Falar sobre o amor é agradável na maioria das vezes, ainda mais por se tratar de um sentimento que é o motor da vida e capaz de controlar os conflitos e sensações. E o que você acha de um filme que fale dele de uma maneira lúdica, poética e também com a temática LGBT? ‘Conquistar, Amar e Viver Intensamente’ (Plaire, aimer et courir vite), do diretor Christophe Honoré (Bem Amadas) promete ilustrar que o amor, se vivido intensamente, é capaz de provocar grandes reviravoltas na vida.
Jacques (Pierre Deladonchamps) é um escritor que passa por sérios problemas de saúde, sendo portador do vírus HIV e cada vez mais isolado do meio social, Arthur (Vicent Lacoste) é um jovem bretão que está estudando em Rennes, mas não possui planos para seu futuro e quer saber mais de curtir a vida e vivê-la como se não houvesse mais amanhã. Os dois são fãs dos passeios à noite e muito bem resolvidos com a questão da sexualidade, mas quando se conhecem, começa uma relação forte, e daí surgem alguns desafios para que esse forte laço se mantenha, como a diferença de idade, Jacques com 35 anos e Arthur com 15 anos a menos e a distância entre eles, pois um está em Paris e o outro em Rennes. Além disso, há a questão da morte pairando sobre o amor entre eles e também a ternura que tenta se sobressair ao desespero, mas Jacques e Arthur tentam seguir a vida contra todas as adversidades diante deles.
Retratar o medo de morrer de uma forma delicada, sem o uso de imagens fortes e marcas no corpo de Jacques, e o uso de discursos poéticos mencionando a literatura, exaltação à vida e imagens que expressem liberdade e contemplação são escolhas acertadas do roteiro, trazendo mais leveza e beleza ao espectador. Frases de efeito como ‘viva intensamente sem amanhã’ e ‘não importa o risco da situação, mas o prazer que ela pode proporcionar’ também são recursos utilizados no sentido de aproximar o público dos protagonistas e fazê-lo torcer para uma relação duradoura dos dois, ou pelo menos até onde ela puder se sustentar, tamanha seriedade de Jacques e o carisma e entusiasmo de Art hur, um jovem descobrindo a vida e com um longo caminho pela frente.
A diferença de personalidades dos dois personagens centrais, Jacques mais realista e sincero e Arhur, mais otimista e romântico, representa um ótimo contraponto, uma forma de ambos se completarem. Os discursos existenciais e filosóficos que ambos tecem servem para mostrar como cada um enxerga a vida e quais as perspectivas que eles têm para o futuro, apesar de um acreditar que seu tempo de vida está cada vez mais curto, e o outro sonhando em viver em Paris ao lado de seu amado e fazer um filme. O espaço de tempo que eles ficam separados serviu para mostrar que a relação entre eles era sincera e que o sentimento era verdadeiro, muito embora ambos tenham saído com outras pessoas e todo relações, boa parte delas apenas para satisfazer a libid o.
O plano visual, com paleta de cores azuis nas cenas românticas e a execução de música clássica em variadas cenas são outros atrativos, em alguns momentos as imagens conversam com o público, mais do que os diálogos. E quando estes são tecidos, são de uma forma mais série e comovente, com o intuito de impactar e provocar reflexão acerca dos obstáculos criados em decorrência não só da doença de Jacques, mas dos conflitos e dilemas vividos por Arthur e a tentativa de resolução deles.
Com um ótimo paralelo entre os amores cotidianos e as referências a todas as artes, além de belíssimas imagens de cartões postais da Cidade-Luz e uma trilha sonora arrebatadora, do clássico ao lúdico, ‘Conquistar, Amar e Viver Intensamente’ cumpre muito bem o seu papel, o de abordar o amor sob um diferente prisma, e a sua capacidade de transformar a vida e as percepções de duas pessoas de trajetórias e vivências tão diferentes. Uma obra de arte.
Cotação: 4/5 poltronas.
