Escritora indiana abandona Festival de Berlim após restrição a comentários sobre política

Escritora indiana abandona Festival de Berlim após restrição a comentários sobre política

A escritora Arundhati Roy Berlinale – Reprodução

Escritora, cineasta e ativista antiglobalização, a indiana Arundhati Roy, deixou o festival de cinema de Berlim após o diretor do evento dizer que “os cineastas não deveriam comentar sobre política”.

O festival teve um início conturbado na quinta-feira (12), depois que o júri da competição, liderado pelo cineasta alemão Wim Wenders, respondeu a perguntas sobre o conflito em Gaza. Ao ser questionado se os filmes podem afetar mudanças políticas, Wenders disse que “os filmes podem mudar o mundo”, mas “não de uma forma política”.

Wenders acrescentou que os cineastas “têm que ficar fora da política porque, se fizermos filmes declaradamente políticos, entramos no campo da política. Mas nós somos o contrapeso da política, somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não o trabalho dos políticos.”

Arundhati classificou a fala de Wenders de “inadmissível” e temeu que a fala tivesse alcançado “milhões de pessoas em todo o mundo”, disse ela, em comunicado divulgado nesta sexta-feira (13).

Vencedora do Booker Prize, principal prêmio literário britânico em 1997, a indiana afirmou: “Ouvir dizerem que a arte não deve ser política é de cair o queixo. É uma forma de encerrar uma conversa sobre um crime contra a humanidade enquanto ele se desenrola diante de nós em tempo real – justamente quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo o que podem para impedi-lo.”

“Fiquei profundamente perturbada com as posições adotadas pelo governo alemão e por várias instituições culturais alemãs sobre a Palestina, mas sempre recebi solidariedade política quando falei ao público alemão sobre minhas opiniões sobre o genocídio em Gaza.”

Wenders é o atual presidente do júri da Berlinale deste ano, que inclui o diretor e produtor americano Reinaldo Marcus Green, a cineasta japonesa Hikari, o diretor nepalês Min Bahadur Bham, a atriz sul-coreana Bae Doona, o diretor e produtor indiano Shivendra Singh Dungarpur e Ewa Puszczyńska – produtora do filme vencedor do Oscar Zona de Interesse, sobre a vida doméstica idílica de um comandante de Auschwitz e sua família.

Houve questionamento sobre o apoio do governo alemão a Israel. Puszczyńska chamou a pergunta de “complicada” e “um pouco injusta”. “Estamos tentando falar com as pessoas para fazê-las pensar, mas não podemos ser responsáveis pela decisão delas de apoiar Israel ou apoiar a Palestina”, disse ela. “Existem muitas outras guerras onde o genocídio é cometido e não falamos sobre isso.”

Para a escritora indiana, “o que aconteceu em Gaza é um genocídio do povo palestino pelo Estado de Israel”. Ela acrescentou: “Isso é apoiado e financiado pelos Estados Unidos e Alemanha, bem como por vários outros países da Europa, o que os torna cúmplices do crime. Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não podem se levantar e dizer isso, devem saber que a história os julgará. Estou chocada e enojada.”

Fonte: DCM

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