
Mesclar a ficção com a realidade tem sido uma prática na sétima arte, mas utilizar áudios, vídeos e fotos originais do acontecimento não só representa autenticidade, como também seriedade e um apelo antibelicista que deve ser levado a sério e ouvido por todos. E não foi à toa que “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, levou o Leão de Prata no último Festival de Veneza e é um potencial candidato a representar a Tunísia no Oscar 2026.
O filme ilustra uma noite de terror em Gaza, quando uma chamada de emergência ao Crescente Vermelho, departamento humanitário da Cisjordânia, se transforma em uma luta desesperada pela vida de Hind Rajab, uma criança palestina de 6 anos presa dentro de um carro sob fogo cruzado. O espectador acompanha a tentativa angustiante de um grupo de voluntários para coordenar um resgate em meio à violência implacável, mantendo contato telefônico constante com a menina.
A obra procura ser direta, simples e com forte apelo, sobre a voz de Hind Rajab, que precisa ser ouvida em meio a um cenário caótico, sangrento e perturbador. O foco é a realidade, mas as atuações do elenco dão um norte ao espectador e o conduz em uma história angustiante e de atmosfera que clama por urgência. O cansaço, o desespero e o foco dos integrantes do Crescente Vermelho são tão impactantes que proporcionam uma maior imersão do público na história, que sente o desgaste emocional e desespero das vítimas, por uma estrutura de salvamento tão modesta e precária.
A produção não só simboliza um grito por socorro, mas a defesa da memória de crianças e famílias que tiveram suas vidas negligenciadas, molestadas e silenciadas. O grito de Hind Rajab simboliza o sentimento de um povo, que clamou por sobrevivência e pelo direito de sonhar e viver. Os civis de Gaza ganharam rosto e voz na esperança do fim da guerra.
Um filme aterrorizante, mas humano e necessário. Não se deve deixar passar “A Voz de Hind Rajab”, para relembrar esta e outras histórias semelhantes, clamar por justiça e o anseio por conscientização internacional sobre liberdade e direitos humanos.
Cotação: 5/5 poltronas.
Por: Cesar Augusto Mota