A HBO tem exibido desde o fim de 2018 a série documental “O Negro no Futebol Brasileiro”. Baseada no livro homônimo de Mário Filho – sim, o jornalista que dá nome ao Maracanã –, a série traz importante tema à tona neste país tão miscigenado e tão racista. Atualização, aliás, ao tema pensado por Mário Filho ainda na década de 1940 (a primeira edição do livro data de 1947), antes mesmo, por exemplo, do calvário vivido por Barbosa na Copa de 1950 decretar que “goleiro negro não presta”.
Desde então, o Brasil produziu alguns dos maiores jogadores de todos os tempos, sendo enorme parcela deles negra – inclusive o maior de todos, Pelé. É pensando nessa construção histórica, desde antes da obra de Mário Filho até os dias atuais, que Gustavo Acioli dirige a série, que possui quatro episódios de uma hora cada.
O primeiro deles aborda o preconceito racial embutido ao futebol em seus primórdios no Brasil, demonstrando como o pioneirismo do Vasco ao aceitar atletas negros foi fundamental social e esportivamente. Na sequência, brilha o Diamante Negro: Leônidas da Silva, cujo apelido dá nome ao famoso chocolate. Leônidas foi um dos primeiros grandes craques do Brasil, ídolo do São Paulo, grande nome da Copa do Mundo de 1938. Sucesso que não garantia, porém, a eliminação do racismo da sociedade.
Se essa eliminação não chegou até hoje, aliás, é certo que nem mesmo o maior nome da história do futebol foi capaz de realizá-la. Ainda pegando carona na história de Leônidas, a série exibe Pelé já no episódio anterior, mas aprofunda sua importância no episódio três, abordando ainda o futebol antes e depois de Pelé para os negros. É importante a demonstração, inclusive, de que no mundo do futebol a cor da pele não te faz melhor ou pior, como a própria excelência de Pelé demonstra, mas que transportar a discussão racial do esporte para a sociedade geral evidencia o racismo enraizado nesta.
Alguns grandes gênios do futebol – negros – surgiram na esteira de Pelé: Ronaldinho, duas vezes melhor do mundo; Rivaldo, maestro do Mundial de 2002; Romário, que deu ao Brasil a Copa de 1994 (e, vale dizer, foi o único candidato autodeclarado negro ao governo do Rio de Janeiro em 2018, assunto abordado em debate)… Mas o racismo permanece, seja no Brasil (quem não se lembra do caso Aranha contra o Grêmio?), seja na Europa (lembra-se da banana atirada em Daniel Alves?), após a globalização do futebol. É o que demonstra o quarto episódio.
Essencial, a série é recheada por declarações desses atletas (e de muitos outros: Cláudio Adão, Cafu, Adriano, Dadá Maravilha, Júnior e mais). Ainda conta com luxuosas participações especiais, como a de Gilberto Gil. É um importante resgate da memória da obra de Mário Filho, mas, mais do que isso, um necessário instrumento de reflexão sobre o tema, que ainda tem muito a ser comentado, debatido, compreendido – a citada situação dos goleiros, por exemplo. Absolutamente fundamental a um país, repetindo, tão miscigenado e (ainda) tão racista.
“O Negro no Futebol Brasileiro” tem sido exibida na programação dos canais HBO. Vale consultar os horários.