Maratona Oscar: Três Anúncios para um Crime/ Gabriel Araújo

Maratona Oscar: Três Anúncios para um Crime/ Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araujo (@gabriel_araujo1)

Maratona Oscar: “Três Anúncios para um Crime”

É fato que a “dona” de “Três Anúncios para um Crime”, Frances McDormand, tem missão complicada no Oscar ao concorrer o prêmio de Melhor Atriz com gente do quilate de Meryl Streep. Como também é fato que sua atuação — que já a rendeu um Globo de Ouro — a credencia para levar também o troféu da Academia e impulsiona, ao lado do excelente roteiro de Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri à indicação como Melhor Filme. E essas são apenas duas das sete indicações recebidas pelo bom longa no prêmio.

No filme de McDonagh, os coadjuvantes aparecem bem, mas o domínio da tela por McDormand é impressionante. Da primeira à última cena, a atriz exala sentimentos que constroem a protagonista Mildred Hayes. O espectador cria, ao mesmo tempo, simpatia e desprezo pela personagem, em um filme que não tem nem herói, nem vilão, já que a raiva move (e muda) praticamente todos. Mas que tem razão e emoção em doses cavalares e permite um misto de emoções a quem assiste.

A simpatia por Mildred advém do que ocorreu com sua filha Angela, brutalmente estuprada e assassinada. Meses se passam sem que a polícia consiga resolver o caso e a mãe, então, decide chamar atenção: aluga três outdoors em sua cidade, Ebbing (Missouri), para cobrar ações dos homens da lei, cujo representante e alvo principal é o xerife William Willoughby (Woody Harrelson). ‘Bill’, admirado pela cidade, certamente é a maior voz da razão do filme, por mais que Mildred ache o contrário, e precisa conviver tanto com a dificuldade para investigar o caso de Angela e com os outdoors que o acusam, quanto com um câncer pancreático terminal.

O filme se desenvolve no ódio de Mildred pela polícia e em sua busca por justiça, que expõe, por sua vez, um radicalismo exacerbado da protagonista e leva ao sentimento de desprezo por Hayes, capaz, por exemplo, de passionalmente sugerir um “banco de dados de DNA” para todos os homens do país e penas de morte ou de atear fogo em uma delegacia.

Do outro lado da moeda está o policial Jason Dixon (Sam Rockwell), que também move desprezo e simpatia — sim, em ordem inversa ao que Mildred gera. Dixon transita do policial “machão”, que se acha acima de tudo e se coloca como o principal rival da mãe de Angela e seus outdoors, ao homem comum com empatia que sofre no incêndio e mesmo assim salva arquivos importantes.

A trama de história pesada não impede, ainda, momentos de forte humor negro. As cenas das idas de Mildred ao dentista amigo de Willoughby e à escola de seu filho Robbie (Lucas Hedges) são exemplos, bem como a ‘visitinha’ que o policial Dixon faz a Red Welby (Caleb Landry Jones), chefe da empresa de outdoors contratada por Hayes.

É um filme realmente muito bom, que justifica a vitória como Melhor Drama no Globo de Ouro e a indicação à estatueta de Melhor Filme. Suas quase duas horas passam rápido e a trama é envolvente. A indicação de Martin McDonagh a Melhor Roteiro Original é justa e há boas chances de vitória — o roteiro já venceu um Golden Globe. McDonagh estranhamente não concorre a Melhor Diretor, prêmio que, de qualquer forma, deve ficar com Guillermo del Toro (A Forma da Água).

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri ainda concorre com a dupla Woody Harrelson e Sam Rockwell a Melhor Ator Coadjuvante. Apesar do bom papel de Harrelson como Willoughby, a maior chance de estatueta na categoria é Rockwell, certamente a grande estrela do longa após Frances McDormand.

Há também indicações ao Oscar de Melhor Edição, categoria na qual é bom candidato, e de Melhor Trilha Sonora, em que, por sua vez, não chama tanta atenção.

Nota: 4,5/5

Sinopse:
Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o Delegado Willoughby, responsável pela investigação.

Maratona Oscar: A Qualquer Custo/Gabriel Araújo

Maratona Oscar: A Qualquer Custo/Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araújo (@gabriel_araujo1)

Maratona Oscar: “A Qualquer Custo”hell_or_high_water

Se alguém imaginava que o western estava morto, é bom pensar melhor. Um dos filmes de destaque de 2016 traz de volta ao mainstream o característico faroeste americano, com um bom toque de modernidade e amplificando importantes questões sociais. Cinco minutos bastam para que os sentidos sejam aguçados pelo longa de David Mackenzie, que na seguinte 1h40 mostra que mereceu suas quatro indicações ao Oscar.

O filme tem como protagonistas os irmãos Toby e Tanner Howard, interpretados por Chris Pine e Ben Foster, respectivamente. O primeiro é o “filho bom”, divorciado, dois filhos, que tem como objetivo pagar a hipoteca e os impostos de sua recém-falecida mãe. Ele se junta ao segundo, o “filho mau”, um ex-presidiário sem grandes pretensões na vida, para cumprir seu propósito com uma dose de criminalidade: roubando bancos para angariar os fundos necessários.

O mais curioso é justamente o fato de um banco, especificamente, ser o alvo principal da dupla: o banco que “sustentava” a terra da família e emprestava um dinheiro mínimo para a pobre mãe se manter no fim da vida, esperando que, após a morte da matriarca, o rancho sobrasse de ‘mão beijada’ para a companhia. São suas agências que os irmãos Howard atacam, com a ideia de pagar o que o banco cobrava… com o próprio dinheiro do banco. Segundo um advogado que os atende ensinando a lutar contra o banco e a lavar o dinheiro em casino, como se o ganhassem em apostas, “não há nada mais texano”.

Não parece, realmente, um roteiro muito mirabolante, mas as entrelinhas fazem de Hell or High Water um bom filme. A primeira imagem do longa é um muro em frente a um banco com a pichação de “mandam tropas para o Iraque, mas não refinanciam nossa hipoteca”. Um tom de uma ‘realidade americana 2016’ e do que o filme abordará — há momentos, inclusive, em que é possível quase ‘torcer’ para os anti-heróis contra o duro mundo de lucro, lucro e lucro dos bancos. Como se ‘torcia’ para um Walter White (“Breaking Bad”) da vida.

Claro que, como um bom faroeste moderno com crimes, a polícia também se envolve — e é daí que sai a melhor atuação do filme: a de Jeff Bridges, interpretando o quase aposentado policial Marcus Hamilton, que tem como sua “missão final” a caça aos irmãos Howard. Bridges, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel, dá à personagem o tom que um velho policial do interior texano merece. Está muito bem, e aqui surge a melhor chance de “A Qualquer Custo” na premiação da Academia.

Não desmerecendo, claro, as atuações de Chris Pine e Ben Foster, que fazem um bom papel como irmãos. A seleção de elenco foi boa ao buscá-los, mas não há grandes surpresas ou destaques nas atuações dos dois, que beiram o normal, enquanto Bridges toma conta do filme com seu estilo muito bem definido, amplificado pelos trejeitos e sotaque de Marcus Hamilton.

É interessante notar, também, como outras questões que voltaram a ser extremamente comentadas recentemente, especialmente com eleição e posse de Donald Trump como presidente dos EUA, também são abordadas em uma área bastante conservadora: o posse de arma, já que todos no filme andam com seu revólver (ou rifles, até) nas mãos; o racismo, evidenciado nas constantes piadas do detetive Hamilton com seu companheiro, Alberto (Gil Birmingam), um descendente de mexicanos e indígenas (aqui entra também a questão histórica, da terra tomada dos índios pelo exército, e agora das gerações seguintes pelos bancos e petrolíferas); e a xenofobia, em uma cena em especial: em um dos assaltos, um senhor que estava no banco (armado, claro) se surpreende e diz que “vocês (Toby e Tanner) não são nem mexicanos [para assaltarem]”; tudo se unindo, é claro, para explicitar justamente o conservadorismo ferrenho do interior sulista norte-americano, que, além de tudo isso, também rende bons espaços de filmagem e um estilo bem peculiar, principalmente na forma de falar, que o filme aborda bem.

O grande mérito do filme é justamente trabalhar com um gênero um tanto quanto esquecido unindo-o bem aos Estados Unidos dos últimos dez anos. Os problemas econômico-sociais (estes, ok, bem mais antigos) americanos ganham mais uma voz importante. É um excelente mecanismo para se inteirar de como anda o caminho dos EUA no pós-crise, de como as questões históricas ainda atormentam, o que se encontra em um West Texas e adjacentes, a que pés anda o capitalismo e no que o país parece estar pronto para mergulhar.

Outro ponto de destaque é a trilha sonora, que traz com maestria o som do faroeste às telonas. A assinatura vem com o selo “The Bad Seeds” de qualidade: o líder da banda, Nick Cave, mais uma vez se une a Warren Ellis, também membro do grupo, para explorar a música no cinema. Se saem bem.

Hell or High Water não parece pintar como um grande favorito ao Oscar. Se levar algo, deve ser justamente com Jeff Bridges como coadjuvante. Apesar de bom filme, parece que outros estão à frente na preferência da Academia. Em outras premiações, sempre surgiu como indicado, mas também não faturou muita coisa — destaque para um Satellite para Bridges. Mas não custa aguardar e conferir. O longa de David Mackenzie ainda concorre aos prêmios de melhor filme, melhor roteiro original (Taylor Sheridan) e melhor edição (Jake Roberts).

Nota: 4,5/5

Sinopse:
Dois irmãos, um ex-presidiário e um pai divorciado com dois filhos, perderam a fazenda da família em West Texas e decidem assaltar um banco como uma chance de se reestabelecerem financeiramente. Só que no caminho, a dupla se cruza com um delegado, que tudo fará para capturá-los.

 

Maratona do Oscar: O Regresso/Gabriel Araújo

Maratona do Oscar: O Regresso/Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araújo (@gabriel_araujo1)

Sessão de Matinê: “O Regresso”TheRevenant-Poster

Desponta como um dos favoritos ao Oscar do próximo domingo (28) o mais recente filme de Alejandro G. Iñárritu, “O Regresso”. Premiado como melhor diretor pela Academia no ano passado, por “Birdman” (que ainda levou roteiro original e melhor filme), o mexicano aposta em uma história real estrelada por Leonardo DiCaprio para abocanhar novas estatuetas – está na disputa por 12 delas.

É muito provável, aliás, que o próprio DiCaprio, em sua quinta indicação, enfim leve o Oscar. Não que tenha feito a atuação de sua vida. Vivendo no oeste americano o caçador de peles dos anos 1820 Hugh Glass, Leonardo não aparece tão bem quanto em filmes como “O Lobo de Wall Street”, mas, diante de uma concorrência não tão desleal quanto nos outros anos e de um papel difícil, onde pouco fala e precisa transmitir o sentimento ao público com caretas e ações tensas, se arrastando e grunhindo, tem tudo para voltar para casa com um troféu.

“O Regresso” é altamente concentrado em cenas de impacto. Logo na abertura, uma luta sanguinária entre os caçadores de pele comandados por Glass e índios trabalhando para os franceses. Não para por aí. Ao longo do filme, a personagem de DiCaprio pulará em águas congelantes, será abandonado por seus parceiros e praticamente enterrado vivo, terá delírios com a ex-mulher morta e com o filho, será soterrado por neve, comerá tripas de um bisão, se abrigará dentro de um cavalo, se arrastará pela floresta, enfrentará índios loucos, pulará de um penhasco num cavalo e (especialmente) lutará numa cena incrível com um urso gigantesco. Tudo em nome de sobrevivência e vingança contra o vilão que desonra o grupo ao qual pertence, mente para chefe e parceiro e trai Glass, John Fitzgerald (Tom Hardy). E aqui mal há spoilers – na dúvida, cheque o trailer.

É até mesmo complicado apresentar o enredo de um filme cansativo de três horas com tantos sacrifícios do protagonista, o que nos leva a cair na vala de comentar apenas a atuação de DiCaprio. Não só dele é feito “O Regresso”. Tom Hardy, por exemplo, é outro com excelente trabalho, mas a ele restou o segundo plano – não que seja algo ruim, já que o leva a também brigar por um Oscar, como melhor ator coadjuvante, ainda que não seja favorito, pois esbarra num filme um tanto quanto raso.

A maior beleza do longa de Iñárritu está nas tomadas e cortes de imagens, apesar de todas as dificuldades de filmagem, sempre em locais verdadeiramente gelados e com luz natural. Há pouco de artificial na produção. Dirigido minimalista e competentemente por Iñárritu, Emmanuel Lubezki deve voltar a brilhar – premiado por melhor fotografia no Oscar em 2014 (“Gravidade”) e 2015 (“Birdman”), tem tudo para sentir o gosto do triunfo pela terceira vez consecutiva.

Mesmo com tamanha beleza fotográfica, o roteiro desequilibra o filme e peca. É arrastado e cansativo. O tempo passa e você segue na apreensão do que acontecerá a seguir com Hugh Glass. O sofrimento nunca acaba e, assim, o espectador se esgota – na sequência final, se decepciona com a melancolia total.

Tudo bem que a produção pode novamente coroar Iñárritu e enfim levar o excelente Leonardo DiCaprio ao Olimpo, mas quem assiste a “O Regresso” deixa a sala de cinema com sensações mistas – uma, de ter visto um filme bom tecnicamente e recheado de belezas incríveis, com boas cenas de ação e um ‘quê’ poético; outra, de cansaço. Só não pinga suor por ter passado as três longas horas no ar condicionado. Era melhor, realmente, que o fôlego tivesse sido tirado pelas mesmas três horas do mesmo DiCaprio num “O Lobo de Wall Street”. Antes de “O Regresso”, tenha uma boa noite de sono e tome um longo suspiro. Você logo se verá maravilhado, mas cansado. Cuidado com os cochilos.

Nota: 3/5

Sinopse:
1822. Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, fica seriamente ferido e é abandonado à própria sorte pelo parceiro John Fitzgerald (Tom Hardy), que ainda rouba seus pertences. Entretanto, mesmo com toda adversidade, Glass consegue sobreviver e inicia uma árdua jornada em busca de vingança.

Maratona do Oscar: A Grande Aposta / Por Gabriel Araújo

Maratona do Oscar: A Grande Aposta / Por Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araújo (@gabriel_araujo1)

The_Big_Short_teaser_posterSessão de Matinê: “A Grande Aposta”

Um filme classificado como dramático, sustentado em comédia e desenhado como documentário. Não é nada fácil construir um longa com tantos predicados, mas Adam McKay conseguiu. “A Grande Aposta” pode ser entediante e de difícil compreensão para alguns, mas se caracteriza, na verdade, como um importante filme crítico. Talvez, a explicação que faltava para um momento de aflição mundial.

Inspirado em fatos reais, com base no livro “A Jogada do Século”, de Michael Lewis, “A Grande Aposta” retrata a antecipação em ao menos três anos da gigantesca crise no mercado imobiliário norte-americano, que explodiu em 2008, por parte de investidores que, observando a ambição, a má-fé, as fraudes pelos que deveriam evitá-lo, previram o estouro da bolha.

Apostando em vários núcleos, visões distintas de cada um dos que jogaram contra o sistema bancário, os produtores acertam. A cada notícia, uma reação diferente por parte dos protagonistas. Há o ambicioso, o minimalista, os preocupados, os que desejam… Características diversificadas para uma situação comum, doses que fazem de quase todos os atores personagens com importância total e direta dentro dos fatos – e que, curiosamente, acabam tendo de torcer para que a crise ocorra e milhares de pessoas percam empregos e casas para que suas apostas sejam corretas.

Christian Bale faz o isolado problemático que descobriu o que estava por vir; Ryan Gosling, o ambicioso investidor que foge dos ideais de sua empresa para seu bem próprio – um louco por dinheiro; Steve Carrell, um nervoso homem, ciente das coisas e consternado com as consequências da jogada, algo que também se aplica à personagem de Brad Pitt; John Magaro e Fin Wittrock, os jovens com desejo pelo lucro.

Gosling, que apresentou a causa aos outros, é subaproveitado no filme. Poderia aparecer mais, assim como Bale, que surge muito bem como Michael Burry, em uma boa interpretação de uma personagem que é muito provavelmente a mais humana do filme, e que tinha condições, como o homem que descobriu o imperceptível, de ganhar maior importância. Um coadjuvante com peso de protagonista.

Quem brilha, mesmo, é Steve Carrell. Um mago de interpretações diversificadas, Carrell já provou que pode ser tanto um chefe de escritório numa comédia para a TV quanto um estressado e preocupado investidor no cinema. Uma atuação brilhante, incorporando profundamente a personagem – que o rendeu uma indicação ao Globo de Ouro.

O nome por trás das telas também merece créditos. Adam McKay dirige de maneira sublime um filme teoricamente complicado. Mostra como é fundamental um bom diretor e incorpora, num drama, as doses de comédia que o alavancaram com filmes como “O Âncora – A Lenda de Ron Burgundy”. Merecidamente, foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Bom trabalho.

O longa está recheado de termos financeiros. Títulos hipotecários, CDSs, CDOs, securitização… O ‘economês’ parece ser o grande empecilho da película, algo definitivamente pouco atrativo, mas McKay consegue traduzi-lo – de maneira bem-humorada, aliás. São convocados para explicá-lo Selena Gomez, Anthony Bourdain, Richard Thaler e Margot Robbie – esta, que já esteve num excelente filme justamente com bases financeiras (“O Lobo de Wall Street”).

(Parêntese: Não parece ser totalmente justo, aliás, comparar “A Grande Aposta” ao filme de Martin Scorsese, que teve Leonardo DiCaprio como Jordan Belfort. São abordagens diferentes. Apesar de um ator se comunicar diretamente com o público ao longo de ambas as produções, as formas de apresentação são distintas, especialmente quando se trata da utilização, diferentemente do filme de Scorsese, de vários núcleos no longa de Adam McKay).

Ainda que haja a tradução de alguns dos termos econômicos, para muitas pessoas ainda pode ser algo difícil de se entender. Claro que o tato com tais expressões também é muito complicado, mas existe, sim, um abuso delas, o que torna o filme, em determinadas ocasiões, entediante – algo provocado também pelo excesso de “americanidade”, que pode incomodar. Muitos dos que não se acostumarem com a pegada já no início sofrerão para terminar a sessão – e alguns acabarão dormindo (ver alguém dormir numa sessão de cinema nunca deixa de ser decepcionante). Ou seja: mesmo tentando evitar todo tipo de sofrimento com os termos, ele acaba existindo.

Há de se destacar, ainda, a ótima trilha sonora da película. Sons do nível de Mastodon, Guns n’ Roses, Metallica, Gorillaz, Neil Young e Led Zeppelin embalam a produção, que ainda conta com a utilização de músicas da época em que os fatos ocorreram, como ‘Crazy’ (Gnarls Barkley) e ‘Money Maker’ (Ludacris, Pharrell Williams), para marcar o tempo.

A edição também é boa. Intervenções pontuais com frases como “A verdade é como a poesia. As pessoas não gostam de poesia” são bem interessantes, tal qual a apresentação de momentos do cenário mundial à época.

Por conta dos escorregões compreensíveis com a linguagem, “A Grande Aposta” não alcança a perfeição. Filme excepcional não deixa ninguém dormir. Mas, pelas interpretações muito boas, pela versatilidade da direção em um drama-comédia-documentário e pela ótima edição, merece ser visto e julgado de acordo com cada um. É uma ótima opção nos cinemas.

Nota: 4/5

Sinopse:
Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso.

Vai que dá Certo 2

Vai que dá Certo 2

Por: Gabriel Araújo (@gabriel_araujo1)

164442_000_pSessão de Matinê: “Vai que dá Certo 2”

Ir ao cinema e ser barrado por ainda não ter alcançado a maior-idade: acontece. Os planos de assistir “Os Oito Odiados”, o oitavo filme de Quentin Tarantino, foram por água abaixo com a classificação indicativa de 18 anos. O horário não favorecia, a lista de filmes não era tão boa, então restou trocar o ingresso por (mais) uma sequência de comédia nacional: “Vai que dá Certo 2” foi o plano B, continuação de um filme que, ao menos na primeira parte, mostrou que vive justamente de… planos B.

O sucesso alcançado por uma comédia engraçadíssima de adultos-crianções foi muito grande com o primeiro filme, então revivê-lo parecia uma boa opção. Infelizmente, a alma de “Vai que dá Certo” não se manteve a mesma, e o diretor Maurício Frias, ao tentar elaborar o enredo, acabou escorregando.

No longa, Rodrigo (Danton Mello) se casa com Jaqueline (Natália Lage), mas acaba tendo de abrigar seu primo Danilo (Lúcio Mauro Filho), perseguido por seu ex-chefe Elói (Vladimir Brichta) por possuir um vídeo secreto deste, que está para se casar, por interesses, com uma idosa milionária, e precisa evitar que chegue a ela o DVD. Daí parte a confusão.

Não é sequer possível descrever bem a trama, tamanhas as alterações dos planos, as mudanças do enredo, o foco em cada personagem. Há uma disparidade enorme entre tudo, e a comédia, afinal, só fica por conta dos divertidos adultos imaturos Tonico, interpretado por Felipe Abib, e especialmente Amaral (Fábio Porchat). Lúcio Mauro, o vô Altamiro, também faz participações engraçadas, assim como Lúcio Mauro Filho – este, aquém do primeiro filme.

É notável a ausência do genial Gregorio Duvivier, que não reencarnou Vaguinho nesta sequência. Sua personagem (que ganhou muito dinheiro como laranja do político Paulo Pedreira, conhecido em “Vai que dá Certo”, e foi para a Argentina) dava um divertido toque nerd ao lado de Tonico, que agora, apesar de participar mais, fica um pouco perdido.

Na trupe de loucos, Danton Mello parece ser a ovelha negra. É o consciente, que age como se estivesse numa série dramática. Já Vladimir Brichta, que parecia ser importante no enredo, pouco aparece – quando o faz, surge como um gângster. Os policiais corruptos Cid e Da Silva são outros pontos díspares, além de, num momento complicado em discussões sociais, machismos surgirem quanto às personagens femininas – Jaqueline e Simone (Verônica Debom). Ponto importante que muitas críticas especializadas mencionaram.

Ao contrário do primeiro filme, simples, muito engraçado e acima da média, “Vai que dá Certo 2” não atende as expectativas. Provoca risos, tem humor, mas não chega nem perto do primeiro, que tem cenas de gargalhar, como a do falso-sequestro de Danilo – e são inevitáveis as comparações, dada a qualidade do anterior. Ao tentar incrementar a película, adicionando situações que fogem do padrão inicial da história, os produtores erram, confundem o espectador e acabam com a alma, a tendência da série, gerando um filme nada além de mediano.

Nota: 2,5/5

Sinopse:
Depois de quase ficarem ricos com um plano quase perfeito e genial, Amaral, Rodrigo e Tonico estão precisando de grana mais do que nunca. A crise aumenta ainda mais quando Jaqueline aceita casar com um deles. Quando um DVD com cenas comprometedoras cai nas mãos de Danilo, surge a grande chance de virar o jogo. O sonho de faturarem uma bolada tem apenas alguns obstáculos: um malandro capaz de tudo pra se dar bem, uma prima periguete e perigosa e dois policiais nada federais. Agora é só seguir o plano cuidadosamente improvisado por eles, que dessa vez não tem como dar errado!