Por: Gabriel Araujo

Outro dia, voltando do show de Nick Cave em São Paulo, eu dirigia ouvindo uma das reprises do “Fim de Expediente”, programa da Rádio CBN, já no fim da noite. Alguns têm o som do rádio apenas como um ambiente, mas eu gosto de prestar atenção. E foi assim, prestando atenção no rádio, que a atração comandada por Dan Stulbach me forneceu, em uma noite despretensiosa na rodovia Presidente Dutra, um tema para esta coluna sobre esporte e cinema: o documentário em episódios “Linhas Tortas”, de João Wainer.
Nossa amiga e colega Anna Barros, em edição extraordinária desta coluna, já havia comentado o episódio com Nando, irmão de Zico, premiado no Cinefoot. O documentário completo, porém, vai além disso. Há sete outras partes com histórias magníficas de jogadores que, segundo a entrevista de Wainer à CBN, inicialmente eram chamados pela produtora da série de “ex-futuros craques”. Ele, entretanto, conta que rechaçou a nomenclatura, por considerar que todos aqueles jogadores e ex-jogadores eram, de fato, craques – apenas tiveram “linhas tortas” traçadas pela vida.
Nando, irmão mais velho de Zico, por exemplo, é um craque que se viu perseguido injustamente pela ditadura militar, que o considerava subversivo. Ele teve de abandonar a carreira no futebol para evitar que o grande pupilo da família Antunes Coimbra, Arthur, não fosse prejudicado.
Zé Mário, por sua vez, era um dos grandes nomes do Botafogo de Ribeirão Preto nos anos 1970. Ponta-direita, atuou ao lado de Sócrates no Fogo e chegou a ser considerado até mesmo melhor que o Doutor. Foi convocado para a Seleção Brasileira em 1977 e lá, submetido a exames pelo histórico Dr. Lídio Toledo, descobriu estar com leucemia, doença que o levou à morte menos de um ano depois, aos 21 anos de idade.
Já Edinho é o filho de Pelé. Como goleiro, não conseguiu sustentar a máxima de que “filho de peixe, peixinho é”. Apesar de alguns anos defendendo a meta do Santos, no qual foi vice-campeão brasileiro de 1995, se aposentou precocemente, com menos de 30 anos, e se envolveu com o tráfico de drogas, o que o levou à prisão.
Enfim, essas são três das fantásticas – e por vezes muito tristes – histórias não só de futebol, mas de vida, abordadas por João Wainer em “Linhas Tortas”. O cineasta e fotógrafo ainda transporta às telas os casos de Jobson (que teve, no Botafogo, ascensão tão rápida quanto à queda, muito em função do uso de drogas), Roma (ex-Flamengo, o “novo Romário”, que salvou o time de um rebaixamento), Alceu (ex-Guarani e Seleção, também se envolveu com as drogas), Celsinho (hoje atuando no São Bento, foi jovem jogar na Rússia após se destacar com as seleções de base, se deslumbrou e nunca engrenou na carreira) e Renatinho (revelado pelo São Paulo no começo do século, chegou a ser visto como a principal jovem estrela do clube, acima de Kaká; também não decolou e teve como principal conquista da carreira a Copa do Brasil de 2005, pelo Paulista de Jundiaí, como reserva).
Cada um dos curtas possui 25 minutos e a Play TV já os exibiu na TV fechada. Os documentários foram produzidos pela Academia de Filmes e valem um olhar cuidadoso, assim como vale atenção o papo de João Wainer com o time do “Fim de Expediente”, no qual o cineasta explica melhor as “linhas tortas” nas vidas dos craques que não vingaram e comenta sobre mais alguns de seus projetos. Ele, vale dizer, tem “pedigree”: é neto de Samuel Wainer e Danuza Leão, sobrinho-neto de Nara Leão, filho de Pinky Wainer… Uma longa lista de arte na família, no qual João, pois, também se encaixa.