
Não há muito mais a ser dito sobre “O Beco do Pesadelo” desde que Martin Scorsese foi às páginas do Los Angeles Times pedir para que seus leitores dedicassem um tempo para assistir ao novo filme de Guillermo Del Toro, ao qual tece profundos elogios.
“Fiquei impressionado e emocionado”, diz Scorsese. “Fico ansioso para assistir qualquer coisa feita por Guillermo, mas este filme em particular teve um poder e uma ressonância especiais para mim. E então percebi que as pessoas simplesmente não estavam indo vê-lo.”
“Um diretor como Guillermo, que nos dá filmes tão amorosa e apaixonadamente construídos, não apenas precisa do nosso apoio: ele merece.”
Sim, o longa de Del Toro não prosperou nas bilheterias, e a coluna de Scorsese torna este fato ainda mais estranho. E até por isso, claro, merece que tentemos publicar algumas mal traçadas próprias sobre “O Beco do Pesadelo”, que no Brasil já está disponível no Star+, serviço de streaming da Disney.
Originalmente intitulado “Nightmare Alley”, o filme traz Bradley Cooper no papel de Stan Carlisle – um candidato a golpista que, sozinho no mundo, se junta a um circo no final dos anos 1930 e a partir disso se envolve com truques mentais que, especialmente na segunda parte do longa, farão justiça aos que classificam como um thriller psicológico a adaptação do livro homônimo de William Lindsay Gresham, lançado em 1946.
A primeira hora do filme, que a princípio me pareceu uma introdução longuíssima mas depois fez todo o sentido, se passa no interior dos Estados Unidos e mostra a chegada e evolução de Carlisle no circo, contando com coadjuvantes do quilate de William Dafoe e Toni Collette. Já a segunda hora e meia ocorre em Nova York, no desenrolar psicológico no qual as aventuras circenses levaram Carlisle a embarcar, e tem a luxuosa presença de Cate Blanchett como a psicanalista Lilith Ritter.
Cooper está, mais uma vez, muito bem no papel principal. Blanchett também traz uma ótima performance como, por que não?, a “femme fatale” do filme. Guillermo del Toro entrega o que se espera do diretor de “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água”. Mas devo dizer que fiquei muito tocado pela performance de Rooney Mara como Molly Cahill, parceira de Stan desde os anos de circo, papel no qual ela transita maravilhosamente entre a inocência, a segurança, a força e o medo. Ela é a coadjuvante melhor explorada num filme em que parte deles não são vistos tão profundamente. Merece o reconhecimento.
No Oscar, “O Beco do Pesadelo” lutará pelas estatuetas de melhor filme, melhor fotografia (de fato excelente, aplausos para Dan Laustsen), melhor figurino e melhor design de produção. Não deve sair da premiação muito laureado, a julgar pelas disputas anteriores – no BAFTA, foi indicado às mesmas categorias (com exceção de melhor filme) e não levou nenhuma delas; no Critics’ Choice Awards, acumulou oito indicações – incluindo Del Toro como melhor diretor –, mas também saiu de mãos abanando.
Mas de quê isso importa? Deixe de lado as premiações e a bilheteria modesta de 37,8 milhões de dólares até aqui, contra um orçamento de 60 milhões, ao fazer sua avaliação.
Seja visto como noir (classificação um tanto simplista que Scorsese recomenda que seja pensada duas vezes antes de ser dada), seja como thriller psicológico ou suspense, “O Beco do Pesadelo” e seu ótimo elenco fazem por merecer sua audiência. Guillermo Del Toro merece – e quem está dizendo não sou só eu; é Martin Scorsese.
Sinopse
Do visionário cineasta Guillermo del Toro, chega um thriller psicológico de suspense sobre um manipulador (Bradley Cooper) que se une a uma psiquiatra igualmente enganadora (Cate Blanchett) para roubar os ricos da sociedade de Nova York dos anos 1940. Del Toro coescreveu este filme com Kim Morgan, baseado no romance de William Lindsay Gresham.