Poltrona Cabine: Enzo/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Enzo/Cesar Augusto Mota

Você certamente já ouviu a expressão “Uma imagem vale mais que mil palavras”. E se o silêncio dissesse mais que simples diálogos? Com direção de Robin Campillo e roteiro assinado por este e Laurent Cantet, “Enzo” tratará dos dilemas de um jovem acerca das complexidades nas relações familiares, a existência de pressões sociais e as dificuldades na tomada de decisões.

Enzo (Eloy Pohu), um jovem de 16 anos em fase de amadurecimento e construção de caráter, resolve romper com as expectativas idealizadas por sua família rica, de um mundo de luxos e privilégios, e decide se dedicar ao ofício de aprendiz de pedreiro. Em um canteiro de obras no sul da França, o protagonista conhece o ucraniano Vlad (Maksym Slivinskyi), que fica indeciso sobre a permanência na França ou o retorno para a terra natal e lutar na guerra contra a Rússia. Esse encontro muda a vida dos dois, principalmente de Enzo, no quesito escolhas e expressão de seus sentimentos.

O dia a dia de Enzo reflete um espaço de constante tensão, com pressão em seguir um padrão social já estabelecido em sua família e o receio de ir em sentido contrário ao que se espera dele. Com dificuldade em verbalizar o que sente, Enzo, em seus momentos de silêncio, não só mobiliza o espectador como permite a ele deduzir o que ele está pensando e possíveis atitudes que pode tomar diante de um conflito. A falta de palavras sintetiza curiosidade, frustração e insegurança, e a partir da calmaria o personagem começa a se construir.

A abordagem de Robim Campillo é caracterizada pela discrição e realismo, com a câmera inclinada e focada nas expressões faciais do protagonista. A abordagem íntima e sensível utilizada para ilustrar o mundo do personagem-central se dá de forma honesta, sem alardes e o uso de temas como amadurecimento e pertencimento permite a quem já vivenciou situações semelhantes as de Enzo se identificar com o personagem. A proposta funciona, aliada a ótimas e contidas atuações do elenco, com um pai que faz um eficiente contraponto ao filho e uma mãe que tenta compreendê-lo, mas não sabe o que fazer para ajudá-lo.

“Enzo” não traz soluções fáceis e nem faz explicações sobre as complexidades e fragilidades da trajetória de um adolescente em meio a tantas pressões e dúvidas. As respostas se dão de forma implícita e o silêncio dita o ritmo da trama, o que surpreende o espectador.  A imagem e a ausência de som podem dizer muito sobre um personagem, e as amplas possibilidades de interpretação são outros atrativos para quem curte novidades e deseja saber o desfecho dessa história. Uma obra sensível, envolvente e surpreendente.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

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