Maratona do Oscar: A Grande Aposta / Por Gabriel Araújo

Maratona do Oscar: A Grande Aposta / Por Gabriel Araújo

Por: Gabriel Araújo (@gabriel_araujo1)

The_Big_Short_teaser_posterSessão de Matinê: “A Grande Aposta”

Um filme classificado como dramático, sustentado em comédia e desenhado como documentário. Não é nada fácil construir um longa com tantos predicados, mas Adam McKay conseguiu. “A Grande Aposta” pode ser entediante e de difícil compreensão para alguns, mas se caracteriza, na verdade, como um importante filme crítico. Talvez, a explicação que faltava para um momento de aflição mundial.

Inspirado em fatos reais, com base no livro “A Jogada do Século”, de Michael Lewis, “A Grande Aposta” retrata a antecipação em ao menos três anos da gigantesca crise no mercado imobiliário norte-americano, que explodiu em 2008, por parte de investidores que, observando a ambição, a má-fé, as fraudes pelos que deveriam evitá-lo, previram o estouro da bolha.

Apostando em vários núcleos, visões distintas de cada um dos que jogaram contra o sistema bancário, os produtores acertam. A cada notícia, uma reação diferente por parte dos protagonistas. Há o ambicioso, o minimalista, os preocupados, os que desejam… Características diversificadas para uma situação comum, doses que fazem de quase todos os atores personagens com importância total e direta dentro dos fatos – e que, curiosamente, acabam tendo de torcer para que a crise ocorra e milhares de pessoas percam empregos e casas para que suas apostas sejam corretas.

Christian Bale faz o isolado problemático que descobriu o que estava por vir; Ryan Gosling, o ambicioso investidor que foge dos ideais de sua empresa para seu bem próprio – um louco por dinheiro; Steve Carrell, um nervoso homem, ciente das coisas e consternado com as consequências da jogada, algo que também se aplica à personagem de Brad Pitt; John Magaro e Fin Wittrock, os jovens com desejo pelo lucro.

Gosling, que apresentou a causa aos outros, é subaproveitado no filme. Poderia aparecer mais, assim como Bale, que surge muito bem como Michael Burry, em uma boa interpretação de uma personagem que é muito provavelmente a mais humana do filme, e que tinha condições, como o homem que descobriu o imperceptível, de ganhar maior importância. Um coadjuvante com peso de protagonista.

Quem brilha, mesmo, é Steve Carrell. Um mago de interpretações diversificadas, Carrell já provou que pode ser tanto um chefe de escritório numa comédia para a TV quanto um estressado e preocupado investidor no cinema. Uma atuação brilhante, incorporando profundamente a personagem – que o rendeu uma indicação ao Globo de Ouro.

O nome por trás das telas também merece créditos. Adam McKay dirige de maneira sublime um filme teoricamente complicado. Mostra como é fundamental um bom diretor e incorpora, num drama, as doses de comédia que o alavancaram com filmes como “O Âncora – A Lenda de Ron Burgundy”. Merecidamente, foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Bom trabalho.

O longa está recheado de termos financeiros. Títulos hipotecários, CDSs, CDOs, securitização… O ‘economês’ parece ser o grande empecilho da película, algo definitivamente pouco atrativo, mas McKay consegue traduzi-lo – de maneira bem-humorada, aliás. São convocados para explicá-lo Selena Gomez, Anthony Bourdain, Richard Thaler e Margot Robbie – esta, que já esteve num excelente filme justamente com bases financeiras (“O Lobo de Wall Street”).

(Parêntese: Não parece ser totalmente justo, aliás, comparar “A Grande Aposta” ao filme de Martin Scorsese, que teve Leonardo DiCaprio como Jordan Belfort. São abordagens diferentes. Apesar de um ator se comunicar diretamente com o público ao longo de ambas as produções, as formas de apresentação são distintas, especialmente quando se trata da utilização, diferentemente do filme de Scorsese, de vários núcleos no longa de Adam McKay).

Ainda que haja a tradução de alguns dos termos econômicos, para muitas pessoas ainda pode ser algo difícil de se entender. Claro que o tato com tais expressões também é muito complicado, mas existe, sim, um abuso delas, o que torna o filme, em determinadas ocasiões, entediante – algo provocado também pelo excesso de “americanidade”, que pode incomodar. Muitos dos que não se acostumarem com a pegada já no início sofrerão para terminar a sessão – e alguns acabarão dormindo (ver alguém dormir numa sessão de cinema nunca deixa de ser decepcionante). Ou seja: mesmo tentando evitar todo tipo de sofrimento com os termos, ele acaba existindo.

Há de se destacar, ainda, a ótima trilha sonora da película. Sons do nível de Mastodon, Guns n’ Roses, Metallica, Gorillaz, Neil Young e Led Zeppelin embalam a produção, que ainda conta com a utilização de músicas da época em que os fatos ocorreram, como ‘Crazy’ (Gnarls Barkley) e ‘Money Maker’ (Ludacris, Pharrell Williams), para marcar o tempo.

A edição também é boa. Intervenções pontuais com frases como “A verdade é como a poesia. As pessoas não gostam de poesia” são bem interessantes, tal qual a apresentação de momentos do cenário mundial à época.

Por conta dos escorregões compreensíveis com a linguagem, “A Grande Aposta” não alcança a perfeição. Filme excepcional não deixa ninguém dormir. Mas, pelas interpretações muito boas, pela versatilidade da direção em um drama-comédia-documentário e pela ótima edição, merece ser visto e julgado de acordo com cada um. É uma ótima opção nos cinemas.

Nota: 4/5

Sinopse:
Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso.

Maratona do Oscar: #259 Perdido em Marte

Maratona do Oscar: #259 Perdido em Marte

perdido em martePara os amantes de ficção científica, o filme é um achado. Vai além de todas as expectativas, principalmente o desempenho de Matt Damon, que pode figurar na categoria de Melhor Ator do Oscar de 2016. Sua performance é profunda, reflexiva no momento certo, madura e que causa, em certos momentos do filme, comoção. Fiquei bastante impressionada com a sua atuação e confesso que dava muito pouca coisa a Perdido em Marte.

Um filme que você já imagina como termina mas que mesmo assim tem aventura, drama, humor e suspense. Dá para se ter também uma noção de como funcionam os bastidores da Nasa.

Adorei o filme e super recomendo! O clímax se dá quando os tripulantes voltam para buscar Mark. O astronauta havia sido julgado como morto e deixado em Marte. Todo o processo de resgate, a princípio fracassado e numa luta constante contra o tempo é desenrolado nesse bom roteiro.

Eu deveria imaginar que um filme de Ridley Scott não poderia ser menos que ótimo!

Atualização dia 23 de janeiro às 15h15: EMatt Damon deveria ser indicado a Melhor Ator e o filme a Melhor Filme, como acabou acontecendo no dia 14 de janeiro.

 

 

251- Livre

251- Livre

livreO filme é muito bom. Achei que Reese Whiterspoon foi super estimada, mas ela desempenha bem o papel de uma moça que perdeu a mãe, viciada em heroína, que se divorcia e decide fazer uma trilha para autoconhecimento. O que parecem momentos de solidão acabam por se tornar momentos de reflexão. Além disso, há uma série de flashbacks para entendermos tudo que ela passou e sofreu.

A perda da mãe a levou a tomar as atitudes mais loucas e nocivas para ela mesma. Acabamos por ver como era o seu relacionamento com a mãe, como ela lidou com a doença dela e o também o relacionamento do irmão que não aceitava o ocorrido. E também como ela, mesmo casada, acabou se envolvendo de forma irresponsável com outros homens apenas pelo sexo. Como se o sexo fosse aplacar a grande dor que sentia. E o fato de ela não ter levado em consideração sua responsabilidade como mãe ao cometer tantos erros, entre eles, se envolver com drogas pesadas como heroína.

Reese está bem, mas Marion e Rosalinda, de Garota Exemplar, estão melhores.

A película nos leva a pensar na vida e a inúmeros questionamentos.

É um filme um pouco deprê, mas vale a pena.

Sinopse: Após a morte de sua mãe, um divórcio e uma fase de autodestruição repleta de heroína, Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) decide mudar e investir em uma nova vida junto à natureza selvagem. Para tanto, ela se aventura em uma trilha de 1100 milhas pela costa do oceano Pacífico.

 

250- Dois dias, uma noite

250- Dois dias, uma noite

dois diasEsse filme francês é muito interessante e me colocou a pulga atrás da orelha em relação ao Oscar de Melhor Atriz. O desempenho de Julianne Moore em Para sempre Alice é formidável, mas Marion Cottlilard está simplesmente fantástica fazendo uma personagem que sofre de Depressão, está prestes a perder o emprego e precisa convencer os colegas a aceitarem-na de volta. Para isso, precisam abrir mão de bônus que receberiam do dono da fábrica, o que gera tensão porque todos precisam do dinheiro para determinada coisa em suas vidas.

Marion tem a dose certa de sua personagem sem sentimentalismo e exageros. Nos pegamos torcendo por ela e vivendo com ela seu drama e o de sua família. Além do filme também  mostrar a percepção de uma pessoa deprimida, suas recaídas,  seu modo de agir e seu tratamento. Para completar a dose de compaixão de alguns colegas em prol de sua causa.

O final é surpreendente mostrando a ética da personagem, mesmo que sua ação acabe sendo contra ela mesma e a prejudique, de certa maneira.

Gostei muito do filme. Vale a pena assistir para comparar as atuações. Também vi Livre com Reese Whitespoon que será tema de outra resenha.

Sinopse:

Sandra (Marion Cotillard) perde seu emprego pois outros trabalhadores da fábrica preferiram receber um bônus ao invés de mantê-la na equipe. Ela descobre que alguns de seus colegas foram persuadidos a votar contra ela. Mas Sandra tem uma chance de reconquistá-lo. Ela e o marido (Fabrizio Rongione) têm uma tarefa complicada para o final de semana: eles devem visitar os colegas de trabalho e convencê-los a abrir mão de seus bônus, para que o casal possa manter o seu emprego.

Maratona do Oscar: Leviatã/Anna Barros

Maratona do Oscar: Leviatã/Anna Barros

Crédito da foto: Reprodução da Internet.
Crédito da foto: Reprodução da Internet.

Temos um concorrente à altura de Relatos Selvagens e Ida: Leviatã. O filme russo tem grandes chances de levar a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, apesar da nossa torcida pelos hermanos. O Globo de Ouro ele já levou.

O filme é crítico com o governo russo e seus trâmites como burocracia e golpes sujos para conseguir o que quer através do drama de um homem que vê sua propriedade em risco porque o prefeito quer desapropriá-la ou comprá-la para construir algo maior ali.

O pai de família, Kolya, recorre a um advogado amigo de Moscou que tenta a todo custo que ele ganhe a causa. Só que o advogado se envolve com a esposa dele. Já havia ali um drama familiar porque seu filho Roma não gosta da mulher e sempre a repele. Com a descoberta da traição após um churrasco de aniversário de um amigo, o drama só tende a aumentar.

Lilya pensa em deixar Kolya, mas o advogado não deixa. O prefeito corrupto acaba por dar uma surra nele e ele vai embora e larga o caso de Kolya.

É notório no filme também as críticas à Igreja pois o prefeito é um cristão ortodoxo devoto, que vai à missa e comunga. Também a fuga dos personagens no álcool, especificamente a vodka. E o contraste do que virou a Rússia de Putin hoje: navios quebrados, carcaças de animais, trilhos de trens desfeitos. E, mesmo assim, há toda a beleza das paisagens naturais do Ártico, perto do Mar de Barrents. O filme também deveria concorrer à fotografia.

Há um paralelo da trajetória de Kolya com a história bíblica de Jó. Quando ele encontra o padre local na venda onde ele costuma fazer compras e o questiona sobre Deus e a Fé já que a mulher dele morreu e toda a tragédia se abateu sobre a família dele. O padre cita Jó como uma ratificação dessa metáfora com a vida de paciência e provação de Kolya. E cita também o monstro Leviatã nessa abordagem. O título do filme Leviatã se refere ao monstro marítimo que aparece na história de Jó e que foi retratado pelo economista Thomas Hobbes como sendo o Estado: soberano, absoluto e imponente.

Interessante que no churrasco à beira do lago em que Pasha, o policial amigo de Kolya, mostra os quadros de Lênin, Gorbatchev e outros ícones russos. Menos Putin, o atual presidente. E o aniversariante diz que ele devia ter o quadro de Yeltsin, naquele arsenal.

No final, Lilya é assassinada e seu corpo jogado no mar: golpeado na cabeça e estuprada. E acusam Kolya do assassinato pois encontram o martelo usado no galpão da casa dele. Era tudo que o prefeito queria: que ele fosse condenado, o que aconteceu, sem provas contundentes, e ficasse quinze anos na prisão.

O lugar onde era a casa de Kolya vira uma igreja ortodoxa e o prefeito tem planos de fazer um refeitório nas redondezas e ampliar o local.

O diretor Andrey Zvyangsey foi muito feliz na concepção de seu filme e ele é favoritíssimo a levar a estatueta para a Rússia.

Super recomendo a todos!