocidades que são ilustradas. Além disso, o filme não fica restrito a registrar algo que ocorreu no passado, o tema racismo ainda é bastante atual, com a existência de diversos grupos que disseminam supremacia da raça branca, realizam discursos de ódio e são capazes de se alastrar mais rapidamente. E além do racismo, há também a questão da lavagem cerebral e a capacidade de manipulação de quem está ao redor, e isso é muito bem retratado na figura de David Duke, líder do Klu Klux Klan e com claras aspirações políticas.

Spike Lee, ao realizar um filme como esse, o faz de uma maneira ímpar e mostra a todos que ainda existem pessoas com mente retrógrada, conservadora e que enxergam o negro como um ser inferior e ameaçador aos seres humanos. E também pondera que pessoas com esse perfil podem estar onde você menos espera, inclusive no seu círculo de amizades ou até mesmo em seu seio familiar e que todo o cuidado deverá ser pouco e a luta contra a opressão não pode parar.

Os atores fogem dos perfis caricatos, todos imprimem seriedade em suas atuações e um pouco de veia cômica em situações pontuais. Há ficção dentro da ficção, com pessoas se passando por outras, no caso um branco assumindo o lugar de um negro e um negro de um branco. Esse ponto diferencial faz o filme ganhar ainda mais força e se transformar numa espécie de comédia política. Mais um trabalho diferenciado e qualificado de Spike Lee.

John David Washington (Monster) tem o mérito de assumir uma postura cômica no início da trama e transparecer diferentes faces de fúria diante das adversidades e dos inimigos. Há veracidade em suas intervenções, o público compra sua postura e torce para ele conseguir desconstruir o forte esquema opressor liderado por David Duke. Adam Driver (Star Wars-Os Últimos Jedi) também se destaca, e traz outra questão importante e até hoje discutida, a intolerância religiosa. Ao interpretar um judeu, foi possível perceber que ainda existem grupos resistentes ao judaísmo e que o combatem fortemente, lamentavelmente. A naturalidade de Druver impressiona e complementa o personagem de John David Washington, a dupla funciona e faz a tr ama se movimentar de maneira eficiente e intensa.

Um filme forte, necessário e provocativo, ‘Infiltrado na Klan’ não só merece ser assistido como também se fazer presente nas rodas de debate. Spike Lee toca em um ponto ainda longe de ser pacificado e que requer persistência e lutas constantes para que possa ser severamente combatido, a intolerância. Um filme que não é mera sugestão, mas obrigatório.

Cotação: 5/5 poltronas.

 

Maratona do Oscar(republicado): Nasce uma Estrela/Cesar Augusto Mota

Maratona do Oscar(republicado): Nasce uma Estrela/Cesar Augusto Mota

Todo artista em início de carreira precisa provar para si mesmo que possui talento, acreditar nele e ir à luta. E talento não está só na habilidade, mas também se tem algo diferente a dizer. Com essas palavras, ditas pelo personagem Jackson Maine, é iniciado o longa dirigido por Bradley Cooper, ‘Nasce Uma Estrela’ (A Star is Born), que conta com sua própria atuação, além da estrela musical Lady Gaga.

Gaga interpreta Ally, uma jovem que trabalha em um restaurante para pagar suas contas e sonha em ser uma cantora de sucesso. À noite, canta em um clube noturno e em uma de suas apresentações, ela conhece Jackson Maine (Cooper), um grande astro da música de carreira consolidada. Ao perceber na moça grande talento e aptidão para a carreira musical, Maine resolve ajudar Ally, chamando-a ao palco em um de seus shows, realizando um fascinante dueto e arrancando aplausos da plateia. E isso foi só a largada para que Ally começasse a alçar voos mais altos até chamar a atenção do empresário Rez (Rafi Gavron). Na medida em que a carreira de Ally vai crescendo, Jack vai entrando em declínio, perdendo a batalha contra o alcoolismo e o vício em drogas. Apaixonados, os dois tentam se apoiar, mas tudo acaba se complicando ainda mais que o previsto.

Temos uma belíssima história, de altos e baixos, com  Cooper focando nas relações íntimas dos intérpretes, e não propriamente na carreira musical. As palavras de Ally e Jackson são envolventes, emocionantes e movimentam a trama. Os momentos opostos vividos pelos protagonistas mobilizam a plateia, com Jack sofrendo para vencer seus vícios e Ally na expectativa de se consagrar de vez como estrela pop, mas antes tentando superar ao lado de Jack o drama vivido por ele.

Não só a narrativa impressiona, mas o talento de Cooper como cantor e compositor demonstrado durante a projeção, os timbres de voz alcançados por Lady Gaga e o desenvolvimento complexo dos personagens. Nos momentos dramáticos, Cooper escorrega um pouco, mas não compromete o andamento e a essência da história. Já Lady Gaga mostra que sua performance como Ally foi a melhor de sua carreira, e não seria exagero dizer que ela tem chance de conseguir uma indicação ao Oscar, tamanho foi o bom retorno que sua participação no longa teve entre imprensa e espectadores.

O plano fechado usado para destacar as emoções dos personagens, bem como o aberto para detalhar os artistas e o público dão uma perfeita profundidade das cenas,  realçadas com cores vermelhas para ilustrar a intensidade e o frenesi das apresentações. A direção de fotografia, de Matthew Libatique, acerta a mão e entrega ao espectador um resultado espetacular, aliado às competentes atuações dos protagonistas e do elenco secundário.

Como estreante na direção, Bradley Cooper não faz feio e traz ao público um filme sensível,  de grandes números musicais e lindas mensagens transmitidas nas letras das canções. “Nasce Uma Estrela” tem muito a nos dizer,  é muito mais que um remake.

Cotação: 5/5 poltronas.