Poltrona Cabine: Cyclone/Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: Cyclone/Cesar Augusto Mota

As cinebiografias ainda continuam em alta entre os cinéfilos, e a bola da vez é um ícone do início do século XX, que teve que superar os percalços e lutar contra a sociedade da época para mostrar que a mulher tem valor no círculo social e nas artes. Trata-se de Maria de Lourdes Castro Pontes, conhecida como Daisy. Ou melhor, Miss Cyclone. Dirigida por Flávia Castro, “Cyclone” vem não só para relembrar uma figura marcante, como também para ilustrar como a mulher até os dias de hoje ainda é muito negligenciada, principalmente no tocante ao seu corpo.

Na trama, Daise (Luiza Mariani), uma operária que divide o tempo entre o trabalho em uma gráfica e sua paixão pela dramaturgia, ganha uma bolsa de estudos em teatro para Paris, porém tem de enfrentar seu maio desafio: conseguir se afirmar em uma sociedade que nega às mulheres o direito de sonhar e de serem donas do próprio corpo.

De início, a protagonista se sente uma pessoa aprisionada e chega até a duvidar de si mesma sobre ser uma boa escritora. Com a ajuda de pessoas que conheceu no teatro e sua força interior, Daise consegue aos poucos remover as pedras de seu caminho para se fazer percebida no meio artístico. O plano de fundo fechado e a câmera de frente mostra muito bem a personagem- central com seu grande ímpeto em superar burocracias e driblar o machismo predominante nos anos 10, período Modernista.

O nome Cyclone é bem sugestivo e faz jus a Daise, pois ela enfrentou diversos ciclones e tempestades da vida sem baixar a cabeça, e essa vontade foi a mola propulsora da obra. Além da performance de Luiza Mariani, que entrega tudo o que se espera, o trabalho da cineasta Flávia Castro é outro diferencial, como uma linguagem provocativa, um plano visual com imagens granuladas para ilustrar as dificuldades e limitações das produções da época e o destaque para a linguagem corporal de Daise durante a narrativa, que diz muito sobre a artista e o que ela queria transmitir.

O dito popular “A primeira impressão é a que fica” pode ter sido aplicado a outras cinebiografias, o que não é o caso dessa, visto que Daise em sua última cena ilustra o quão vencedora foi e que é possível chegar aonde quiser com o dom que tem. Um filme impactante, convidativo e necessário para a sociedade atual.

Cotação: 5/5 poltronas.

Por: Cesar Augusto Mota

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